One Mississippi é uma história familiar e surpreendente sobre o luto | Spoilers

One Mississippi é uma história familiar e surpreendente sobre o luto

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Falar sobre família na cultura pop é uma tarefa ao mesmo tempo fácil e difícil. Afinal, todo mundo tem uma – mas nem todo mundo assistiria a uma série sobre a sua. É preciso ser capaz de mostrar particularidades da família sendo retratada, ao mesmo tempo em que se evoca características comuns a relações entre pais, filhos, irmão, netos ou primos.

Por essas e outras, a morte de um ente querido – uma situação que reúne e une pessoas distintas em volta de algo em comum – é um campo tão fértil para histórias. Atravessar o luto é uma experiência universal, ainda que cada um o faça da sua maneira. Trazer um protagonista de volta para uma cidade que ele deixou há muito tempo oferece um contraste ainda mais interessante – uma familiaridade e uma desconexão simultânea que só a proximidade com a família ou com a cidade natal pode trazer.

One Mississippi, série do canal de streaming Amazon que lançou seus primeiros seis episódios de uma vez só, sabe disso – mas se recusa a ser só sobre isso. Criada pela comediante Tig Notaro junto com Diablo Cody, roteirista do filme Juno e criadora de The United States of Tara, com produção de Louie C.K., a série conta a história semi-biográfica de Tig, que em um ano descobriu ter câncer e uma rara doença intestinal, e perdeu a mãe em um acidente. One Mississippi começa quando as duas primeiras coisas já fazem parte da vida de Tig, e logo após a terceira interromper seu já tumultuado cotidiano e exigir que ela deixe Los Angeles e volte para uma cidade pequena do estado que dá nome à série.

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One Mississippi evoca diversos filmes com roteiros parecidos: um filho desgarrado precisa voltar para a cidade natal para enterrar o pai ou a mãe ao mesmo tempo em que reencontra o resto da família e aprende algo sobre si mesmo. Esses roteiros costumam trazer uma jornada de aprendizado para seus protagonistas, uma que dá algum tipo de resolução mas reforça que a vida continua. Eles dificilmente terminam com explicações sobre o destino de cada personagem porque sua intenção é mostrar como um período específico da vida daquelas pessoas foi afetado por uma situação triste – cabe a nós imaginarmos o que vem pela frente.

E em tempos em que questionamos se a TV precisa do cinema, vale dizer que ao longo de suas cerca de três horas, One Mississippi funciona como um excelente filme desse gênero. As particularidades reais de Tig (apresentadas também em seus sets de standup e no ótimo documentário Tig, que está na Netflix) e sua família fictícia são esquisitas e mundanas na medida certa, e a série é brutal e realista em um segundo e leve e divertida na cena seguinte (um momento que se passa na cabeça de Tig no último episódio consegue combinar os dois com maestria). A protagonista é otimamente acompanhada de personagens que ao mesmo tempo são excêntricos e amáveis, como o irmão Remy, aparentemente sem grandes mistérios, mas que se revela lentamente ao longo dos episódios, ou o padrasto Bill, que vemos atravessar todas as fases do luto ao mesmo tempo em que ele renegocia o que entende por sua família (ambos com atuações excepcionais de Noah Harpster e John Rothman, respectivamente).

Na série, Tig substitui sua comédia autobiográfica pelo trabalho de DJ de rádio e contadora de histórias. Casey Wilson, a Penny de Happy Endings, faz o papel de sua namorada avoada em LA, enquanto a própria esposa de Tig na vida real (Stephanie Allynne), interpreta uma ajudante da rádio com a qual Tig se relaciona mas que a todo momento brinca com as expectativas do espectador acostumado a ver personagens homens héteros magicamente consertados por personagens mulheres superficiais. Tig está acostumada a minar suas histórias pessoais como parte do trabalho, e não tem medo de remoer lembranças dolorosas do passado distante ou próximo. Na série, vemos a Tig fictícia aprender como todas essas peças constroem a pessoa que ela se tornou – e está se tornando – ao mesmo tempo em que percebemos esse mesmo trabalho sendo feito pela Tig real ao criar One Mississippi.

Fazendo um bom uso das possibilidades narrativas permitidas pelo lançamento de todos os episódios de uma vez,One Mississippi entrega uma história que caberia em duas horas mas só se torna mais rica por ser contada com formato episódico. Assim como os filmes que vieram antes dela, ela termina sem dar todas as respostas. Mas seu grande triunfo é nos convidar a continuarmos acompanhando aqueles personagens – que agora nos são mais próximos, como uma família televisiva – na sua busca por elas em uma segunda temporada.   

[Crédito das imagens: Divulgação/Amazon]