Sense8 quer ser vista em maratona e você deveria arriscar | Spoilers

Sense8 quer ser vista em maratona e você deveria arriscar

O texto abaixo contêm spoilers leves sobre a primeira temporada de Sense8, mas nada que estrague a série para quem ainda não assistiu inteira.

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Se existe um problema de vivermos nesse mundo pós-Netflix, em que séries inteiras são lançadas num mesmo dia, podendo ser devoradas em 12 horas ininterruptas, é que as críticas que as acompanham raramente conseguem atingir o público com a mesma velocidade em que este as consome.

Para os que assistiram Sense8 numa reta só e sem pausas para respirar, buscar recapitulações de críticos que foram além dos 3 episódios enviados oficialmente para a imprensa é uma tarefa ingrata já que sua recepção geral não foi positiva. Verdade que nos primeiros momentos, a série criada pelos irmãos Wachoswki e o homem por trás de Babylon 5, J. Michael Straczynski, não engata como eles bem gostariam.

As atuações irregulares dos oito protagonistas com igual importância para a trama, o elenco multi-racial aparentemente sedimentado em estereótipos, os diálogos pra lá de expositivos que pontuam traumas pessoais e outros pequenos defeitos foram devidamente notados e registrados por boa parte da crítica ao determinar que Sense8 era apenas mais um decepcionante fruto de criadores que não emplacam um sucesso faz algum tempo.

No entanto, tal como julgar um filme pelos seus primeiros 30 minutos ou um livro apenas pelos seus capítulos iniciais, talvez num futuro próximo tais críticas possam ser consideradas imprecisas ou, indo mais longe, até “irresponsabilidade artística”.

Se você quer realmente saber do que Sense8 se trata além da sua sinopse rasa (oito pessoas se descobrem linkadas mentalmente num enredo capaz de misturar o globalismo místico da primeira temporada de Heroes com a carga emocional dos melhores flashbacks de Lost), talvez você tenha que se sentar no sofá e se deixar levar pela bela cinematografia e um roteiro que, apesar de pontualmente imperfeito, trabalha oito histórias com potencial para se tornarem oito séries independentes.

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De um policial em Chicago (Brian J. Smith) que investiga um homicídio do qual ninguém mais quer chegar perto, até uma executiva coreana (Doona Bae) que, do outro lado do mundo, briga para ser reconhecida pelo pai e pelo mundo como a lutadora que realmente é, Sense8 começa atrapalhadamente tentando ligar personagens espalhados pelo mundo que parecem não ter liga nenhuma.

Entretanto, como não foi criada para ser um produto visto semana após semana, a série conta com o formato introduzido pela Netflix para conquistar o espectador durante o processo de uma maratona. Quem fica para ver assiste em 12 horas a transformação de diversos personagens planos em esféricos. Todos trabalhados nos temas que os Wachowski são conhecidos por tratar sempre: classe, sexualidade, espiritualidade e rebeldia.

Como em Matrix, o policial Will Gorski precisa ser despertado contra o sistema. Seu drama evolui da típica figura do americano médio, parte de uma entidade opressiva contra uma classe social oprimida, que tem que compreender que algo na dinâmica “policiais brancos x criminosos negros” não está certo. Já a personagem indiana, cujo apego à família e religião parecem, a princípio, um plot clichê saído de uma trama da Glória Perez, tem um pequeno crescimento para provar que nenhuma das instituições em sua vida é infalível. Traída pela religião, mas sem deixar de ser religiosa, Kala quebra o molde do qual nasceu para se tornar sua própria pessoa, terminando com uma importante decisão a tomar.

E não apenas ela, o machão latino Lito, interpretado carismaticamente por Miguel Angel Silvestre, também possui uma jornada que foge do clichê do homem gay com vergonha de sua orientação sexual para algo mais complexo: o homem covarde que aprende a se posicionar eticamente em todos os seus relacionamentos interpessoais. Não por acaso, a partir de sua exploração sexual (rendendo algumas das melhores cenas de sexo de uma série com vários bons momentos nesse quesito) que outros personagens são reunidos “magicamente”.

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Embora a ideia de um cluster – uma fusão mágica/psíquica de oito pessoas espalhadas no mundo por uma lógica sci-fi que a série não consegue explicar bem – pareça surreal, ela é um recurso efetivo de roteiro para contar como a influência de pessoas transforma a vida e identidade de personagens que, sem essa união, permaneceriam os chavões que os primeiros episódios nos fizeram pensar que eram.

Não é à toa que Nomi Marks, a mulher transsexual interpretada pela atriz também transsexual Jamie Clayton, é a principal metáfora – nada sutil – de transformação e da necessidade de encontrarmos nosso lugar no mundo. Os Wachoswki jogam com uma história já vista em outras séries, filmes ou livros, ao irem além da narrativa da auto-descoberta da identidade versus a opressão dos pais ou da sociedade patriarcal, para nos dar um pouco de humor negro e uma boa dose de empatia colocando-a em um relacionamento extremamente positivo com Neets, vivida pela Freema Agyeman (a Martha de Doctor Who), uma das melhores e mais dinâmicas personagens de Sense8, que também ganha um passado – mesmo curtinho – e uma função na trama principal.

A tal trama maior, contudo, talvez seja o ponto mais fraco da série. Os vilões permanecem esquecidos por mais da metade da temporada e, quando de fato aparecem, não existe qualquer desenvolvimento de suas motivações além de um discurso um tanto furado dado pelo mentor dos sensate (Naveen Andrews como Jonas) ao tentar diferenciá-los dos humanos normais alegando que sua natureza seria “mais pura”. Coisa que não parece verdade quando dentro de um mesmo cluster vemos a violenta trama do alemão Wolfang, ou a implacabilidade da coreana Sun ao lutar contra seus muitos adversários sem se preocupar com suas vidas.

Apesar desse ponto dissonante, Sense8 não deixa de brilhar com histórias como a de Capheus (Aml Ameen) que, superficialmente, pareciam ser levemente racistas ao posicionar o único homem negro protagonista numa parte de Nairobi pobre e violenta. Entretanto, tal qual colocar a única asiática protagonista para ser uma grande artista marcial, os roteiristas foram espertos ao transformar “Van Damme” em uma estrela que carregou nas costas boa parte da simpatia e da tensão numa pequena saga que envolveu tirá-lo de sua zona de conforto para proteger sua família, amigos e surpreendentemente, o grande criminoso que parecia ser seu principal antagonista.

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Além da força de uma trama longa que vai desatando nós ao transformar lugares-comum em histórias novas e interessantes, a série é um feito de direção por não utilizar quase nenhuma computação gráfica para contar uma história definitivamente de ficção científica. Dependendo de cortes de edição como nunca, as cenas em que os sensate se encontram sem sair de seus devidos lugares no mundo, mas dividindo os mesmos ambientes são suficientes para nos convencer que algo fantástico está se passando diante de nossos olhos.

Por fim, Sense8 é um produto que só poderia existir dentro do orçamento, formato e proposta desse novo modelo de televisão. A série conta bastante com a impaciência, enorme capacidade de suspensão de descrença e curiosidade do público para motivá-lo a assistir uma longa história que, embora não amarre todas suas pontas, não explique sua “ciência” (aspas importantes) e não disfarce sua agenda obviamente progressista, não deixa de satisfazer. Sua conclusão dá a certeza para o espectador de que, no término da maratona, ele realmente conhece aquelas pessoas e sabe o longo caminho que elas – se dada a chance de uma merecida segunda temporada – ainda tem para percorrer.

[Crédito das imagens: Divulgação/Netflix]