Wynonna Earp é o faroeste bem-sucedido que Hollywood não conseguiu produzir | Spoilers

Wynonna Earp é o faroeste bem-sucedido que Hollywood não conseguiu produzir

Nos últimos anos, Hollywood tem se esforçado – sem grande sucesso – para trazer de volta a emoção dos faroestes, gênero cinematográfico que, em sua época dourada, colocava os mais talentosos homens do cinema num duelo de pistolas quase sempre letal.

De John Wayne, Clint Eastwood até Jeff Bridges e futuramente o próprio Chris Pratt, os homens sempre foram as estrelas que povoavam os universos áridos, em que criminosos encontravam a justiça na ponta de um revólver. Para as mulheres, com raras exceções de sucesso bem menor, restava o papel de donzelas em apuros ou servitude silenciosa.

O resgate desse papel menos que lisonjeiro veio em 2016 na forma da série canadense Wynonna Earp. O sobrenome famoso pode até ter vindo de um homem, o xerife da vida real Wyatt Earp, mas ganhou novo significado nas mãos de Wynonna (a excelente Melanie Scrofano), uma ex-adolescente rebelde que volta para sua cidade natal, Purgatory, somente para descobrir que é a herdeira de uma infame maldição: Em vida, Wyatt condenou 77 criminosos ao inferno, mas seus herdeiros foram amaldiçoados a enfrentarem os meliantes ressuscitados a cada nova geração.

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Filha do meio de Ward Earp, Wynonna assume o gatilho da pistola sobrenatural Peacemaker e parte, com a ajuda da caçula Waverly (Dominique Provost-Chalkley), para caçar demônios confinados na região do chamado Ghost River Triangle, enquanto vilões tentam ao mesmo tempo sobreviver aos Earps e escapar para trazer ruína ao resto do mundo.

Baseada numa série em quadrinhos criada pelo australiano Beau Smith, o western horror mudou consideravelmente de cara em sua versão televisiva. Nas mãos da showrunner Emily Andras, a história que mesclava muito mais criaturas sobrenaturais e viagens pelo mundo se concentrou em um único espaço; uma cidade moderna, mas com criminosos sobrenaturais e uma justiça distorcida que reflete o velho oeste tão característico do gênero.

Com atitude de sobra, Wynonna interage constantemente com moradores que são hostis a sua presença, ligada especialmente a uma tragédia que a fez perder a irmã mais velha e o pai, em quem ela própria atirou na tentativa de salvá-lo de uma horda de demônios. Enfrentando seus traumas a cada episódio, Wynonna está longe de ser uma personagem frágil. Suas tiradas sarcásticas lembram o melhor de séries que também tinham caçadoras de monstros como protagonistas, como Buffy, a Caça Vampiros, enquanto suas alianças são constantemente colocadas a prova obrigando uma pessoa que nunca foi boa em se relacionar a amadurecer rapidamente ao assumir a responsabilidade de salvar seu pequeno lugar no mundo e aqueles que ama.

Em artigo no site Film School Rejects, Alisha Grausho argumenta que Wynonna poderia, por muitos, ser considerada uma personagem “desagradável”, mas que apesar de seus traumas, sua personalidade é bem resolvida, sua atitude diante dos problemas que enfrenta é quase sempre difícil, mas saudável e o status de “mulher difícil” que os personagens ao seu redor lhe atribuem deriva – na série – puramente do fato dela ser uma mulher.

Ainda que seja acompanhado de outras séries com mulheres super-heroínas como Supergirl e Jessica Jones, o show não se utiliza quase nunca do subtexto feminista para contar sua história, sem, de fato, deixar de sê-lo. Em especial por colocar uma mulher que não pede desculpas por ser quem é, tomando para si as rédeas dos seus problemas e agindo em pé de igualdade com parceiros homens como o agente especial Dolls (Shamier Anderson) e o melhor amigo de seu tataravô, Doc Holliday (Tim Rozon).

Não bastando isso, a série conta também com a evolução discreta, mas marcante de um núcleo LGBT cujo desenvolvimento, no decorrer da temporada, espelha um esforço considerável dos roteiristas em enriquecer quase todos os seus personagens com detalhes que os deixam cada vez mais complexos tanto aos olhos de Wynonna, quanto do público que a acompanha.

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Visualmente, a fotografia alaranjada contrasta com um inverno que parece forte sobre personagens calejados por décadas de luta e maldições, abaixo de belos céus azuis que se destacam nessa produção de um pequeno canal canadense, retransmitida nos EUA pelo SyFy. Os efeitos especiais modestos são quase sempre bem aplicados e crescem junto ao espectador, assim como um cuidado especial na maquiagem que, no avanço dos episódios, aparece mais conforme aumenta o nível de gore que espreita todos os cantos de Purgatory.

Com mistérios lovecraftianos, uma mitologia em desenvolvimento que impressiona a cada revelação, Wynonna Earp pode ser vista como uma pequena joia numa fauna crescente de séries com protagonistas mulheres que se destacam por subverterem padrões e enriquecerem gêneros que não foram criados para elas, mas que agora se alimentam dessa nova injeção de criatividade e energia para reavivar suas mais célebres histórias.

[Crédito das imagens: Divulgação/SyFy]