Por que Roadies fracassou ao tentar ser a grande série musical da TV | Spoilers

Por que Roadies fracassou ao tentar ser a grande série musical da TV

Após uma curta temporada de 10 episódios recebida com críticas ruins e audiência inexpressiva, a série Roadies, criada por Cameron Crowe, foi cancelada pelo canal Showtime para a surpresa de quase ninguém. Quando foi anunciada, no entanto, a produção mais nova de um diretor com momentos invejáveis em sua cinematografia pareceu uma ótima ideia.

Roadies era uma tentativa de explorar um lado obscuro da indústria musical – as dezenas de pessoas que acompanham bandas em turnês mundiais e garantem que os shows aconteçam – pela lente de um cineasta que ficou famoso por um filme que revelava justamente os bastidores de uma turnê. “Quase Famosos”, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro em 2001, foi escrito e dirigido pelo próprio Crowe com base em suas memórias como um jovem repórter da revista Rolling Stone nos anos 1970.

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Com isso em seu DNA, a série nasceu com o pedigree certo, mas durante sua curta estada no verão televisivo americano, não mostrou a que veio. Estrelada por Luke Wilson e Carla Gugino como os managers de turnê Bill Hanson e Shelli Anderson, Roadies depositou boa parte de sua esperança dramática no “will they or won’t they” do casal de amigos com potencial para almas gêmeas que acabou nunca vingando.

Paralelo ao romance, a série confiou – talvez até demais – na atuação da ótima Imogen Poots que interpretou a técnica de produção e aspirante a cineasta Kelly Ann. Afligida pelo mesmo recurso de roteiro que assombrou o casal principal, Kelly Ann foi forçadamente pareada com Reg Whitehead (Rafe Spall), o assessor financeiro que surge no piloto com a ingrata missão de colocar a turnê nos eixos contábeis e, secretamente, fomentar a separação da banda em prol de uma carreira solo mais lucrativa de um de seus membros.

Ao redor dos quatro, a série apresentou um sem número de assistentes de som com subplots que nunca se pagavam, gerentes corruptos mas “amáveis” e membros de uma banda que era o centro dos dias daqueles personagens ficcionais mas, no fundo, não importava para a série.

Com quatro episódios dirigidos pelo próprio Cameron Crowe – e seis com roteiros assinados por ele – a série nunca encontrou o apelo emocional que seus personagens ansiavam desesperadamente. Por mais intrigante que seja a ideia de ver gente talentosa trabalhando nos bastidores para dar suporte a uma banda que brilha em seu lugar, Roadies nunca realmente nos fez enxergar a importância do trabalho daquelas pessoas.

Famoso pelos romances, incluindo o clássico “Digam o Que Quiserem”, Crowe não conseguiu em mais de 10 horas de série recriar momentos como aquele que toda comédia romântica até hoje evoca, em que um de seus personagens levanta um som stereo e faz uma declaração amorosa previsível, mas fofa. O romance em Roadies era sutil e furtivo demais para afligir (positiva ou negativamente) qualquer espectador.

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Em seus momentos musicais, a série alternava entre cenas memoráveis – como a participação da cantora Halsey interpretando a si mesma, mas fazendo parte da trama como todos os outros – e tributos cansativos que serviram de mero palco à artistas com quem Crowe constantemente colabora, como Lindsey Buckingham e Eddie Vedder.

Em seus pontos mais baixos, Roadies trouxe bons atores interpretando coadjuvantes que serviram como monstros da semana sem qualquer profundidade ou sequer nuance, já que estavam ali para irritar os personagens e pregar para a audiência algo contra a ~superficialidade do mundo hiperconectado~. O pior deles, o blogueiro interpretado por Rainn Wilson, sedimentou a irrelevância da série, que tentava falar sobre música atual mas tinha a mentalidade de alguém que não gosta do que se produz ou de como jovens interagem com música atualmente.

Qualquer menção aos sites de streaming, ao declínio da venda de discos e ao sumiço do rock das grandes paradas de sucesso foi deixado de fora de Roadies, que prestava homenagem a um passado que formou Crowe, mas que não permitiu que nada do que a série dissesse conversasse com o atual estado da indústria musical, tornando-a uma triste lição de anacronismo.

Com personagens que nunca decolaram servindo a uma banda que nunca mostrou a que veio, Roadies foi uma investida bem intencionada, mas cheia de erros, de um grande cineasta que não soube usar a TV e suas possibilidades para contar uma grande história – em duração e peso dramático – e realmente envolver seu público.

[Crédito das imagens: Divulgação/Showtime]