The Good Place é a série que precisamos e merecemos no mundo atual | Spoilers

The Good Place é a série que precisamos e merecemos no mundo atual

Aviso: Este post contém spoilers do final da primeira temporada de The Good Place.

Desde que estreou, The Good Place prometeu ao menos duas coisas: ser uma comédia sustentada por personagens envolventes e carismáticos, na linha das criações do roteirista-chefe Mike Schur, Parks and Recreation e Brooklyn Nine-Nine; e se desenrolar em um mundo fictício marcado por um mistério que em certos momentos relembrou o grande nome e, em muitos casos, trauma da TV quando o assunto é mistério, Lost.

Apesar de já começar com uma premissa instigante e personagens que desde o início são capazes de prender o espectador, nem todo mundo esperou que The Good Place fosse conseguir entregar nas duas promessas. Eu mesma escrevi um post inteiro sobre como a grande vantagem da série era ter o mistério apenas como segundo plano para acompanharmos a vida e as relações de personagens queridos – quando a grande resolução fosse, eventualmente, anunciada, a decepção não seria capaz de derrubar a série como um todo, pois o importante teria sido a jornada e os amigos que fizemos no caminho.

Esse é o momento em que aviso que, se você ainda não assistiu a The Good Place inteira, é hora de clicar no citado texto anterior, que é introdutório e sem spoilers. Você não quer ler o resto se tiver visto a temporada inteira, vai por mim.

Porque é aqui que digo que The Good Place conseguiu. Conseguiu entregar uma comédia agradável com personagens cativantes e conseguiu manter um grande mistério pelos 13 episódios da primeira temporada. Conseguiu virar toda a trama da série de cabeça pra baixo, nos pegar de surpresa e ainda nos fazer simpatizar ainda mais com os personagens no processo, o que tornou a série ainda mais atual e relevante.

Algo tão positivo e sustentado por personagens em busca de crescimento como a premissa de The Good Place já tornava ela um momento de zen apreciado em um mundo cada vez mais cinzento. Mas a revelação de que o “lugar bom” utópico que dá nome à série era não só uma ilusão, mas uma armadilha – uma da qual somos capazes de escapar se aprendermos uns com os outros a superar aquilo que nos faz péssimos – tornou The Good Place a série que merecemos e precisamos hoje em dia.

Vamos por partes. Uma das teorias que eu mantive por muito tempo, e que achei ser o caminho certo após Eleanor descobrir que Jianyu/Jason também não pertencia ao paraíso, era que todos os moradores da vizinhança haviam chegado lá por engano, e estavam escondendo suas verdadeiras identidades da mesma maneira que Eleanor. Mas isso levantaria a questão de por que Chidi e Tahani, que pareciam genuinamente ter feito bem ao mundo, também estavam ali. Quando The Good Place finalmente nos mostra flashbacks sobre o passado de ambos que dão mais contexto para suas ações no good place, no entanto, vemos que Tahani sempre fez o bem, mas com a motivação de ser melhor que a irmã celebridade, enquanto Chidi sempre foi tão indeciso que nunca conseguiu agir em situações importantes não só para ele, mas para outros na sua vida.

Por um lado, quando esses flashbacks apareceram, eu já estava tão interessada nos personagens que eu não me dei ao trabalho de incluir essas informações nas teorias sobre a série como um todo (ao contrário de, por exemplo, Westworld, que parece ter nos alimentado muito mais teorias e pistas do que personagens completos). Por outro, essas são ações feitas sob medida para enganar nossas expectativas do que é ser bom e o que é ser mau. A clara necessidade de aprovação de Tahani nos é apresentada muito mais como um gatilho para Eleanor julgá-la e recair a seus instintos de ser invejosa e descartar pessoas que ela considera melhor do que elas do que como um defeito de Tahani.

A rivalidade de ambas nos lembram tanto catfights comumente jogadas a personagens femininas – chegando ao ponto de ambas se envolverem em um triângulo amoroso – que nem nós nem elas percebem que ambas na verdade têm problemas semelhantes, mas maneiras completamente opostas de tentar resolvê-los. As duas cresceram sendo ignoradas pela família, mas Tahani acha que a solução para isso é fazer o mundo inteiro gostar dela, enquanto Eleanor prefere se fechar para todas as pessoas na sua vida. Nenhum dos dois caminhos é a solução, e por mais que você arrecade para a caridade, as duas estratégias são igualmente capazes de levá-la para uma eternidade de tormento.

chidi

Já Chidi tem um defeito que, por estar muito mais relacionado a sua passividade do que sua atividade, nem sempre é enxergado como um defeito com consequências. Seus flashbacks são uma dica para entendermos como sua insegurança e indecisão já machucaram os outros ao longo de sua vida. Como ele também é apresentado como uma vítima dessa atitude, relevamos como seus amigos, parentes ou namorada foram prejudicados por ele. Chidi tinha as melhores intenções, mas elas de nada serviam. O mal que ele fez aos outros por ser fraco e não conseguir agir continua lá. No outro lado do espectro, Tahani mostrou resultados positivos para o mundo, mas suas intenções sempre foram corrompidas. Também não foi o suficiente. Como tudo na vida, a resposta muito possivelmente está no meio termo que a série inicialmente rejeita.

The Good Place não chega a explicar a receita para se tornar realmente uma pessoa digna do lugar bom. O finale indica que ele existe, mas o que presenciamos em toda a temporada muito provavelmente foi uma versão caricata, povoada por pessoas exageradamente boas e excêntricas – como forma de atormentar e irritar Eleanor e desencadear uma cadeia de acontecimentos que faria o mesmo com Chidi, Tahani e Jason– e escolhas de roteiro que pareciam convenientes ou batidas demais, mas que revisitadas após o twist trabalham a favor do roteiro e não contra – como o fato de Michael parecer só dar atenção para os quatro personagens principais, tropes cansadas como o já mencionado triângulo amoroso ou aqueles palhaços tenebrosos de que a Eleanor “real” supostamente gostava. Se há um elo mais fraco na construção de The Good Place, é o personagem de Jianyu/Jason, que não chega a ganhar vida na mesma intensidade que os outros.

Em seu finale, a série revelou que as expectativas de bondade exageradamente altas eram de fato irreais, que a motivação com que ocupamos nosso espaço no mundo importa, mas não é nada se nossas ações não forem correspondentes, e que é humano ser péssimo como Eleanor, Chidi, Tahani e Jason. The Good Place rebaixou seus personagens para deixá-los mais próximos do nosso próprio egoísmo, fraqueza e paralisia, e por isso é a série que merecemos. Mas The Good Place também mostrou que – mesmo após a morte e ida para o além – nunca é tarde para mudar, e por isso que precisamos dela agora mais do que nunca.

A decisão de Chidi ajudar alguém tão diferente quanto Eleanor, customizada para ser um tormento para ele, acabou sendo também capaz de mudar Eleanor ao ponto de ela se transformar na pedra no caminho do grande plano de Michael. Mais importante, Eleanor também influenciou Chidi a se tornar mais decidido, e sua amizade inconstante mas crescente com sua antes rival Tahani foi capaz de fazer ambas se entenderem melhor.

No final, as ações de Michael para tornar a eternidade dos quatro um inferno alimentaram algo pelo qual ele não esperava: pessoas são capazes de aprender, crescer e surpreender. Mas para isso, é preciso trabalhar. “Fazer o bem”, seja qual for a definição exata dessa frase usada com descaso, mas que é na verdade algo tão relativo e complexo, não é simples nem vem de forma natural para todo mundo. É trabalho duro. Mas fica mais fácil fazê-lo com a ajuda de quem está por perto, independente das suas diferenças.

[Crédito das imagens: Divulgação/NBC]