Tal como seus protagonistas, Love quer ser melhor | Spoilers

Tal como seus protagonistas, Love quer ser melhor

O texto a seguir não possui spoilers da primeira temporada de Love, apenas questões pontuais que não vão estragar nada da história. Pode confiar!

Na última sexta-feira, 19 de fevereiro, a Netflix estreou Love, série criada por Judd Appatow, Paul Rust e Lesley Arfin. Além de ser mais uma parte do plano de dominação mundial da Netflix que quer, somente nesse ano, estrear aproximadamente umas duas dezenas de séries novas, o que mais me chamou a atenção sobre esse lançamento é seu título pretensioso.

Love é estrelada por seu co-criador, Paul Rust e Gillian Jacobs, a Britta de Community. Por que “pretensioso”? Primeiro porque amor, em sua tradução mais bruta, não é necessariamente algo que a humanidade dominou em seus milhares de anos de existência na Terra. De belas mulheres cuja beleza era capaz de lançar mil navios, passando por adolescentes com um estranho pacto suicida e chegando em lindas prostitutas que enamoram galãs grisalhos dos anos 1990, muito já se escreveu e interpretou sobre amor.

Love

Somente Judd Appatow, o diretor que recentemente levou Amy Schumer para o cinema com “Trainwreck” (uma comédia romântica que alguns diriam  – eu diria! – se alongar um pouquinho demais) para tentar nos convencer que sua série de 10 episódios, com mais ou menos meia hora de duração cada um, seria valente o suficiente para apreender “amor” enquanto tantas outras obras tentaram e falharam.

Nem por isso, Love deixa de ser uma jornada interessante na vida de dois personagens “muito errados” um para o outro, um trope comum nas atuais comédias românticas, inclusive, nas de Judd Appatow. Mickey (Gillian) é uma produtora de rádio, alcoólatra, maconheira que mora em Los Angeles com uma recém conhecida colega de quarto (a excelente Claudia O’Doherty interpretando a australiana Bertie). Gus (Rust) é um professor particular que dá aulas para crianças celebridades no set de um seriado de televisão que tenta zombar do plot de Desperate Housewives com Charmed.

Com seus empregos devidamente “peculiares”, ambos se conhecem por acaso quando Mickey se encontra sem sua carteira para comprar um café e Gus decide fazer o favor de pagar sua conta. Apesar de um primeiro episódio cansativo em que os dois personagens são estabelecidos, mas praticamente não interagem, Love cresce durante o segundo episódio que, seguindo outro conhecido clichê dos romances, coloca ambos num diálogo ininterrupto de um dia inteiro. Trocando impressões sobre a vida, sobre si mesmos e sobre as circunstâncias que os cercam, os dois se conhecem, mas não necessariamente se apaixonam.

Com 10 episódios para gastar, a direção de Dean Holland (que dirige 4 dos 10) toma seu tempo tanto no começo quanto na reta final. Problemas com colegas de trabalho separam o casal que hesita em se aproximar. Gus teme não ser suficientemente interessante ou atraente para Mickey e Mickey esconde questões mais sérias que, assim como a Gretchen de You’re The Worst, ela não revela de imediato nem para Gus e nem para o público.

Embora não seja a comédia mais afiada que a Netflix já colocou no ar (Unbreakable Kimmy Schmidt ainda permanece no topo do Olimpo nesse quesito), Love tem seus bons momentos. A força dos diálogos (e brigas) entre Mickey e Gus carrega nosso interesse, ocasionalmente superada apenas pela presença de Bertie, a mais real e bem resolvida personagem da série. O drama não é suficiente para fazer ninguém chorar, mas está lá, já que assuntos bem sérios cercam a vida de ambos os personagens. Ela, assolada por um vício que se esforça para ignorar e ele, frustrado com suas escolhas de vida, propenso a auto vitimização e ataques de raiva nas horas mais inconvenientes. Juntos, ambos são o arquétipo de uma relação instável. 

Com destaque para “Andy”, o sexto episódio que é co-estrelado por uma versão de si mesmo interpretada pelo comediante Andy Dick (Newsradio) e “Magic”, excelente episódio seguinte dirigido por ninguém menos que Steve Buscemi, Love sofre com um ritmo tão irregular quanto a duração de seus capítulos, que oscila a cada um deles.

Mas mais do que isso, a série sofre com o peso enorme de seu título. A cada episódio, Love tenta nos fazer refletir sobre os tropeços inevitáveis que damos na tentativa de conhecer pessoas que nos interessam. Dizer a coisa errada num encontro? Entendemos bem o que é isso. Sentir-se inseguro sobre se ele ou ela vai nos mandar uma mensagem durante o dia? Já vivemos essa incerteza. Esconder do outro nossos pequenos deslizes ou até mesmo grandes traições? Atire a primeira pedra quem nunca…

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Que é difícil se permitir conhecer e se aproximar do outro, todos já sabemos. A literatura, o cinema e a televisão não se cansam de colocar situações universais na vida de personagens singulares para nos mostrar que todos somos um. Quase todos acertam e erram em igual medida, a ponto de nos fazer questionar: Mas então, por que ainda nos interessamos pelo tema amor, em especial, o amor romântico?

Talvez porque tanto em Love, quanto em You’re The Worst (no qual ela certamente se inspirou), Casual, Catastrophe, Man Seeking Woman, Master of None e inúmeras outras, roteiristas, diretores e atores se renderam ao fascínio deste que é, talvez, o sentimento mais complexo e ininteligível que permeia a vida em sociedade.

Seja como vantagem evolutiva (proteger-nos uns aos outros, garantir a sobrevivência e continuidade da espécie, etc), seja como um mecanismo no qual, ao lado da noção de propriedade, fundamentamos nossa sociedade, o amor é a pequena construção humana que nos envolve em uma espécie de feitiço. Num mundo de histórias com dragões, bruxas e super-heróis, o amor romântico é possivelmente o único momento mágico (por ter um quê de “inexplicável”) que acreditamos ser possível de vivenciar.

Tanto Gus, com seus demasiados problemas e sessões gravadas de terapia que ele reescuta no trânsito, quanto Mickey, com questões que a série apenas começou a tocar no último episódio da temporada, vivem vidas medíocres com direito a uma ou outra alegria entre amigos. Entretanto, assim como eu e você, ambos esperam ser arrebatados de sua vulgaridade por um sentimento mágico que – como numa boa comédia romântica – os transformará de pessoas invisíveis nos protagonistas de sua própria história. Em seus 10 episódios, a série os desconstruiu, deixando-os sozinhos para um reencontro final,  agora sim, prontos para serem reconstruídos, dessa vez, reconhecendo seus problemas.

Com piadas quase boas, direção oscilante e roteiro que quer ser menos previsível, Love nasceu como uma série cheia de vontade de melhorar. Basta saber se, caso seja renovada, ela será transformada pelo amor que se dispôs a registrar ou se, como tantas outras histórias que vieram antes e virão depois, ela será apenas mais uma pequena peça na tentativa de solucionar esse que é nosso maior mistério.

[Crédito das imagens: Netflix/Divulgação]