Por que The 100 é o Jogos Vorazes da TV | Spoilers

Por que The 100 é o Jogos Vorazes da TV

Este post contém detalhes até o episódio 2x07 de The 100.

Os criadores de The 100 certamente venderam sua ideia para a CW como a série que conseguiria capitalizar no sucesso que Jogos Vorazes conseguiu no cinema. E eles estão certos: The 100 é o Jogos Vorazes da TV – mas não pelas razões que você imagina.

Sim, ambas histórias têm origem em uma série de livros de YA, se passam em um mundo distópico com governos autoritários e apresentam adolescentes obrigados pelo sistema a lutar por suas vidas. Mas sua semelhança mais interessante é como eles usam esse cenário para inverter e desafiar os papéis de gênero que estamos tão acostumados a ver na TV e no cinema.

Sobre Jogos Vorazes não vou me estender, e sim recomendar esse post do Buzzfeed sobre como o terceiro filme da série inverteu as tropes de filmes de ação ao colocar Peeta como a “donzela em perigo” da trama. Peeta sempre reuniu mais características consideradas “femininas” do que Katniss.

The 100 faz a mesma coisa com seus três personagens mais interessantes – Clarke Griffin, Bellamy Blake e Raven Reyes – e em sua construção de universo e trama.

Human Trials

what is a finn

1. Razão vs. emoção

Clarke, a protagonista da série e líder natural do grupo, é alguém que pensa de forma racional e toma decisões após pesar todas as possibilidades – algo que ela herdou de sua mãe Abby, mas que desenvolve de verdade na Terra, ao longo da primeira temporada. Por ter aprendido medicina com a mãe, Clarke também tem um lado “nurturing”: ela cuida dos outros, mas é de uma forma clara e objetiva, baseada na ciência. O ápice de seu arco é o momento em que ela deixa Finn e Bellamy para trás durante a explosão do finale da primeira temporada, para assim salvar as 48 pessoas que posteriormente seriam resgatadas pelo Mount Weather.

Ao lado de Clarke temos Bellamy, o único personagem entre os adolescentes que teve alguém sob sua responsabilidade durante boa parte de sua vida. Todas as decisões que Bellamy tomou até chegar à Terra – boas ou ruins – tiveram como motivação sua irmã, Octavia. Dedicar a vida a proteger alguém que teria sido morta pela Arca fez com que Bellamy visse as regras racionais da civilização original, representadas em Clarke, com desconfiança.

Twilight’s Last Gleaming

now kiss

Se não havia na Arca espaço para decisões baseadas em emoções – afinal qualquer deslize poderia resultar em morte – a Terra é território novo. Bellamy luta para equilibrar sua preocupação por Octavia, seu próprio medo, e sua vontade de se tornar um líder para todos, se arrepende de seus erros e age para se redimir. Embora não consiga pensar tão racionalmente como Clarke, ao longo da primeira temporada ele aprende com ela, e vice-versa. Ao fim, fica claro que a melhor forma de organização é uma combinação de ambos. É preciso que a racionalidade de Clarke tome as decisões e a emoção de Bellamy inspire os outros para agir.

Como disse o showrunner, Jason Rothenberg:

Bellamy é o coração e Clarke é o cérebro. Eles precisam um do outro. Um não teria sobrevivido sem o outro, e o grupo também não.

Em primeiro lugar: SHIP. IT. LIKE. BURNING. Mas isso não vem ao caso.

O importante aqui é perceber que Clarke tem um papel e uma caracterização raramente oferecidos a personagens femininas. Historicamente os homens foram o “cérebro” enquanto as mulheres são o “coração”. É muito importante ter uma heroína que pensa pragmática e racionalmente sem ser julgada por isso – e é igualmente interessante ver características contrárias sendo a força que move um personagem homem. É ainda mais significativo ver que o argumento de The 100 não é que um papel é mais importante ou melhor do que o outro, mas que os melhores resultados aparecem quando ambos trabalham juntos.

2. A Mecânica 

the100raven

“That bridge has survived a nuclear war and 97 years of weather.” “It won’t survive me.”

Coração e mente são importantes, mas ninguém constrói nada sem mãos. É aqui que entra Raven. Mecânica mais jovem da história da Arca, sua função é agilizar e por em prática os planos do grupo – ela faz parte de uma nova leva de personagens hackers que subvertem a noção de que o mundo da tecnologia é domínio de homens brancos e héteros, como Felicity em Arrow, Skye em Agents of S.H.I.E.L.D., ou Oliver, o booty call de Connor, em How to Get Away With Murder. Assim como Clarke, ela tem um papel que historicamente sempre foi dado a homens.

Mas Raven é um exemplo ainda mais interessante e importante porque além de ser mulher, não ser branca, não vir da “elite” da arca e ser uma mecânica – não uma engenheira, contraste que fica ainda mais claro quando ela interage com um –, Raven perde o movimento de uma das pernas após levar um tiro no fim da primeira temporada. A personagem que é o “corpo” do trio executivo de The 100 possui uma deficiência e isso em nenhum momento a impede de continuar cumprindo sua função e sendo incrível no processo.

3. Hierarquias

Em meados da segunda temporada, já ficou claro que The 100 faz questão de espalhar mulheres em posições de liderança por toda a série – além de Clarke, todas as comandantes dos grounders são mulheres, e Abby se torna chanceler após a Arca cair na Terra. O único líder homem que se mantém até agora é o presidente de Mount Weather, o regime mais autoritário da série, que abusa de táticas de dominação como colonialismo, escravidão e opressão, com a desculpa de que isso é necessário para sua própria proteção e manutenção do status quo. Sim, ele literalmente representa o patriarcado e a supremacia branca dentro do universo da série.

the100presidente

Clarke não caiu

Quando fui assistir a Jogos Vorazes no cinema, também vi dois trailers com histórias parecidas, que consistiam basicamente de um homem adulto movendo montanhas para se vingar/investigar a morte da sua mulher, convenientemente ausente da história e incapaz de autonomia suficiente para mover a trama. Quando Jogos Vorazes começou,  a história de Katniss seguiu parecendo uma exceção em uma indústria que produz história atrás de história sobre homens como os dos trailers, mas precisa de anos para aprovar um único filme sobre uma superheroína que seja dona da própria trama.

The 100 pode parecer menos deslocado na TV, onde a era dos homens difíceis parece estar dando lugar ao tempo das mulheres complexas, mas ainda assim não é regra. Como Jogos Vorazes, também é uma história voltada para o público jovem. Quem sabe um dia outros tipos de séries “adultas” possam aprender um pouco com elas.

[Crédito das Imagens: Reprodução/The CW]