Somos todas Orphan Black | Spoilers

Somos todas Orphan Black

Esse texto contém detalhes da trama da primeira temporada de Orphan Black. Se você ainda não assistiu a série, vai por mim e começa a ver sem saber nada sobre a história. Prometo que vai dar certo.

Aqui no Spoilers, gostamos de brincar que Tatiana Maslany, a atriz que vive pelo menos quatro personagens principais na série da BBC America Orphan Black, é todos nós e todos nós somos Tatiana Maslany (já achou esse spoiler no nosso generator?). É porque a moça tem um talento tão indiscutível que ninguém se surpreenderia se um dia descobríssemos que na verdade o mundo é dominado por Tatiana Maslany fazendo 7 bilhões de papéis diferentes.

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Mas hoje vim aqui para dizer que na verdade somos sim, todas, Tatiana Maslany – ou melhor, somos todas as personagens clones vividas pela atriz na série. Eu digo todas porque agora estou falando especificamente de nós mulheres. Mas moços, sintam-se a vontade para continuar a ler, porque essa conversa também interessa a vocês.

Orphan Black conta a história de Sarah Manning, uma moça que descobre que existe um número ilimitado de pessoas idênticas a ela no mundo. Elas são todas clones, criadas em um experimento de uma organização científica que as mantém sob forte vigilância, ao ponto de usarem maridos e namorados como espiões e fazerem experimentos no corpo delas durante a noite, sem que elas saibam de nada. No fim da primeira temporada, descobrimos que o código genético de todos os clones está patenteado, o que as torna, basicamente, propriedade intelectual de um grupo comandado por um homem muito poderoso.

Em uma entrevista recente, Tatiana explicou assim a série:

Há algo nessa ideia de ser dono do próprio corpo que eu acho fala muito às mulheres. É tão interessante que isso acontece no contexto de clones, mas é algo com o que todas as mulheres lidam, essa ideia de que “Eu sou realmente dona do meu corpo? O meu corpo é meu? Quem sou eu se eu não sou dona do meu corpo? Quem sou eu se outra pessoa decidiu todas essas coisas?”

É comum que a ficção científica use analogias para tratar de temas próximos do mundo real (pensem nos X-Men mostrando pessoas que nasceram diferente sendo perseguidas e discriminadas). Orphan Black fala sobre a luta de qualquer mulher pelo direito de ser dona do próprio corpo, e faz isso sem muitas firulas porque não usa exatamente uma analogia – não são personagens héteros e brancos falando sobre a discriminação contra minorias fictícias, como acontece em X-Men, por exemplo – e sim de mulheres, de fato, buscando autonomia. Elas apenas o fazem em um contexto fictício.

Mais do que isso, mostra mulheres muito diferentes lidando com a falta de autonomia de formas distintas. Sarah, a última a descobrir sua própria condição, sempre teve uma personalidade rebelde e nunca ligou muito para regras, então não vai ser agora que ela vai jogar o jogo dos outros. O arco dela é interessante porque ela começa pensando só no seu próprio bem e na filha de seis anos, e acaba tomando um papel de liderança na luta de todas as outras mulheres clones. Allison, a dona de casa desesperada com ótimo gosto musical, está disposta a sacrificar algumas coisas, em parte sua liberdade, para manter a normalidade (e sofre as consequências disso). Cosima, a cientista que estuda genética, começa disposta a fazer acordos para estudar a própria situação, mas acaba incapaz de se entregar tanto assim quando descobre que algo tão íntimo como seu DNA na verdade pertence a outra pessoa.

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Sarah chocada ao descobrir a própria história, Cosima rainha da paciência e Allison doesn’t have time for this shit

Qualquer semelhança com o mundo real, onde homens criam e aprovam leis que dizem respeito apenas ao corpo feminino, não é mera coincidência – e o mesmo vale para as formas com que diferentes mulheres lidam com isso, como acontece com Sarah, Cosima e Allison. Como disse Tatiana: quem somos nós se outras pessoas tomam decisões sobre nosso corpo?

As tentativas de patentear nosso corpo estão aí todos os dias. Seja criando leis que criminalizam o aborto, seja permitindo que um grupo de homens que estuprou duas adolescentes responda a processo fora da cadeia enquanto as vítimas precisam se esconder e limitar a própria liberdade para garantir sua segurança individual, seja policiando como uma mulher deve ou não se comportar, seja contestando com “mas agora não pode mais elogiar mulher?” uma enquete com quase 8 mil pessoas que diz que 90% delas já trocaram de roupa e 81% já deixaram de ir em algum lugar por medo de assédio.

Lutamos contra isso – ou entramos no jogo e aceitamos os limites impostos em troca da normalidade – todos os dias na rua, na balada, no trabalho, na internet. E em Orphan Blackpodemos ver um exército de nós mesmas kicking ass e mostrando que não é tão fácil assim nos controlar.

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Confie em toda série que usa Bad Girls da M.I.A. em montagens

[Créditos das imagens: Reprodução BBC America/ABC]