Por que o Doctor é um homem branco (e porque ele deveria deixar de ser) | Spoilers

Por que o Doctor é um homem branco (e porque ele deveria deixar de ser)

Assim que Matt Smith anunciou que vai deixar a série após o 50º aniversário de Doctor Who, a internet deu a largada na corrida para adivinhar (ou “dreamcastar”) quem será o 12º ator a interpretar o Doctor e entrar para a mitologia da série.

Vários nomes foram jogados na roda pela mídia “de acordo com fontes da BBC com conhecimento do assunto”. Entre eles está Daniel Kaluuya, que já fez Skins, e Chiwetel Ejiofor, mais conhecido pela carreira no cinema. Chiwetel aparece como favorito segundo alguns sites, principalmente após um comentário casual que o ator/nerd Wil Wheaton fez no tumblr, em que ele diz que a escolha é praticamente fato entre asamg do mundo da sci-fi.

Real ou não, se Chiwetel for escolhido para ser o 12th, ele será o primeiro Doctor negro (e não-branco) desde o início da série, nos anos 60. Considerando que recentemente um estudo sobre representação de raça na série puxou a orelha da BBC por incluir poucos personagens que saíssem do padrão-britânico-branquinho, um casting como esse seria um momento histórico.

Chiwetel Ejiofor, esse lindo (Divulgação/Sundance Portrait Session)
Não só porque seria a primeira vez que um personagem icônico da cultura pop britânica seria interpretado por um ator negro (enquanto isso #oremos para Idris Elba garantir a vaga de James Bond), mas principalmente porque afetaria diretamente a maneira com que o Doctor interage com a História da humanidade.

Quando ele não está em planetas distantes, os roteiros de Doctor Who levam o Doctor e sua companheira de aventuras (que na maior parte das vezes é uma mulher branca) para momentos históricos importantes do planeta Terra. Mas há uma razão para ele conseguir navegar por todos esses ambientes diferentes sem ser incomodado. Ele está caracterizado como o único tipo de ser humano que consegue andar incólume por qualquer período histórico: um homem branco.

Pense em todas as vezes em que a companion recebeu olhares chocados por aparecer sem a roupa apropriada para a época. Lembre de como Martha Jones, a única companion negra da história da série, foi tratada quando ela e o Doctor foram parar na Inglaterra do início dos anos 1900 — ele se refugiou confortavelmente como professor, e ela precisou se esconder como criada e ainda ouvir desaforo da patroa.

Para resumir, pense assim: durante a escravidão, um homem branco podia facilmente achar aquilo desumano e não comprar escravos, mas ele só podia agir assim porque era um homem branco — do contrário ele não teria a opção.

Ou seja: para navegar livremente por todos os momentos da História, é mais fácil estar do lado daqueles que estiveram em posições de dominação ao longo da História. Também é mais fácil para a série, que não precisa se esforçar para tratar de temas “sensíveis” — desde 2005 Doctor Who só teve uma roteirista mulher e, segundo #apontaestudo de fotos dos resultados da busca do Google, esses dicks on the dancefloor são very very white.

É mais fácil, mas não quer dizer que seja melhor. Usar um homem branco como “guia” por esses acontecimentos significa não ter que lidar diretamente com as partes da história em que a humanidade não teve um comportamento assim tão exemplar. É manter o papel de observador, de estrangeiro, de pessoa que pode facilmente entrar e sair da situação quando bem entender. Só que nem todo mundo que assiste a Doctor Who pode dizer a mesma coisa se um dia saísse da TARDIS e estivesse na Idade Média ou no sul dos Estados Unidos do século XVII.

Se Chiwetel Ejiofor for escolhido para ser o novo Doctor, será a primeira vez que o Doctor será obrigado a enfrentar episódios da História como algo mais do que um observador que facilmente se disfarça na multidão e caminha por momentos que oprimiram parte da população mundial sem sofrer opressão alguma.

Além de ser uma chance de justamente dar voz aos espectadores que se parecem mais com Chiwetel do que com Matt Smith, isso traria um potencial enorme de renovar a série, torná-la mais significativa e conversar com mais públicos. Seria um material extremamente rico em conflitos, situações dramáticas e tramas novas para uma série que já se reinventa há décadas. Mudanças sempre foram o principal motor de Doctor Who. Está na hora de isso significar mais do que apenas um novo rosto.

[Crédito das Imagens: Divulgação/Sundance Portrait Session]