The Fall muda o tom e coloca temas importantes na mesa de operação | Spoilers

The Fall muda o tom e coloca temas importantes na mesa de operação

O texto abaixo contém spoilers do episódio S03E01 de The Fall

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Na última sexta-feira finalmente descobrimos o que aconteceu com Paul Spector depois de ser baleado no final da segunda temporada de The Fall quase dois anos atrás. Se uma das premissas da série era acompanhar todos os aspectos da investigação e perseguição do serial killer de Belfast, The Fall pecou ao aplicar a mesma fórmula para o seu tratamento médico no hospital.

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“The Fall parece um pouco 50 Tons de Grey’s Anatomy hoje a noite. Sono”

A série continuou seguindo o modelo que começou na sua primeira temporada em 2013, mas não era exatamente isso que o público buscava, e sim Stella Gibson sendo Stella Gibson – uma das personagens femininas mais fortes da televisão atualmente. Ao contrário de Marcella, que também segue um serial killer e possuía uma personagem feminina forte, The Fall não é focada em como ~problemas~ pessoais ou eventuais condições mentais afetam o trabalho ou vida pessoal de Gibson, mas sim como uma personagem mulher pode ser ~difícil~ mas ainda sim ser extremamente bem sucedida em sua vida profissional e pessoal (por mais que isso afaste a maioria das pessoas ao seu redor). Stella segue sendo uma mulher num mundo de homens, e por mais que tenha conseguido capturar um serial killer – com métodos não convencionais – a sua figura e força ainda assusta seus superiores, que seguem esperando que ela quebre ou envergonhe a força policial.

Sua relação com os outros homens que a rodeiam foi novamente contestada: sua relação com Burns segue turbulenta já que ele continua não sabendo dividir a responsabilidade que ele tem como superior de Gibson e seus sentimentos afetivos por ela; Anderson não soube lidar com o fato de que Stella se portou de forma profissional, calculada e contida ao invés de se desesperar com seu ferimento; e Tom Stagg ouviu um belo sermão da Superintendente quando tentou culpar sua mulher ou justificar o crime que foi cometido contra ela.

Porém, foi em uma cena do núcleo “50 Shades of Grey’s Anatomy” que aconteceu um dos diálogos mais interessantes deste episódio. Depois de operarem Spector, a doutora Morton e o doutor O’Donnell conversam. A cirurgiã comenta sobre como ela nunca se viu em perigo, por mais que tenha notado que todas as vítimas eram parecidas com ela, mulheres perto de seus trinta anos, que trabalhavam e vivam as suas vidas. Paralelamente a isso O’Donnell deixa claro que Spector é um paciente como qualquer outro no hospital.

Esse diálogo é interessante por vários aspectos, desde interpretações mais superficiais de que a vítima é sempre isolada enquanto o criminoso é parte de um todo (uma sociedade problemática), até o fato de que, enquanto nunca conseguimos de fato nos colocar no lugar de uma vítima (há menos que tenhamos passado por algo parecido), justificar e “desculpar” o criminoso é sempre mais fácil – apelar para sua humanidade, problemas de infância e/ou culpabilizar a vítima, tirando do criminoso a culpa. Por mais que a série, como formadora de opinião, em momento nenhum tenha tentado justificar crimes contra mulheres e a conversa entre os dois médicos seja sobre o peso de operar um serial killer, esse diálogo me deixou pensando por alguns minutos sobre qual a mensagem que a série quis passar com esse episódio.

The Fall voltou para sua terceira temporada para nos lembrar que não é só de mulheres problemáticas que se fazem boas séries de drama. Por mais que só tenhamos tido apenas um gostinho da série incrível que deixamos de acompanhar há quase dois anos, o terreno que The Fall construiu nas temporadas anteriores é mais do que o suficiente para termos certeza de que, por mais que ela talvez passe por mudanças e não acumule a mesma tensão, suspense e ritmo, The Fall segue tendo elementos e personagens bons o suficiente para continuar interessante.

[Crédito das imagens: Divulgação/BBC]