Onde Serial errou na sua segunda temporada | Spoilers

Onde Serial errou na sua segunda temporada

Se você não conhece Serial, o segundo podcast mais comentado do ano passado (depois, é claro, do Spoilers Talk Show), busque conhecimento. Todos os sites de entretenimento e cultura pop começaram a dar um grande destaque para a série, e mesmo quem nunca achou que fosse conseguir acompanhar um podcast de áudio com episódios de 40 minutos a 1 hora acabou se vendo viciado na investigação sobre o assassinato da adolescente Hae Lee nos anos 90. O impacto foi enorme, e até mesmo o Saturday Night Live fez uma paródia muito boa (e nos EUA, você sabe que chegou lá quando é citado no SNL). Diz-se até que, direta ou indiretamente, influenciou no lançamento de duas séries “true-crime” que você já deve ter ouvido falar: The Jinx, da HBO, e Making a Murderer, do Netflix.

Por conta de tudo isso, a expectativa pela segunda temporada de Serial foi enorme. Depois de meses sem notícias, Sarah Koenig anunciou que a segunda temporada seguiria um outro caso, dessa vez não um assassinato, mas sim uma investigação sobre a verdade do que ocorreu com um soldado desertor americano no Paquistão. Não pareceu um plot muito empolgante, mas confiamos nas habilidades narrativas de Sarah, que já fez um episódio de uma hora falando sobre antenas e sinais telefônicos serem cheios de suspense. E certo dia, como se fosse um álbum da Beyoncé, a segunda temporada estreou…. e foi uma chatice. Vamos tentar entender porque.

  1. Falta um peso dramático em toda essa história

Adnan Syed, suspeito da 1a temporada

A primeira temporada tinha vários elementos que garantem uma boa narrativa: romance entre dois adolescentes de mundos diferentes (ele muçulmano, ela coreana), a possibilidade de ter sido um crime passional, um melhor amigo que talvez não seja tão amigo assim, muita intriga, uma advogada incompetente que já morreu e não pode ser entrevistada, the Nisha call. A cada episódio éramos apresentados a novos elementos e personagens, e mudávamos nossa opinião sobre quem poderia ter matado Hae Lee, como se estivéssemos acompanhando uma ficção em que o assassino seria revelado no final (mesmo sabendo que talvez isso não acontecesse).

Na segunda temporada, somos apresentados ao caso de Bowe Bergdahl, um soldado americano, aparentemente o típico all-american-boy, que desertou seu posto no Paquistão, foi capturado e preso por um grupo do Talibã. Claro, isso por si só é uma história interessante, mas a investigação não levantou, até agora, elementos dramáticos e narrativos. Não temos bons personagens coadjuvantes, não temos suspeitos  – já que não há exatamente um crime. A busca é por entender “por que Bergdahl saiu do seu posto?” e se ele deve ser condenado como um desertor, e não celebrado como vitorioso por ter sobrevivido cinco anos em cativeiro.

A investigação de Koenig se foca muito mais em aspectos burocráticos do funcionamento do exército e da inteligência americana do que nos fatores humanos que tornaram a primeira temporada tão envolvente.

  1. O exército americano não é um tema tão interessante para nós, brasileiros

Bowe Bergdahl

Desde 11 de setembro de 2001, a ficção americana vem contando história de soldados e de guerras, e vem retratando-os como salvadores do mundo. É uma realidade a que não nos conectamos tanto no Brasil. Por mais que aqui se consuma muito material americano, e estejamos acostumados a ver esse tipo de história, não é algo que gere uma forte opinião entre os brasileiros do tipo “ah, um soldado desertor tem que ser condenado!”. Nós nos intrigamos pelas pessoas e não pela instituição, ao contrário dos americanos. Tanto que o caso de Bergdahl repercutiu muito enquanto acontecia nos EUA, mas mal chegou até aqui.

  1. Sarah Koenig está distante

Sarah Koenig

Na primeira temporada, alguns dos momentos mais interessantes se davam nas conversar entre Sarah e Adnan Syed, o suposto assassino de Hae Lee. A frustração dele ao ver ela tentar resolver um caso que pra ele já estava perdido; as dúvidas que ela tinha, e comunicava ao público, sobre a inocência ou não de Adnan. Tudo isso tornava Sarah não só uma jornalista/investigadora, mas também uma personagem da história toda. Até mesmo ver a produtora de Serial, Dana Chivvis, se empolgando com uma promoção de camarões em um restaurante em Baltimore no meio da gravação de uma investigação servia como alívio cômico e nos transportava para o meio da apuração com elas.

Até agora, na segunda temporada, Sarah não falou direto com Bergdahl. Tudo que ouvimos dele vem através de diversas entrevistas gravadas pelo produtor e roteirista Mark Boal, interessado em fazer um filme baseado nessa história, que cedeu o material para que Sarah usasse em Serial. A falta de contato entre ela e o principal personagem da história cria uma situação em que ela aparece apenas reportando o que aconteceu, sem muito vínculo emocional.

  1. Mudanças no formato

Primeiro eles mudam a música de abertura. Aquela músiquinha que emocionava logo pela manhã quando você colocava os seus fones de ouvido e entrava no ônibus lotado não está mais lá – aquela música anunciava que mais reviravoltas surgiriam, e suas desconfianças aumentariam sobre todos os personagens. A nova música é apenas uma versão mais apática da primeira.

E se não bastasse isso, por conta de desenvolvimentos recentes no caso Bergdahl, Sarah anunciou que os episódios novos sairão somente a cada duas semanas, o que é um prato cheio para quem estiver com preguiça acabar se esquecendo e não voltar mais. Pelo menos ainda temos a vinheta do MailChimp!

A primeira e a segunda temporadas de Serial podem ser ouvidas nesse link.