Uma eulogia a Vanessa Ives, de Penny Dreadful | Spoilers

Uma eulogia a Vanessa Ives, de Penny Dreadful

O texto abaixo contém spoilers sobre as três temporadas de Penny Dreadful

Quando Vanessa Ives, a protagonista de Penny Dreadful interpretada por Eva Green, se deparou com seu maior adversário, sua conclusão final veio na forma de uma verdade sobre si mesma: “Eu não sou nada. Não sou mais que uma lâmina de grama. Mas eu sou.”

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Filha de pais endinheirados, Vanessa cresceu na casa vizinha dos Murray, cuja grama, pelo menos do seu ponto de vista, parecia ser um pouco mais verde. A cor que a princípio era convidativa e a fez se aproximar da filha do casal nobre, Mina Murray, assumiu tons mais escuros conforme Vanessa descobriu que sua mãe estava mais do que envolvida com o pai da nova melhor amiga.

Testemunhar a traição oculta que unia um casal proibido no centro de um labirinto de mato alto atiçou na jovem Vanessa um sentimento maligno que ela jamais conseguiu vencer, mas contra o qual lutou com todas as forças. Foi encantando Peter, filho mais velho dos Murray e se insinuando num breve caso de amor com o noivo de Mina que Vanessa começou sua descida moral, passando a ser alvo não apenas de forças que – até então – estavam além da sua compreensão, como também crescendo internamente.

Ao cruzar a Inglaterra motivada por um sentimento marcadamente cristão que a levou a acreditar que a morte de Peter, o desaparecimento de Mina e a destruição das famílias ao seu redor eram sua culpa, Vanessa rumou para o centro de uma profecia teológica que a colocou como a “Mãe do Mal”. Cobiçada por demônios, temida por bruxas e idolatrada como uma deidade por aqueles que a queriam como um instrumento de destruição.

Durante três temporadas, a personagem, cuja idade nunca soubemos, passou por tribulações dignas de várias encarnações. A cada descida rumo a batalha que lhe foi imposta, Vanessa era assolada por cenários de pesadelo que incluíam becos povoados por criaturas devoradoras de homens, celas almofadadas que confinavam almas perdidas em um manicômio e até mesmo cabanas isoladas, habitadas por mulheres vítimas da incompreensão e ignorância alheia.

Ao mesmo tempo em que se viu cercada por criaturas apavorantes por todos os lados, Vanessa foi capaz de atrair aliados que não a enxergavam como o pivô de uma guerra celestial, mas sim como uma heroína capaz de motivá-los a enfrentar perigos invencíveis.

No curto período de tempo em que literalmente enfrentou o apocalipse, Vanessa foi capaz de conquistar uma nova figura paterna (Malcolm Murray), uma nova mentora (Joan Clayton), uma alma gêmea que a compreendia (a Criatura) e um amor impossível (Ethan Chandler).

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Num universo em que a noite parecia predominar mesmo em pleno dia, ela foi uma fonte de luz que, diferente de vários heróis tradicionais, reconhecia em si mesma que todos somos duais, com potencial similar para as boas e más ações.

Mestra em utilizar essa descoberta a seu favor, a personagem de Eva Green controlou seu destino ao se ver encurralada por aqueles que queriam dominá-la. Ciente de que nem sempre podemos arquitetar as circunstâncias em que gostaríamos de viver, Vanessa Ives reconheceu ao mesmo tempo sua grandeza e sua pequenez no esquema geral das coisas ao se sacrificar, voluntariamente, perseguindo de forma triste, mas resignada, um último momento de paz e autonomia.

[Crédito das Imagens: Divulgação/Showtime]