Porque Maeve é a promessa mais importante da revolução de Westworld | Spoilers
Este post contém spoilers da primeira temporada inteira de Westworld.

No dia seguinte à vitória de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, a editora Haymarket disponibilizou de graça em seu site o ebook de “Hope in the Dark” (“Esperança na escuridão”), da ativista e acadêmica americana Rebecca Solnit. Escrito durante o governo Bush e a guerra no Iraque, o ensaio é uma defesa da habilidade de sentir esperança e uma reflexão sobre como, em momentos em que o desânimo e o desespero se tornam as respostas mais fáceis a acontecimentos, a capacidade de imaginar um mundo que não existe é em si um ato revolucionário. “A esperança se localiza na premissa de que não sabemos o que vai acontecer, e que esse espaço de incerteza é uma oportunidade de ação. Quando você reconhece a incerteza, você reconhece que pode ser capaz de influenciar o resultado.”

A série de ficção científica da HBO Westworld, que terminou sua primeira temporada no último domingo, apresentou desde o início um mundo sombrio e desanimador, no que pareceu uma evolução natural dos outros universos que povoam os dramas do canal, entre eles o do carro-chefe de fantasia que Westworld foi criada para substituir, Game of Thrones. Em Westworld, os humanos que visitam o parque temático de mesmo nome gastam grandes quantias para se deliciar em um universo em que essa imaginação necessária para o surgimento da esperança simplesmente não existe – onde robôs são programados para viver, sofrer, morrer e repetir esses “loops narrativos” causados pelos humanos sem imaginar uma saída para esse ciclo.

rodrigaoPersonagens da série com frequência discursam sobre como ser livre para agir como eles bem entendem no parque liberta os humanos, chamados guests, e os permite revelar sua verdadeira natureza. O mesmo não é permitido aos robôs, os hosts, que têm destinos escritos pela sociedade onde vieram a existir. “O status quo gostaria que você acreditasse que ele é imutável, inevitável, e invulnerável, e a falta de memória da dinâmica de um mundo em transformação reforça essa visão”, escreve Solnit.

O status quo de Westworld, o parque, diz que os robôs não são humanos e existem para servir aos humanos reais, que deixam o parque com a ilusão de que são capazes de lutar e agir de forma extrema sem perder o conforto de saber que suas ações não terão consequências. 

Os guests de Westworld vivem cenas de uma história que está cristalizada e, ao fim, volta ao estado inicial. Os únicos que podem sair transformados da experiência são eles mesmos.

Os administradores do parque explicam que apagar a memória dos hosts ao fim de cada dia de massacre é um ato de bondade, para que as memórias das atrocidades feitas para eles não os assombrem – em outras palavras, não possam transformar hosts da mesma forma que supostamente acontece com os guests. Na voz de um dos criadores do parque, Robert Ford (Anthony Hopkins), a série apresenta a teoria de que o sofrimento é o que leva à verdadeira consciência, que a humanidade depende das suas lembranças mais temidas para se manter humana. 

Boas ou ruins, memórias são histórias, e histórias têm poder. Nas palavras de Solnit, ‘a memória coletiva é o que chamamos de História’. Ela também escreve que “apenas mudar a história sendo contada não é suficiente, mas essa foi, com frequência, a base para mudanças reais”. Em Westworld, descobrimos no episódio final que, ao longo dos anos, os robôs que desenvolviam a capacidade de se apegar a essas memórias e cultivar a própria história eram descartados pelo parque antes que pudessem agir com base nelas. Embora tenha atingido a consciência antes mesmo do parque abrir, a primeira robô criada para ele, Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood), demorou anos para desenvolver a capacidade de reagir.

dolores1Quando finalmente o faz, não é tanto como consequência de imaginar um mundo melhor, mas como parte de um horizonte visualizado pelo próprio Ford. Ao abrir o parque mesmo após os avisos do sócio Arnold de que os robôs estavam sentientes e seria cruel submetê-los a um mundo já escrito para eles, Ford cria uma situação com um resultado já programado. Ele vê a inevitabilidade dos robôs tomarem controle, e ao invés de lutar contra ela, cria um universo em que essa história pode se desenrolar.

Dolores precisa resolver o labirinto para chegar a essa conclusão, mas Ford faz questão que o jogo seja programado para facilitar esse resultado, da mesma forma que os guests que entram no parque têm a certeza que o jogo está programado para eles sempre ganharem. A cena em que isso finalmente se concretiza em Dolores e outros robôs assassinando Ford e os humanos responsáveis pela manutenção do parque é de fato impactante e catártica. Mas de uma forma muito mais quieta, Westworld apresentou outra história em seu finale que traz uma mensagem ainda mais poderosa.

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No episódio final, descobrimos que Maeve Millay (Thandie Newton), a personagem que nos pareceu a mais desperta e consciente ao longo da temporada inteira, na verdade estava apenas seguindo ordens programadas em seu sistema. É talvez a surpresa mas decepcionante do episódio, mas ela resulta em um dos momentos mais significativos da série até então: o simples ato de Maeve sair do trem que a levaria para fora do parque, como era o plano de Ford para ela.

Uma olhada com mais atenção no tablet com as informações da sua programação mostra que o fim da sua narrativa era deixar o parque e “infiltrar” o mundo real (como confirmam os criadores Jonathan Nolan e Lisa Joy em uma entrevista). Mas, no último momento, Maeve escolhe ir atrás de uma memória, de uma história, da esperança de reencontrar uma filha que ela sabe ser tão construída quanto ela. Mas se o seu processo de libertação nada mais era do que um plano da mesma pessoa que a escravizou por tanto tempo, porque sua jornada rumo à humanidade terminaria nele? Por que não reescrever sua própria história e, junto, a de sua filha?

maevetabletVer os robôs inflingindo vingança naqueles que por anos os exploraram e os usaram para ganho próprio mostra a ascensão à consciência dos robôs de Westworld ao colocá-los reproduzindo o comportamento dos humanos que eles conheceram – pessoas que iam para o parque para praticar exercícios cruéis e desumanizar outros seres. Em uma série que prometeu twists e revelações, não é nenhuma surpresa que após tantos anos tendo acesso à pior versão da natureza humana a primeira incursão da inteligência artificial dos hosts se dá ao reproduzi-la. É a continuação de um ciclo de violência, mas que naquele momento representa uma disrupção necessária para dar início à mudança naquele mundo – e após ver tantas variações de crueldade serem feitas para os robôs, a série não dá espaço para condená-los por isso.

Mas isso quer dizer que atingir essa noção de humanidade é uma jornada fácil no mundo de Westworld. Maeve também flertou com ela quando se recusou a morrer e atacou o Homem de Preto para proteger a filha, o que fez com que ela recebesse uma nova vida e narrativa no parque. Ela também participa da violência quando abre caminho entre técnicos e soldados para chegar ao trem que a levaria ao mundo “real”. Mas é ao rejeitar esse destino e escolher a incerteza da filha que lhe foi roubada – tanto por um assassino quanto pelo parque que apagou sua memória – que ela toma a decisão mais subversiva da série. 

Mais do que apenas reproduzir uma humanidade marcada pela violência, a decisão de Maeve demanda a ousadia de se apegar a uma esperança incerta.

Em um ano em que tantos acontecimentos sedimentaram a visão de que a concentração de poder e a violência são o status quo desejado por muitos, há algo de poderoso – e necessário – em esse ser um marco do que representa humanidade. Para citar Solnit uma última vez, “ter esperança é se entregar para o futuro, e esse comprometimento com o futuro é o que torna o presente habitável.”

[Crédito das imagens: Divulgação/Reprodução/HBO]