The Good Place e People of Earth se sustentam em mistérios para fazer rir | Spoilers

The Good Place e People of Earth se sustentam em mistérios para fazer rir

The Good Place

Quem acompanhou seis anos de Lost dificilmente passou esse tempo só na companhia da televisão. Todo mundo se rendeu às teorias e à especulação sobre o que estava acontecendo na ilha – nem que fosse numa conversa de bar despretensiosa com amigos que também viam a série.

Há um tipo específico de série que usa o mistério como pilar principal da história sendo contada semanalmente. Em sua versão mais clássica, há o mistério do “quem matou?”, que sustenta 40 minutos das incontáveis séries procedurais de crime ou temporadas inteiras de How to Get Away With Murder e Making a Murderer. Outras montam intrincados universos que convidam o espectador a observar cada detalhe e a adivinhar o que vem em seguida.

Além das séries que vieram antes de Lost, como Twin Peaks e Arquivo X, e das inúmeras “a nova Lost” que pegaram carona depois (alguém lembra de Flash Forward?), séries como Mr. Robot e Westworld continuam a movimentar imaginações e fóruns de discussões sobre suas tramas. Todas elas têm algo em comum, no entanto: são séries dramáticas. A disposição para usar um mistério como elemento principal da narrativa nunca encontrou muito espaço nas comédias.

Isso é, até agora, se depender de duas séries que estrearam recentemente na TV americana: The Good Place e People of Earth. Ambas são comédias de meia hora que buscam entreter e fazer rir, mas também geram, senão uma legião de fãs alucinados trocando teorias, uma bela conversa de bar entre amigos compartilhando suas suspeitas do que exatamente está acontecendo em seus respectivos mundos.

Assinada por Michael Schur, um dos criadores de Parks and Recreation, The Good Place estreou na NBC em setembro e compartilha de algumas coisas com a série de Leslie Knope. Uma visão otimista, uma vontade de reunir pessoas com perfis opostos para trabalharem juntas, um chefe com mania de organização e muita vontade de agradar. Mas enquanto Parks se passava em uma repartição pública (a ideia de alguns, diria Ron Swanson, do inferno), The Good Place se passa literalmente no paraíso.

Para esses elementos positivos não sufocarem o espectador e para não cair no cinismo de exagerar na sátira, The Good Place faz uso da protagonista Eleanor (Kristen Bell), uma pessoa péssima que chega ao “lugar bom” por engano. Com a ajuda da sua “alma gêmea” (todos encontram a sua no paraíso), o professor de ética Chidi (William Jackson Harper), ela resolve aprender a ser boa para garantir seu lugar no céu.

Mas a outra grande arma da série para equilibrar esses riscos é o mistério. Por que Eleanor foi parar no lugar bom? Ela é a única que está lá por engano? O que acontece com ela quando ela for descoberta? O que acontece se ela ficar lá mesmo sem merecer? O que exatamente é o lugar bom, e quem mais está no controle, além do “arquiteto” Michael (Ted Danson), que construiu o lugar? Apoiando-se nessas dúvidas, e contando uma história bastante serializada, The Good Place consegue prender o espectador e fugir da fórmula pronta por onde ensaiou ir, com cada episódio apresentando uma lição de caráter para Eleanor.

peopleofearth

People of Earth também tem o DNA de Parks and Recreation, na figura de Greg Daniels, o outro criador de Parks que atua como produtor executivo e diretor do piloto de People of Earth. Nessa série da TBS que acabou de exibir seu quinto episódio, o jornalista Ozzie (Wyatt Cenac) vai até uma cidade do interior investigar um grupo de apoio para pessoas que acreditam terem sido abduzidas por alienígenas. Enquanto conhece esses tipos e lida com lembranças e sonhos estranhos de um acidente de carro recente, Ozzie percebe que o que era para ser uma matéria engraçada sobre pessoas excêntricas é na verdade um mistério que pode o envolver mais do que ele imagina.

Com a produção mais modesta que The Good Place, mas uma visão tão positiva e agradável quanto a série da NBC, People of Earth também inclui elementos dramáticos por mostrar um grupo de pessoas que se reúnem regularmente para falar sobre a experiência com alienígenas mas acabam lidando com temas como trauma, solidão e empatia. Ao mesmo tempo, o mistério do que os alienígenas querem com os humanos e por que escolheram os participantes do grupo de apoio para abduzir se desenrola e vai revelando mais e mais camadas.

Tanto The Good Place quanto People of Earth têm premissas que poderiam render séries dramáticas igualmente interessantes. Mas ver esses temas sendo abordados por comédias, além de ser mais prova de que estamos na era das comédias na TV, traz oportunidades: The Good Place pode brincar com a ideia do que é paraíso e empacotar um número altíssimo de piadas visuais nas ruas do “lugar bom” ou na explicação do sistema de pontos que define quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Já People of Earth pode usar seu orçamento limitado na hora de revelar os alienígenas a seu favor e transformar os efeitos especiais baratos em uma camada a mais na piada, ao invés de um elemento que compete pela atenção do espectador.

Mas ambas conseguem equilibrar bem o mistério e a história porque seguem a principal regra do que faz uma boa comédia: personagens. Críticos dizem que geralmente dá para identificar se um drama é bom nos primeiros episódios, mas uma comédia demora pelo menos sete capítulos para você se envolver com a vida dos personagens ao ponto de eles conseguirem te fazer rir com frequência. Enquanto um drama medíocre pode te prender por meses apenas pela curiosidade do que acontecerá em seguida, a comédia não se sustenta se não tiver personagens interessantes e cativantes contando a história.

É nesse ponto que The Good Place e People of Earth têm uma vantagem em relação às séries dramáticas que se sustentam em um grande mistério: se a resolução não for boa, a história inteira sai perdendo. Quem gostou do final de Lost alega que a série fez o que precisava fazer: deu resolução aos personagens, dane-se a ilha ou os ursos polares. Pois eu queria mesmo era saber da ilha, e até hoje reclamo daquela última temporada que só se auto-resolveu. Mas se The Good Place ou People of Earth não me explicarem exatamente como o céu e o inferno funcionam ou de onde vêm os alienígenas que estão abduzindo pessoas em uma cidade do interior dos EUA, eu talvez já esteja tão envolvida com Eleanor e Ozzie que me darei por satisfeita em saber como eles terminam suas histórias.

[Crédito das imagens: Divulgação/NBC/TBS]