Vale a Pena Ver De Novo: Doctor Who, “Blink” | Spoilers

Vale a Pena Ver De Novo: Doctor Who, “Blink”

O post contém detalhes sobre a terceira temporada de Doctor Who, assim como pontos importantes sobre a quinta, sexta e a sétima temporadas.

Muito do que fez a TV ser parte importante das memórias de infância de vários de nós está no conceito de “reprise”. Em épocas com menos opções de canais, internet inexistente e dias de chuvas que deixavam locadoras de vídeos ainda mais distantes, as reprises faziam parte integral da grade de programação.

Foi revendo filmes, episódios ou mesmo temporadas inteiras, que criamos uma relação de familiaridade com aquilo que, hoje em dia, acreditamos ter moldado nosso caráter.

Reunindo amigos numa quinta-feira à noite, escolhemos alguns episódios já clássicos para rever e comentar. Do topo da lista, separamos “Blink”, episódio da terceira temporada da nova encarnação da série Doctor Who.

Premiado com o Hugo Award em 2007, “Blink” é um episódio que divide opiniões. Antes mesmo de começarmos a rever, parte do pequeno grupo defendia que o plot atípico poderia servir como um bom ponto de entrada para quem nunca assistiu a Doctor Who. Já para a outra metade do grupo, “Blink” tem uma trama tão fechada e incomum que não representa bem a série como um todo, e por isso serve bem apenas para os que já são fãs.

Dirigido por Hettie MacDonald, a primeira mulher a dirigir um episódio de Doctor Who desde 1985, “Blink” é baseado num conto escrito por Steven Moffat, então roteirista da série, que ainda era produzida por Russel T. Davies. Na história original, publicada na revista Doctor Who Annual 2006, “‘What I Did on My Christmas Holidays’ by Sally Sparrow”, Moffat conta a história da jovem Sally Sparrow que, aos 12 anos, tem um encontro incomum com o nono Doctor (Christopher Eccleston) por meio de mensagens gravadas em fitas cassete.

Nunca te esqueceremos, Sally Sparrow

Quando adaptado para a televisão, “Blink” ganhou uma nova roupagem. Carey Mulligan, uma Sally Sparrow adulta e sagaz, assumiu o protagonismo se tornando a companheira que nunca foi, mas que os fãs ainda esperam um dia rever.

Ao entrar numa casa abandonada para tirar fotos, Sally se depara com mensagens escritas nas paredes, quarenta anos atrás, direcionadas a ela mesma. O que parecia ser uma pegadinha muito bem elaborada se transforma numa corrida contra o tempo para evitar que inimigos até então nunca mencionados no universo do Doctor, os Weeping Angels, tomem o controle da Tardis.

Assistir “Blink” pela primeira vez, durante uma temporada de excelentes episódios, foi uma quebra de ritmo nas histórias do décimo Doctor (David Tennant) e de sua nova companheira Martha. Ao contrário da maioria das quebras, essa foi bem recebida já que “Blink” é considerado até hoje um dos melhores episódios da nova série.

Quando revemos os elementos que Moffat introduziu no roteiro (frases como “wibbly wobbly timey wimey”, menções a um futuro casamento do Doctor, entre várias outras), percebemos o quanto estava sendo semeado naqueles quarenta minutos. Não apenas pequenos detalhes que fariam parte integral do próximo Doctor interpretado pelo Matt Smith, como também semelhanças entre os protagonistas do episódio, Sally e Larry, com os futuros companheiros, Amy e Rory.

Ambos são um casal atípico. Ela, confiante e determinada a descobrir a verdade, enquanto ele é retraído, fã de mistérios, mas desconfiado de que nem sempre a verdade é sinônimo de compreensão das respostas. Enfrentando os terríveis anjos de pedra, num misto de humor e terror, Sally e Larry espelham em um curto período de tempo o que Amy e Rory levariam anos para experimentar: uma aventura com um Doctor que nem sempre está lá por eles e cujos planos os colocam em perigo constante.

Piscou, morreu! – avisa o Doctor

Ao solucionar as peças do quebra cabeça e enviar a Tardis de volta para um Doctor perdido no final dos anos 1960 – mais precisamente, 1969, mesma data em que ele enfrentaria o Silêncio e teria que lidar com a sua futura morte – Sally reencontra o herói desavisado.

Explicando para ela que as coisas não acontecem linearmente em sua vida, elemento que Moffat também usaria para criar a personagem River Song um ano depois, o Doctor recebe os avisos registrados de Sally e insinua um convite futuro.

Ao recusar a oferta e escolher permanecer no seu tempo, ao lado do parceiro (no amor e nos negócios), Sally encerra o episódio expondo mais um dos recursos que o futuro showrunner da série utilizaria no futuro: a escolha da família em detrimento da aventura.

Apesar do final conservador, “Blink” é considerado um episódio revolucionário no que se refere a sua estrutura e direção artística. O uso da viagem no tempo, que em Doctor Who nem sempre é indistinta do uso de magia, por exemplo, é calculadamente bem planejado.

Quando a história se fecha, sabemos que não vamos mais nos encontrar com Sally Sparrow e sua pequena e assustadora porção de Londres, ainda assim, temos a certeza de que “Blink” jamais sairá da nossa lista de episódios que valem ser revistos sempre.

Participaram da discussão: Arrigo Araujo, Carol Scoponi, Izabel Brum, Pôlo Gallian e Sandrine Monte Knopp.

[Crédito das imagens: Divulgação/BBC]