Séries que não seriam nada sem suas mulheres difíceis | Spoilers

Séries que não seriam nada sem suas mulheres difíceis

Se a já famosa e batida Era de Ouro da TelevisãoTM foi marcada pelos dramas e crises dos Homens DifíceisTM, o momento atual das séries de TV que nos empolga e inspira o faz justamente por mover os holofotes para protagonistas mulheres que não têm medo de tomar decisões difíceis ou adotar comportamentos questionáveis – daqueles pelos quais somos julgadas diariamente por não condizer com “a nossa natureza feminina”.  

O tema rendeu um Spoilers Talk Show inteiro sobre as mulheres que mais amamos, tememos ou amamos odiar/temer e que hoje povoam algumas das nossas séries preferidas. E se tem uma prova de que esse tipo de personagem é uma fonte riquíssima de boas histórias, é o fato de elas estarem espalhadas pelos mais diferentes gêneros. Preparamos uma lista de indicações:

1) Quando a piada está em se enxergar no egocentrismo alheio: The Mindy Project, Girls, Inside Amy Schumer

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O que seria The Mindy Project sem Mindy Lahiri e sua atenção redobrada a seus interesses fúteis e seu desprezo pela opinião daqueles ao seu redor? Mindy Kaling recebe créditos merecidos por ter revitalizado o gênero da comédia romântica na TV, mas nem sempre falamos sobre como ela o fez com uma protagonista cheia de defeitos e egocentrismo – traços que normalmente não vemos nas heroínas de romances que têm como principal “problema” de personalidade ser muito estabanada. Já Girls foi por muito tempo a série-modelo da mulher-millennial-difícil, que não consegue olhar além do próprio umbigo e se esforça para irritar o espectador. Mas Hannah Horvath (Lena Dunham) e as outras meninas de Girls nada mais são do que um belo espelho dos nossos piores e melhores momentos, e ser forçado a olhar para ele muitas vezes faz bem. Na comédia de sketches Inside Amy Schumer, esse espelho é distorcido em paródias que criam uma distância segura entre a gente e o ridículo – ou será?  

2) Para quem quer descobrir novos níveis de escrotidão: Veep, UnREAL

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A comédia da HBO Veep encerrou no domingo mais uma excelente temporada, em que fomos apresentados a todo um outro nível de insultos e xingamentos e muito provavelmente a mais um Emmy para Julia Louis-Dreyfus. Se Selina Meyer acabou não levando a presidência dos EUA, ela provou que o combo incompetência, interesse próprio e azar domina a política independentemente do gênero de quem está sentado na Casa Branca. Mas se em Washington a graça está em assistir a assessores incompetentes, no drama da Lifetime UnREAL o prazer está em testemunhar as protagonistas Quinn (Constance Zimmer) e Rachel (Shiri Appleby) serem extremamente competentes – e escrotas – na hora de manipular os participantes de um reality show de namoros, enquanto usam justamente a capacidade de ler o emocional dos outros que é tão exigida das mulheres.

3) Quando rir não te impede de se mergulhar no que é saúde mental: Crazy Ex-Girlfriend, You’re the Worst, Lady Dynamite, Orange is the New Black  

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Três comédias que fazem rir – e muito – mas também envolvem o espectador em assuntos sérios e delicados, tratados com extrema sensibilidade e destreza pelos roteiristas. Em Crazy Ex-Girlfriend, Rebecca (Rachel Bloom) larga tudo, para de tomar seus remédios para depressão e vai atrás de um ex-namorado em busca da felicidade que um dia conheceu, que se traduz em forma de números musicais. A série do FX You’re the Worst começou como uma anti-comédia romântica para revelar que a protagonista Gretchen (Aya Cash) não só é “a pior pessoa” como também luta contra depressão crônica. E a novidade da Netflix Lady Dynamite mistura tudo isso com metalinguagem, bastidores da indústria do entretenimento, quebra da quarta parede e flashbacks para contar a história da comediante Maria Bamford. Enquanto isso, a comédia-que-é-drama da Netflix Orange is the New Black traz em Suzanne “Crazy Eyes” Warren (Uzo Aduba) – e, na temporada mais recente, em Lolly (Lori Petty) – dois exemplos vivos de como pessoas com distúrbios mentais podem ser usadas e manipuladas por aqueles que detêm o poder ao seu redor.

4) Dramas para quem não tem estômago fraco: The Americans, Penny Dreadful, Jessica Jones, Top Of The Lake, Homeland

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Aqui já virou bingo do Spoilers, né? As heroínas/anti-heroínas Elizabeth Jennings (Keri Russell, The Americans), Vanessa Ives (Eva Green, Penny Dreadful) e Jessica Jones (Krysten Ritter) estão aí para desbravar territórios tradicionalmente masculinos enquanto lidam com homens ao seu redor que cismam em subestimá-las – e em tentar mudá-las – como forma de exercer mais controle sobre elas. Seja de forma sobrenatural como faz Killgrave, ou por causa da expectativa da sociedade vitoriana que desqualifica a experiência sobrenatural de Vanessa. Tentam, é lógico – mas não quer dizer que conseguem. No caso da espiã Elizabeth, são justamente as expectativas alheias que ela manipula para conseguir informações.

Abuso mental e físico também permeiam os temas centrais de Top Of The Lake, dos canais BBC/Sundance e co-criado pela diretora Jane Campion e Gerard Lee. No que começou como uma minissérie neozelandesa – porém foi expandida para uma segunda temporada -, a detetive Robin Griffin (Elisabeth Moss) volta à sua pequena cidade natal Laketop para a investigação do desaparecimento de uma menina grávida de 12 anos, no processo descobrindo um submundo sórdido de dominação masculina, crime e corrupção. Num registro mais dinâmico, a drone queen de Homeland, Carrie Mathison (Claire Danes), é um exemplo inescapável, já que ela passa temporada atrás de temporada vivendo de escolhas difíceis e, apesar de também sofrer de uma doença mental como algumas outras personagens citadas, não se deixa ser definida por isso, mesmo que muitas vezes Carrie caminhe – e transgrida – a linha do eticamente aceitável.

Outras séries que comentamos no podcast ou merecem um lugar na sua lista de séries com mulheres difíceis: Sex And The City, House of Cards, Orphan Black, Bates Motel, Another Period, Love, The Affair, Scandal, How to Get Away With Murder, The Fall. Qual a sua preferida?

[Crédito das imagens: Divulgação/HBO/Netflix/Showtime/BBC/FX/Hulu/CW/Lifetime/Comedy Central]