Por dentro da trajetória de Sons of Anarchy, do começo ao fim | Spoilers

Por dentro da trajetória de Sons of Anarchy, do começo ao fim

Este texto contém spoilers de toda a série Sons of Anarchy, especialmente seu final.

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Nunca havia prestado muita atenção em Sons of Anarchy até o meu escritor favorito, Stephen King, falar bem dela. E mais: iria fazer uma ponta! Fui atrás e descobri do que se tratava a trama: um clube de motoqueiros, mas sob um viés shakespeariano, já que a história seria baseada em Hamlet.

E é verdade. Ou ao menos foi nas primeiras temporadas: o “príncipe” seria Jax Teller, integrante da gangue Sons of Anarchy, presidida pelo “rei” Clay Morrow, seu padrasto. Seu pai teria morrido num acidente de moto há muitos anos, o que seria suspeito, já que o que ele mais entendia na vida eram motos e notaria algum defeito imediatamente. Somos levados a entender que a mãe de Jax, Gemma, teria conspirado com Clay e causado sua morte.

Montada a premissa edipiana, e situada em pequenas cidades da Califórnia dominadas por gangues étnicas (os browns – latinos, os blacks, os chineses, os arianos, etc.), vemos o clube (“o reino”) a que Jax pertence se movimentar por uma vida de crimes envolvendo armas, drogas e prostituição. Mas seu objetivo era o mesmo do pai: afastar o clube dos delitos. Objetivo esse que muito certamente levou ao seu fim.

Sons of Anarchy foi criada por Kurt Sutter, que despontou na televisão na equipe de roteiristas da aclamada The Shield, série policial com tema parecido. Não foi somente a principal cabeça criativa da série, como também tem um papel recorrente, como Otto Delaney, membro do clube preso há muitos anos.

Ao longo da série, as semelhanças com Hamlet foram sendo abandonadas. Culpo isso à boa audiência, que deu longevidade a Sons. À medida que novas temporadas eram encomendadas, o famoso “encher linguiça” apareceu, em prejuízo do bom desenvolvimento criativo. Ao invés do confronto final com o padrasto e a mãe a respeito da morte do pai, temos no penúltimo episódio o confronto com a mãe por um outro crime odioso. E o confronto com o padrasto pela morte do pai já havia ocorrido há muito.

A trama foi se alongando além do necessário, e obviamente foi perdendo a força, com as últimas temporadas bem fracas. Some-se a isso o excesso de violência presente em todos os episódios, que acabavam por esvaziar os atos dos personagens de significado, deixando-nos indiferentes aos banhos de sangue que a gente já sabia que iriam sempre acontecer.

Apesar de seus problemas, até o final a série trouxe uma memorável galeria de personagens, que lembramos rapidamente aqui (aviso: com spoilers sobre o destino de cada um):

Agente June Stahl (Ally Walker): A definição da bitch. Com ambição sem limites, a agente federal June quer a qualquer custo trancafiar todo o clube e subir na carreira. Mesmo que para isso tenha que forjar cena de crimes e lavar as mãos para assassinatos cometidos por sua causa.

Half Sack (Johnny Lewis): O aspirante a membro do clube tinha um papel que pendia mais para o cômico e o que marcou foi o que aconteceu ao ator: foi encontrado morto, provavelmente ao cair do telhado de uma casa que tentava assaltar. A moradora idosa dessa casa foi encontrada morta dentro dela, provavelmente assassinada por ele.

opie

Opie (Ryan Hurst): Melhor amigo de Jax. Ao final da primeira temporada, sua mulher é morta por um membro do clube, mas em razão de atos cuja responsabilidade recaem sobre a agente Stahl. Sua personalidade se torna cada vez mais sombria, até seu ato de vingança final contra ela. Pena que teve uma morte igualmente brutal, sendo surrado com um taco de beisebol na cabeça, dentro da prisão.

Venus: No começo, pareceu que esta personagem seria somente uma piada interna entre a produção, ao colocar Walton Goggins, ator que já havia trabalhado com Kurt Sutter em The Shield, como uma travesti, usando enormes próteses de seios. Mas, com participações recorrentes, Venus chega ao final com um destino digno, ao lado de um dos membros do clube.

Tyne Patterson (CCH Pounder): Só porque ela é mega fodona em qualquer papel. E não é diferente aqui.

Lee Toric (Donal Logue): Irmão da enfermeira assassinada por Otto Delaney ao final de uma das temporadas, ele não mede esforços para se vingar contra todo o clube, a que atribui responsabilidade.

Gemma Teller (Katey Sagal): Last but not least, a verdadeira protagonista da série, a viúva negra, a old lady macabra, a malvada. Se por um lado não existe limites para sua crueldade, por outro ela mesma ressalta num dos últimos episódios que foi uma excelente mãe. Tudo o que fez foi para proteger seu ninho, seu filho e netos. Ao menos na maior parte. Ah, e se você não está reconhecendo, aqui está um outro papel dela bem famoso:

Sim, ela era a Peggy Bundy de Um Amor de Família (Married… With Children).

E eu disse que Stephen King fez uma ponta na série, né? Quando Sutter falou que o colocaria numa Harley, ele aceitou na hora (King é apaixonado por motocicletas). Aí está o mestre do horror, como um “cleaner” (pessoa que vai a cena de crimes para limpá-las):

O final da série não chamou a atenção ou emocionou: Jax resolve atar todas as pontas soltas nas disputas entre gangues, matando alguns, delatando crime para a promotora de justiça, e, ao final, encontra o mesmo destino do pai, morrendo intencionalmente dirigindo uma motoca barata:

Ei, eu vou me matar, mas não preciso destruir uma Harley né?

Ao final, a série retoma Hamlet em pelo menos dois aspectos: Jax solucionando o dilema do “ser ou não ser?” (escolhendo o não ser, como vimos acima) e com a citação de versos da obra depois que a última cena dá seu fade out:

Doubt thou the stars are fire;
Doubt that the sun doth move;
Doubt truth to be a liar;
But never doubt I love.

Há notícias de que uma (desnecessária) prequel de Sons of Anarchy está em desenvolvimento. Fora isso, o projeto futuro de Kurt Sutter é The Bastard Executioner, um drama de época, que será desenvolvido e exibido nos EUA pelo mesmo canal de Sons, o FX.

[Créditos das imagens: Divulgação/Reprodução/FX]