Os homens de Orphan Black | Spoilers

Os homens de Orphan Black

Este post contém detalhes do episódio 2x04, "Governed as It Were By Chance", de Orphan Black.

Orphan Black é uma série sobre mulheres. Sobre mulheres clones que se encontram, se conhecem, às vezes se atacam, na maioria das vezes se ajudam e, acima de tudo, se protegem dos outros.

Mas Orphan Black também tem personagens homens, em geral acessórios para as protagonistas clones, que mais reagem ao que elas fazem do que agem por conta própria, e que acabam sem ter grande influência no drama principal da série – algo que muitos dos críticos gostam de estampar como fator que engorda a lista de razões de Orphan Black ser uma série feminista. É aquela coisa de vingança contra todos os filmes de super-herói que até criam (uma) personagem mulher legal, mas que até o fim do filme não faz muito mais do que ser salva quinhentas vezes pelo herói e/ou morrer para que ele aprenda uma lição.

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Orphan Black

Os homens de Orphan Black são personagens com pouca força ativa na trama principal? Talvez. É essa a função de coadjuvantes, afinal. Mas são apenas acessórios sem o que a acrescentar à história? Nem tanto. Orphan Black dá duas funções bem definidas para seus personagens homens. Eles surgem como obstáculos e antagonistas – Dr. Leekie; o monitor e boy toy da Rachel; o marido de Allison e espião nada sensual Donnie; os religiosos malucos atrás de Helena (em suas duas versões) – ou como ajudantes e apoiadores da causa das clones – seja Art auxiliando Sarah na busca por sua filha ou Felix sendo uma força emocional tanto para Sarah quanto para Allison.

Mas um ponto interessante que eu só percebi quando estava assistindo ao último episódio da série, 2×04 “Governed as It Were By Chance”, foi como esse segundo tipo de personagem ajuda e apoia as clones. É dando autonomia para elas.

Quando Art vê Helena correr até ele, fugindo do culto que a prendeu, dopou e violentou, ele olha abismado para a Shakira look-alike como quem viu um fantasma (afinal) e tenta chamá-la sem sucesso. Ele poderia ter corrido atrás dela, e por um momento eu fiquei pensando justamente por que diabos ele não fez isso. Mas logo em seguida os religiosos aparecem com armas, também atrás de Helena, e fica claro que Art tinha uma escolha. Entre correr atrás de alguém com problemas próprios para que ele conseguisse respostas e ajudar essa pessoa a escapar ilesa na direção que ela bem entender, Art escolheu a segunda opção. Deu uma dura nos membros do culto e os atrasou o suficiente para que Helena fugisse. Para onde? Ele não sabe, nem lhe interessa.

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A mais nova adição ao time de eye candy da série, o ex de Sarah e pai de Kira, Cal (ou Daario, para as khaleesis), também tem um papel similar. Lógico que ele questiona Sarah sobre o que está acontecendo quando ela o envolve na vida maluca que agora é sua rotina (e da filha de ambos). Lógico que ele não fica parado esperando ordens pra saber o que fazer (pelo contrário, o cara tem a presença de espírito de BATER NO CARRO DELA pra conseguir resgatar Sarah do sequestrador do DYAD. Já sabemos que Kira não é tão ligeira assim só por causa da mãe). Mas ele entende quando Sarah precisa deixá-lo e não força a barra quando ela não dá todos os detalhes. Ele poderia ter ido atrás dela para finalmente entender o que está rolando, mas ficou de babysitter de Kira porque sabe que Sarah tem seus motivos e que estes não interessam a ele.

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E aí temos o personagem do Paul (“Big Dick Paul” é o apelido que os fãs lhe deram, para se ter uma ideia da importância dele para a plot). Ele começa a série como uma ameaça – e a razão principal para isso é o fato de enganar Beth e posteriormente Sarah, mantendo a namorada no escuro sobre coisas que dizem respeito à vida dela e deixando que estranhos mexam no corpo dela durante a noite sem a autorização ou conhecimento da mesma. Ele passa a se tornar um aliado no momento em que abre o jogo para Sarah e para o público. Desde então, não perdemos muito tempo questionando onde a fidelidade dele está (o mesmo não pode-se dizer de personagens mulheres misteriosas como Delphine e Mrs. S).

É tão comum ver situações em que personagens homens mentem, invadem a privacidade de uma mulher ou tomam decisões no lugar dela por razões nobres como “pelo bem dela” ou “para mantê-la segura”, quando na verdade, em todos esses momentos, eles estão tirando a autonomia das personagens que dizem querer bem. É revigorante ver que Orphan Black – uma série sobre mulheres retomando autonomia de si mesmas – nos traz exatamente o contrário: a prova de que a melhor forma de ajudar alguém é deixá-la cuidar de si mesma.

[Crédito das Imagens: Divulgação/BBC America]