One Day at a Time mostra por que sitcoms multicâmera ainda têm espaço na TV | Spoilers

One Day at a Time mostra por que sitcoms multicâmera ainda têm espaço na TV

Pense no formato: um apartamento de onde os personagens parecem nunca sair, onde eles entram por uma porta no canto – muitas vezes sendo recebidos com aplausos de um público invisível – e com poucas mudanças de enquadramento. As piadas são seguidas de risadas ao fundo, momentos emocionantes merecem um “uóón” e surpresas suscitam gritos.

É muito provável que a primeira série que você assistiu foi uma sitcom multicâmera. Talvez uma série de família, com uma “moral da história” ao fim do episódio, ou uma série sobre uma adolescente muito sabida, ou talvez tenha sido assim que você decidiu se era #TeamSeinfield ou #TeamFriends. Mas ninguém cresceu assistindo The Wire.

O termo sitcom vem de “situation comedy”, que indica que o humor sai de encontrar os mesmos personagens, geralmente nos mesmos lugares, em situações engraçadas. Multicâmera implica que a gravação acontece em um cenário similar a um teatro, com mais de uma câmera fixa. Seu oposto, a comédia single camera, tem uma câmera que acompanha os personagens, como um filme normal, e não têm as infames claques de risada.

As séries que ainda apostam no multicam hoje em dia conseguem audiência – como The Big Bang Theory – mas dificilmente recebem o mesmo respeito e elogios da crítica quanto outras, sejam elas sitcoms de fato, como as excelentes séries de família Black-ish e Fresh Off The Boat, ou comédias mais introspectivas e interessadas em misturar gêneros e experimentar, de Louie a Atlanta. Mas a verdade é que, assim como fumar ou considerar fanta uva algo potável, para muitos as sitcoms multicâmeras deixaram de ser ~cool~ e ficaram no passado como uma fase que nos marcou, mas não precisa voltar.

O último ano, no entanto (e nada indica que isso vá parar), foi marcado justamente por voltas que apelaram para nossos gostos antigos. E entre o mosaico de filmes da sessão da tarde que foi Stranger Things e as voltas da casa de Full(er) House e da Stars Hollow de Gilmore Girls, a Netflix é um dos canais que mais soube capitalizar em cima dessa tendência.

Não é estranho então que a mais nova adição a essa lista seja o remake da sitcom de 1975 One Day at a Time, produzida por Norman Lear, grande nome da comédia de TV que ficou mais famoso por All in the Family (que no Brasil passou nos anos 80 como Tudo em Família). Mas talvez seja estranho descobrir que os produtores da série atual (entre eles o próprio Lear) não tiveram a menor dúvida em adotar o mesmo formato da série original, a clássica comédia multicâmera. E conseguiram, com isso, não só fazer uma série que é boa apesar do formato antiquado – mas sim produzir uma que é ótima por causa dele.  

One Day at a Time conta a história de Penelope Alvarez (a excelente Justina Machado, de Queen of the South e Six Feet Under), uma mãe solteira, enfermeira e veterana do exército, que cria dois filhos, a adolescente chata-que-você-entende Elena (Isabella Gomez) e o pré-adolescente adorável sem deixar de ser extremamente realista Alex (Marcel Ruiz), após se separar do marido. No pequeno apartamento de Los Angeles, ela passa a morar com a mãe, Lydia (Rita Moreno, uma das 12 pessoas no mundo detentoras de um Emmy, um Grammy, um Oscar e um Tony), que emigrou para os EUA quando era jovem e até hoje se intitula a melhor dançarina de Cuba. No mesmo prédio, mora Schneider (Todd Grinnell), um solteirão liberal rico que também é o proprietário do apartamento deles e encontra uma família para chamar de sua no lar das Alvarez.

A série consegue entregar todos os elementos que fazem shows atuais serem elogiados e considerados não-tradicionais. Assim como muitas comédias single camera de hoje, fala de temas sérios, aqui relacionados à imigração, à crescente comunidade latina nos EUA, a sexualidade, machismo, religião e doenças mentais. Como as séries experimentais que ganharam casa nos canais a cabo como FX e HBO, One Day at a Time consegue pular de cenas engraçadas para momentos emocionantes e tristes com uma facilidade incrível, fazer rir e chorar quase no mesmo minuto. Tal como qualquer série que pagou uma bolada para levar um grande ator do cinema para a TV, ela traz atuações excelentes capazes de te destruir e levantar ao mesmo tempo (será uma injustiça tamanha se Justina Machado não entrar no radar das premiações, e Rita Moreno é uma EGOT, pelo amor de deus). E mais importante que tudo isso: faz rir. Muito. Não só por causa das risadas ao fundo, mas porque conseguimos entrar naquele mundo com enorme facilidade e rir com os personagens.  

One Day at a Time mostra uma família e personagens que são específicos em sua origem e história, mas que também têm um apelo universal que fala ainda mais intimamente com o Brasil (e por isso é incompreensível a Netflix não ter se dado o menor trabalho de divulgar a série aqui). A combinação de valorização da família, a importância do papel da mãe e a influência de valores católicos são todos elementos que são comuns à cultura latina e aproximam a família Alvarez das experiências brasileiras.

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O efeito principal das sitcoms multicâmera é colocar o espectador dentro da sala em que a ação acontece. As câmeras se posicionam como se você estivesse sentado em um sofá que não aparece em cena, e a repetição de ângulos e cenários tem como função transformar aquela sala em um ambiente familiar. Além de ser uma experiência nostálgica para quem cresceu vendo séries assim, o formato em si é uma janela e um espelho para as experiências das diferentes gerações retratadas na série.

Quando passei um fim de semana maratonando One Day at a Time, senti que estava de volta à minha própria adolescência, discutindo com minha mãe sobre o que é machismo, ouvindo minha avó fazer elogios ao Papa João Paulo II, recebendo presentes não mais compatíveis com meus gostos do meu pai que morava em outra cidade. Foram momentos que não tiveram risadinhas ao fundo – mas que, muito possivelmente, aconteceram em uma sala em que a TV estava ligada em uma comédia bem parecida.

[Crédito das imagens: CBS/Netflix/Divulgação]