Sobre todas as vezes que dividimos uma cama este ano | Spoilers

Sobre todas as vezes que dividimos uma cama este ano

Estava lendo o livro de memórias da Lena Dunhan, Not That Kind of Girl, e em certa passagem a autora comenta que na época da faculdade ela descobriu que não exatamente gostava de estar com uma pessoa na sua cama apenas para fazer sexo, mas que aquilo que ela realmente gostava naquele momento era da intimidade que ocorria quando se dividia aquele espaço com alguém. A proximidade, o ambiente que favorece diálogos que jamais ocorreriam em outro ambiente, as horas em que se toma conhecimento completo do corpo do outro enquanto se dorme junto. Lena, com toda sua obsessão, revela como a intimidade é acolhedora e assustadora.

Ao ler essa passagem percebi quantos momentos de alta intimidade presenciei este ano. Sim, o que presenciei e não os que vivi, pois os que eu vivi não são o propósito aqui. rs Ah! Também não fiquem pensando que estou aqui confessando que sou um a voyeur que anda por aí assistindo a intimidade alheia de verdade. Simplesmente percebi que a TV me transformou em voyeur em 2014, transformou a nós todos. Pensem: quantas vezes ficamos um bom tempo confinados a um espaço pequeno com dois personagens vivendo uma situação de imensa intimidade?

Vou listar aqui alguns episódios que marcaram esse ano por sua capacidade de criar a atmosfera intimista seja no cenário, na ação ou nos diálogos:

“The Wedding” – Outlander

Se existe um exemplo máximo de intimidade que aconteceu na TV este ano, foi o casamento de Claire e Jamie. Eles finalmente se casam, finalmente se beijam, finalmente ficam juntos. Era um episódio que tinha tudo para ser um volume de Sabrina, focado em puro romance e desejo. Porém, assistimos à noite de núpcias inteira do casal, onde houve intenso descobrimento erótico entre os dois (até porque Jamie era virgem), mas também existiu muita conversa de um casal que só pôde se conhecer em sua noite de núpcias.

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Na dinâmica deste episódio, Claire não é uma mulher criada naquele tempo e sabe que em quarto de um casal existe muito mais além de sexo (no caso da época de Jamie, sexo que só satisfaz o homem e agride a mulher). O controle de Claire no momento foi essencial naquele espaço e ao mesmo tempo limitado à aquele espaço, pois as duas vezes que ela sai do quarto somos confrontados novamente com a dura realidade das mulheres.

“The Fight” – Master of Sex

Poderia acreditar-se que não havia como Masters of Sex tratar ainda mais da intimidade entre casais – afinal Bill e Virginia sabem de tudo o que acontece e não acontece entre 4 paredes com aqueles que participam de seu estudo. Porém, neste episódio passamos a noite enclausurados com eles em um quarto de hotel, a tv ligada em uma luta de boxe, ao mesmo tempo em que a trama nos entregava a grande luta entre Masters e Johnson para quebrar a barreira emocional depois de anos de intimidade sexual. E, por mais que ao fim do episódio tenha existido uma aproximação significativa entre as personagens, vemos que não há beijos de despedidas, reforçando a total independência emocional do casal.

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“About a Boy”- Homeland

Em um grande limiar entre a construção de confiança e o abuso emocional, Carrie mostra como na intimidade é possivel manipular e construir cumplicidade. Em um episódio onde achamos que iríamos reviver Carrie & Brody na cabana gemendo alto all over again, encontramos no fim uma Carrie extremamente calculista em suas ações, usando seu corpo para ganhar a confiança de Aayan e extrair o máximo de informações sobre o mais procurado terrorista do Pasquitão.

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“Episode 4″ – The Affair e “Pilot” – You’re the Worst

Assim como “The Wedding”, esses dois episódios são sobre a primeira vez de um casal junto.  O que é interessante entender entre o “Episode 4″ de The Affair e “Pilot” de You’re the Worst, a primeira um drama e a segunda uma comédia, é que em uma estamos falando de uma situação de realização de fantasia e na outra, uma situação de encantamento. Alison e Noah vão para o quarto com muita tensão, expectativas, culpa e urgência; toda essa intensidade gera uma atmosfera violenta (descontada na cômoda do quarto do hotel). Já Gretchen e Jimmy começam esse encontro como “é o que tem pra hoje” e pelo total descompromisso com um possivel futuro, eles expuram ali suas personalidades causando por fim um mútuo encantamento que deu fruto à uma das melhores comédias românticas do ano.

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“One Man’s Trash” – Girls

Ok, este é um episódio de 2013, mas eu assisti em 2014 durante a minha maratona de Girls, então vai para a lista. “One Man’s Trash” parece ser um grande conto de ficção à parte da narrativa de Girls, quando Hannah acaba se envolvendo em um romance de 24 horas com um vizinho do café em que trabalhava. Com este completo desconhecido, Hannah compartilha uma breve rotina doméstica que não só envolveu sexo, mas refeições caseiras, tempo na frente da tv, leituras de livros lado a lado, crises de choros, colo e conselhos sobre a vida. Não foi exatamente uma troca, foi um momento em que Hannah precisou quase de uma “intimidade/conforto de aluguel” para recarregar suas forças para seguir com a vida, como uma pequena vampira que se alimenta da hospitalidade de outras casas e camas e depois se vai.

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O quanto do recurso do enclausuramento de personagens serviu para evoluir personagens ou histórias este ano? Outros tantos acontecimentos ocorreram de forma íntima, entre quatro paredes, e foram definitivos para o rumo da trama. Uma nova forma de explorar e dar ritmo à histórias que marcou 2014.

[Crédito das Imagens: Divulgação/Starz/HBO/Showtime/FX]