SXSW: As novas famílias modernas da TV americana | Spoilers

SXSW: As novas famílias modernas da TV americana

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A família Lyon em Empire, maior sucesso de audiência da temporada

Abrimos este site para discutir entretenimento. Como ele influencia e é influenciado pela cultura, como ele retrata e modela valores e como a TV, pelo alcance e a familiaridade do meio com público, se torna um grande entreposto para o trânsito dessas transformações.

Sempre com esse propósito na cabeça, estou no festival SXSW em Austin, nos EUA, e na minha exata primeira palestra o evento levantou a preocupação geral dos americanos com a diversidade da população. Já mencionei isso em outros posts, mas agora trago dados atualizados pela pesquisa apresentada neste evento: até 2060, a população “non-white”,  formada por latinos, asiáticos e afro-americanos, passará a ser a maioria nos EUA.

A partir desde dado, toda a indústria da mídia, seja broadcaster ou anunciante, está se perguntando: estamos desde já construindo um conteúdo que converse realmente com esse público? O que foi discutido no SXSW é uma proposta de mudança na linguagem a fim de incluir esses grupos, buscando amenizar o sentimento de outsider que pessoas de outras culturas enfrentam dentro da sociedade americana. A partir daí se falou especialmente sobre como marcas incluem isso em suas campanhas – porém um dado apresentado me chamou atenção e me permitiu refletir sobre o que estamos assistindo na TV atualmente.

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As Villanueva em Jane the Virgin

Entre essas três culturas emergentes nos EUA, existem dois valores em comum: a família e o trabalho. O que faz um indivíduo ou um novo grupo se integrar a uma nova sociedade e cultura é a aproximação de valores, e a TV e a internet (principalmente as acessadas por mobile) são os principais veículos consumidos por esse público. Ou seja, são os que mais precisam carregar esses valores para propiciar essa conexão.

Especificamente em séries, no ano passado vimos Jane The Virgin estourar sendo um programa carregado de valores da comunidade latina: a família como mantenedora de tradições culturais, a figura forte da mulher nesse contexto, e o trabalho duro de Jane e seus 2, 3 empregos (já perdi a conta). A CW aqui é uma grande vencedora nesse processo de inclusão, passando longe de visões estereotipadas da cultura e de personagens que só existem para preencher cotas. Olhando pela perspectiva de valores, podemos também arriscar dizer que esse diálogo multicultural também se estabelece com Modern Family, que traz um conceito de vizinhança formado pela família estendida, com elementos de preservação de tradição.

Com o foco a longo prazo mudando, o que tende a ter menos espaço, como já previsto pela crítica americana, é a figura do homens e mulheres difíceis. Este indivíduo branco sem raízes que tanto vimos protagonizar séries, como o Rusty de True Detective, Don Draper em Mad Men, Carrie Mathison de Homeland, Lolly de Hindsight e Frank Underwood em House of Cards. No maior sucesso de audiência da temporada atual, o drama familiar passado na indústria do hip hop Empire, a figura do protagonista antiherói Lucius é apenas um detalhe na estrutura que realmente sustenta a narrativa da série: as relações entre os membros da família e a figura da matriarca, Cookie, tentando reatar os laços com os filhos.

A família taiwanesa-americana Huang em Fresh Off The Boat

A família taiwanesa-americana Huang em Fresh Off The Boat

Quando se mudam os elementos que movem os personagens, criadores de séries passam a ter uma nova fonte para criar personagens complexos, o que é um ganho interessante. Não significa que a partir daqui teremos apenas séries como Modern Family – apesar de já termos dois novos exemplos em que esse contexto está sendo explorado para criar comédia familiar, nas ótimas Black-ish e Fresh Off The Boat. A exploração desses valores também pode produzir tramas dramáticas profundas e complexas, como The Good Wife e The Americans, que usam a família americana como um terreno muito mais fértil para crescer do que apenas explorar o indivíduo errante. Já falamos antes sobre como 2015 será um ótimo ano para a televisão. Que venha essa nova fase!

[Crédito das Imagens: Divulgação/The CW/ABC/Fox]