Seja em Outlander ou em The Americans, na guerra não há vencedores | Spoilers
O texto contém detalhes da quarta temporada de The Americans e do episódio 2x10 de Outlander.

“Você não tem controle sobre quem vive, quem morre, e quem conta sua história.” (History has its eyes on you – Hamilton)

Se a História é um campo de batalha constante, no qual versões diferentes são exaltadas ou silenciadas, a guerra é a cristalização disso, onde a vitória também representa o poder de controlar a narrativa. Não é a toa que guerras são fonte de tantos filmes, séries e livros de época.

Esse campo se torna ainda mais rico – mas talvez menos explorado – quando o foco são aqueles que foram derrotados. O que significa morrer quando isso não contribui para a vitória? Que tipo de história pode ser contada quando sabemos que não existe a possibilidade de vitória? Tanto The Americans quanto a segunda temporada de Outlander estão intimamente interessadas nessas perguntas – e as usam para mostrar o impacto que mesmo batalhas vitoriosas têm naqueles que estão lutando em uma guerra já perdida.

No penúltimo episódio de Outlander, “Je Suis Prest”, vemos Claire, uma personagem que não participa ativamente da guerra retratada na Escócia do século 17, sofrendo da síndrome pós-traumática típica de soldados quando voltam das trincheiras – antes mesmo da luta jacobina começar, como um presságio do que viria. Antes de voltar no tempo, Claire terminou a Segunda Guerra Mundial do lado vencedor, mas isso não a impede de sofrer com seus efeitos, e temer as experiências familiares que ela sabe que virão, dessa vez na tentativa de reescrever uma luta que já está registrada na História como fútil.

No seguinte, “Prestonpans”, as longas sequências de lutas das quais os homens participam são marcadas por uma reflexão profunda do que os levou até ali. Antes do ataque furtivo ao exército inglês, Murtaugh questiona quando uma morte se torna necessária, e quando ela é desperdiçada – e depois a morte de Angus, para salvar um colega, serve como um exemplo nítido disso. Se a resposta não está na defesa de uma causa maior, pode aparecer na proteção de um companheiro.  

Para o jovem Fergus, que insiste em abandonar a emasculante tarefa de ajudar as mulheres a cuidar dos feridos para seguir os homens na luta, o risco é um preço a ser pago pela esperança de recuperação. Arrancado do seu papel de criança pelo encontro terrível com o inglês Black Jack Randall ele vai atrás da chance de derrotar um exército inglês e, mesmo sem ser alvo de violência física durante a luta, se torna mais uma vítima das atrocidades que a guerra obriga pessoas a cometer ao matar um soldado inimigo.

A violência toma muitas formas e, como Outlander sempre mostrou muito bem, a maioria delas não se manifesta em levar um tiro em um campo de batalha.

The Americans trata disso mais profundamente porque os atos de guerra dos espiões soviéticos não acontecem nas trincheiras. As violências causadas por Philip e Elizabeth nem sempre são físicas – embora a série tenha sua parcela de cenas pesadas – mas muitas vezes são uma história, uma mentira, uma omissão. Em The Americans, os atos de guerra são traições, quebras de confiança estratégicas para ajudar uma causa maior e evitar uma batalha aberta que nós, espectadores, sabemos que não virá.

theamercinasO que The Americans faz de melhor, de forma lenta e satisfatória, ao longo de diversas temporadas, é o equivalente ao episódio da batalha de Outlander. Acompanhamos soldados que podem ter vitórias pontuais, mas que não vão vencer a guerra. E por já saber o resultado final, nos demoramos nos efeitos dessas violências. Efeitos que aparecem não só nas vítimas que as sofrem diretamente – uma família feliz destruída por uma mentira, Martha indo para a Rússia sem saber o que a espera – mas também em quem as comete.

Se Elizabeth e Philip sempre terminam suas missões, também vemos que a destruição que Elizabeth causa nos outros a corrói por dentro, ou que a missão de vida de Philip faz ele se sentir preso a uma carreira que escolheu cedo demais.Testemunhamos William morrendo apegado a uma causa maior porque ela era a única coisa que lhe restou e Nina, que sempre se viu presa aos dois lados, levando um tiro na cabeça após perder a serventia para ambos. E enxergamos o potencial sedutor que a necessidade de lutar por algo tem em Paige, que começa a agir por conta própria como protetora da família – um efeito inesperado que reforça o quão pouco controle Philip e Elizabeth têm sobre suas ações.

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Nos momentos nostálgicos em que Elizabeth se esforça para justificar suas razões de ainda estar em guerra, ela relembra a cidade natal e se questiona se esta mudou muito. Philip acha que não, e ele provavelmente está certo. Ao fim da quarta temporada, a família precisa tomar a maior decisão até hoje: continuar no campo de batalha ou voltar para “casa” e arriscar descobrir que todas as suas ações foram em vão – que os resultados da sua missão foram apenas destruidores, e não capazes de construir algo melhor.

Ao nos tirar a dúvida dos resultados que as ações dos personagens terão na História, The Americans e Outlander abrem espaço para retratar todos os efeitos da destruição tanto naqueles que são pegos no meio do fogo cruzado quanto naqueles que escolheram tomar parte dela. Uma morte decorrente da sua causa maior ou uma morte que é efeito colateral da causa alheia são, no fim, mortes. São homens deitados em uma cama dando os últimos suspiros, como Angus e como William – um acompanhado apenas da causa que o abandonou e o outro ao lado de pessoas que lamentam sua perda. Nunca seremos capazes de controlar quem vive e quem morre. Mas quem sabe testemunhar os efeitos destruidores dessas histórias nos ajude a entender o preço que elas exigem.

[Crédito das imagens: Divulgação/Reprodução/FX/Starz]