O verdadeiro hacker por trás de Mr. Robot é você | Spoilers

Se você ouviu falar de Mr. Robot, série do USA Network sobre um jovem hacker que planeja derrubar uma corporação gigante e mudar o mundo, talvez ache que já viu essa história antes. Glamurizados por Hollywood e difamados pela imprensa internacional, hackers viraram sinônimos de figuras perigosas, que usam o computador para invadir grandes sistemas e causam confusão por onde passam.

No entanto, a verdade que Mr. Robot quer passar sobre sua interpretação do que um hacker é (ou o que um hacker faz) é um tanto mais complexa – e está muito mais próxima de nós – do que o senso comum quer nos fazer pensar.

Constantemente, o protagonista da série, Elliot, utiliza recursos simples para fazer pequenos *hacks* na vida das pessoas ao seu redor. Quando não está planejando a destruição de um grande conglomerado capitalista, Elliot está espionando contas de e-mail, perfis de Facebook e fotos no Instagram, muitas vezes, sem precisar de qualquer artíficio ilegal para dar uma olhada por trás da cortina de seus colegas.

No espírito meio torto, meio intrigante de Mr. Robot, arrisquei uma experiência nos últimos dias para trazer pra mim os mesmos recursos que Elliot aplica no seu dia a dia.

Foi durante um passeio de elevador que vi um dos meus vizinhos fechando rapidamente um aplicativo de pegação (esses eu não preciso explicar, preciso?). Tudo o que eu sabia do meu vizinho até então era que ele era meu vizinho. Nome, sobrenome, profissão ou até mesmo orientação sexual eram um mistério até que o app surgiu no meu campo de visão.

Não muito diferente do Elliot, cheguei em casa, instalei o aplicativo. Como eu não teria nenhum uso para ele a não ser aquela “experiência” (as aspas estão aqui pra atenuar as minhas circunstâncias), precisava criar uma falsa persona, um fake, que fosse suficientemente atraente para chamar a atenção. Escolhida a foto de alguém que teria apelo, optei por um primeiro nome simples e uma frase de perfil que fosse convidativa sem ser apelativa demais.

Uma vez ligado o alerta de proximidade, era só esperar. Não passaram 10 minutos desde que eu recebi a primeira mensagem. Em uma hora, lá estava meu vizinho (cujo nome agora eu sabia), usando justamente a proximidade como argumento para puxar conversa. Em poucos minutos, eu sabia seu nome, profissão, motivo pelo qual havia se mudado para o prédio, local onde morava antes, status de relacionamento (ele namora) e rotina do resto da semana, que envolvia o funeral de um colega de trabalho não muito próximo no dia seguinte. Sobre mim, o vizinho ainda não sabia nada além de factóides inventados na hora. 

De saída, o experimento foi um sucesso que me permitiu concluir que meu vizinho é uma pessoa normal e previsível: viu a foto, achou bonito, estava perto e mandou mensagem (mas espero que ele não chegue nunca nesse texto…).

No dia seguinte, após ter deletado o app e o perfil, pegamos elevador juntos sem trocar uma palavra. Ele sem desconfiar que a pessoa ao lado sabia até o motivo pelo qual ele estava usando preto, e eu me sentindo o Elliot de Mr. Robot, sem a paranóia, o vício em morfina e as habilidades em programação. Mas um hacker, mesmo assim.

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Foi durante um papo com um amigo que é, de fato, um cientista da computação, que eu entendi qual era a tese sobre “hacking” que a série quer passar desde seu piloto. “Ele espiona a psicóloga dele pelo instagram e isso é hacking? Ele só abriu o perfil dela”, mencionou esse meu amigo consternado.

Sim, o Elliot nem sempre precisa invadir contas privadas (embora faça isso bastante) para hackear as pessoas ao redor. A própria definição da palavra “hacker” não prevê uma pessoa que invade privacidade via truques de informática. Numa matéria publicada pelo site Motherboard, o jornalista canadense J.M. Porup, especializado no assunto, refaz o caminho etimológico da expressão que virou sinônimo de criminoso. Sua maior constatação é esclarecer para o leitor que um hacker era, essencialmente, uma pessoa curiosa que queria saber como algo funciona e que, de vez em quando, quer que esse algo funcione ao seu favor, construindo em cima dela uma coisa nova, uma coisa sua.

Quando Elliot narra uma cena e vemos sua maior antagonista – a empresa E. Corp – ser transformada em Evil Corp não apenas em sua fala, mas em todas as falas, sinais e placas, sabemos que isso foi um *hack*. Elliot sabe como a empresa funciona, sabe do que ela se trata e quer que ela deixe de se esconder por trás da letra E, assumindo sua face Evil.

Sua curiosidade pelas pessoas ao redor o faz hackeá-los também. Para isso, ele não apenas usa a internet como também seus sentidos, suas interpretações e suas abstrações sobre tudo aquilo que elas deixam visível. Um café comprado numa Starbucks, um like em Transformers 2, o uso de uma expressão linguística diferente são algumas das pistas que Elliot usa para decifrar pessoas ao seu redor. Para bem e para mal.

Nós, não muito diferente dele, fazemos a mesma coisa, mesmo sem a ajuda de perfis falsos em apps.

Olhar uma timeline de twitter com mais atenção, saber quais tweets foram favoritados, quais perfis foram seguidos, com quem interações são feitas, são pequenos *hacks* que fazemos para saber como nossos colegas, amigos, parentes e respectivos funcionam.

Hacking, em Mr. Robot, não é apenas um recurso instrumental usado para derrubar um inimigo, mas uma visão de mundo que, fundamentada na nossa própria realidade cotidiana, pode ser aplicada para qualquer pessoa. Para a série, além de desvendar os mistérios sobre as identidades e motivações daqueles personagens, o grande twist é fazer seu espectador perceber que aquele universo ali retratado é exatamente como o nosso e que todos nós somos, em algum momento, exatamente como Elliot. Usamos “hacking” ao nosso favor, seja por algum interesse oculto ou apenas por curiosidade humana. Somos todos, no fundo, nossos próprios Mr. Robot.

[Crédito das imagens: Divulgação / USA Network]