O que séries de esporte têm a ensinar para quem não gosta de esportes | Spoilers

Embora eu seja uma das primeiras pessoas a dizer que é importante dar uma chance para séries que fogem do que você tem costume de assistir, eu também sempre fugi de séries de esporte por achar que elas não eram minha praia. Nada poderia ter me preparado, então, para que duas das melhores surpresas que agraciaram minha grade de séries em 2016 e aliviaram os muitos momentos de dor e sofrimento de ano serem desse gênero: o drama da Fox sobre a primeira jogadora da liga de baseball americana, Pitch, e o anime sobre patinação do gelo, Yuri!!! On ICE.

Justamente porque muitos fãs de série, assim como eu, têm uma relação distante com esportes no geral, algumas séries do gênero normalmente são explicadas como histórias em que o esporte “existe apenas como pano de fundo, como um contexto para muitos outros dramas e conflitos”. Não é o caso de Pitch ou Yuri!!! On ICE. Ambas conseguiram me transportar para seus mundos não porque nelas o esporte é um contexto supérfluo, mas justamente porque ele nos é apresentado pela relação íntima, complexa e apaixonada de seus protagonistas com suas respectivas modalidades. E para essa jornada, o conhecimento prévio no esporte se torna irrelevante. As séries apresentam um retrato tão específico que é até mais gostoso descobri-lo do zero – e ainda mais poderoso quando nos enxergamos nele.

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Pitch e Yuri!!! On ICE não poderiam ser mais diferentes, e não poderiam ser mais parecidas. A primeira é um drama de uma hora do canal americano Fox que tem como protagonista Ginny Baker (a excelente Kylie Bunbury), uma jovem jogadora de baseball que está fazendo sua estreia como a primeira mulher a jogar na grande liga americana do esporte. A princípio, Ginny encara desafios externos, como a má vontade que beira o preconceito de seus colegas de equipe, o despreparo da organização do time, que precisa improvisar até um vestiário para ela, e a pressão do país inteiro que está simultaneamente torcendo pelo seu sucesso, duvidando dele ou colocando-a em um pedestal extremamente frágil, típico de quem carrega o título de “a primeira” antes mesmo de poder se apresentar como pessoa.

Como espectadores, somos convidados a adentrar esse mundo junto com Ginny. Quando, no meio da temporada, vemos as consequências de todos esses desafios no estado psicológico dela, é ao mesmo tempo em que a própria personagem admite para os outros e para si mesma que precisa de ajuda para conseguir dar o melhor de si sem se prejudicar no processo.

Mais do que pela figura de uma terapeuta (Rita Wilson), Ginny recebe essa ajuda por meio das diversas relações que ela desenvolve ao longo da temporada. Não só dos personagens que a apoiam desde o início – a agente Amelia e o casal de amigos Blip e Evelyn, todas estas relações complexas que também são testadas – mas de lugares inusitados. Personagens que a princípio poderiam ter sido vistos como antagonistas, como dirigentes do time mais interessados no lucro ou treinadores com bagagem acumulada de machismo que fazem comentários impróprios; estranhos que poderiam ser interesseiros; colegas de time que aos poucos a aceitam como companheira; ou o capitão do time que desde o início a apoia profissionalmente, com um papel de mentor, e com quem ela desenvolve uma relação de afeto, troca de experiências e aprendizado e – para deixar tudo mais interessante – tensão sexual.

Os desafios internos de Yuri

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Yuri!!! On ICE também se sustenta, de forma mais explícita e romântica, em uma relação de profundo afeto, respeito e igualdade (e, lógico, tensão sexual) entre o protagonista Yuri Katsuki, um patinador japonês que entregou seu pior resultado em uma competição mundial, e seu treinador, o russo Victor Nikiforov, ídolo de Yuri que surpreende a todos ao largar a própria carreira como patinador enquanto está no auge para se dedicar a treinar Yuri.

Enquanto Pitch começa apresentando os obstáculos externos de Ginny, Yuri!!! On ICE foca desde cedo nas inseguranças internas de Yuri. Sua solução após o resultado ruim é se fechar em si mesmo, se afastando do esporte, da família e dos colegas e cultivando uma imagem extremamente distorcida da própria capacidade – ansioso e com pouca autoestima, Yuri coloca na cabeça que é um fracasso, ao mesmo tempo em que diversos elementos do anime nos provam o contrário. Ele é recebido de forma orgulhosa pela família e pela cidade natal, desperta a admiração de patinadores mais jovens da mesma forma que ele admira Victor, e dá a Victor a inspiração que ele buscava durante uma crise criativa na própria bem-sucedida carreira.

É só quando Yuri muda a forma como enxerga a si mesmo, conecta-se com todos esses elementos da sua vida e tira força da vulnerabilidade que sempre o consumiu que ele consegue de fato usar o seu talento da melhor forma.

Assim como em Pitch, Yuri!!! On ICE tem personagens que inicialmente se posicionam como potenciais antagonistas do protagonista, em especial Yuri “Yurio” Plisetsky, o menino prodígio da Rússia que inveja a disposição de Victor trocar a carreira e seu país por um patinador japonês. Da mesma forma que Yuri se vê como um fracasso, Yurio se enxerga como seu adversário no início. Mas enquanto aperfeiçoa seus talentos, ele consegue tirar força e inspiração de outros atletas – entre eles Yuri e Victor. Se no piloto ele zomba dos resultados de Yuri e manda o outro se aposentar – uma ameaça que ecoa na mente de Yuri sempre que ele tem um momento de insegurança – na competição final ele se indigna pela possibilidade de Yuri desperdiçar o próprio talento (tenha em mente que Yurio é um adolescente de 15 anos, ele sempre se expressa pela raiva).

Ao fim, Yurio sabe que Yuri não é seu inimigo. Ao contrário de um esporte com confrontos diretos entre dois atletas, na patinação no gelo não é preciso que todos os outros patinadores sejam derrotados para um sair vitorioso. O que todos os personagens de YoI buscam é a excelência. E o inimigo da excelência não são outros competidores também excelentes, mas as barreiras invisíveis que os impedem de alcançá-la.

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O antagonista de YoI são obstáculos que não conseguimos visualizar, mas que muitas vezes tomam forma de outra pessoa, pois é muito mais fácil lidar com eles assim. Da mesma forma, em Pitch os desafios e obstáculos enfrentados por Ginny são pressões externas, dúvidas internas e questões estruturais, que exigem resoluções mais complexas do que apenas aceitar uma mulher na liga de baseball ou demitir um técnico que faz um comentário machista.

Mas o que tanto YoI quanto Pitch nos mostram é que, embora esses problemas não sejam pessoas, a solução para eles são pessoas. É com a ajuda dos outros e por meio das conexões com aqueles ao seu redor que Ginny e Yuri conseguem se enxergar com mais clareza e encontrar a força necessária para mudar a eles mesmos e o mundo ao seu redor.

Pitch e Yuri!!! On ICE são histórias sobre relações de seus personagens com o esporte que são, sim, específicas. Mas vistas de perto, elas se tornam praticamente universais – pois a lente mais importante para entender essas séries não é saber fazer um arremesso no baseball ou um salto Salchow, ou mesmo saber o que eles são, e sim entender qual o significado de alcançar esses objetivos para os personagens que estamos assistindo. Para isso, tudo o que precisamos é conhecê-los profundamente e entendermos que suas experiências, embora únicas, refletem também as nossas próprias vitórias e derrotas – e nos ajudam a compreender melhor de onde vem nossa capacidade de chegar até elas.

[Crédito das imagens: Divulgação/Fox/Studio MAPPA]