O som de Hannibal | Spoilers

O som de Hannibal

O post a seguir contém detalhes sobre a trama da primeira temporada de "Hannibal".

Em programas para televisão, a não ser programas infantis, ou mini-séries, é super difícil ver uma série que tenha um trabalho de som como uma de suas características relevantes. Ter uma foto que ajuda a contar a história, beleza… uma arte que ajuda o espectador a se situar no tempo/espaço, acontece o tempo todo… mas o som é quase sempre esquecido. Mas não em Hannibal, não não não!

Reprodução / Tumblr

Nesta série mágica, o som é muito usado, e de uma forma muito interessante: o som nos coloca na situação psicológica/mental em que o coitado do Will, o protagonista que não dá nome a série, se encontra. E esse cuidado sonoro cresceu gradualmente durante a temporada até chegar em seu ápice, no episódio onze. Aos poucos o som que ambientava a série foi ficando mais denso, a música mais presente, a edição de diálogos mais bizarra e os efeitos mais absurdos. A mudança foi acompanhada também pela fotografia e pela arte, mas como editora de som frustrada que sou, vou puxar asinha pro lado do som!

Reprodução / NBC

(você nesse momento deve estar pensando por que você deveria continuar lendo esse artigo, bom, simplesmente porque seria rude parar de ler aqui, e nós sabemos o que acontece com pessoas que são rudes!)

Até o sétimo episódio, o sound design da série era bem simples: edição de diálogos bacana, onde dava pra entender tudo; uma criação de ambiências que não chamava muito a atenção mas estava ali; uma música interessante, uma mistura de música concreta com música clássica atonal, mas só aparecendo para pontuar momentos de tensão. Mas era nas horas em que o Will se colocava como criminoso e recriava as cenas dos crimes que começava a diversão. Toda a ambiência desaparecia, e tudo o que a gente conseguia ouvir eram os sons incidentes do Will no cenário (entendam como som incidente tudo aquilo que o Will afetava/mexia/tocava/matava durante a cena), além da música bem presente para dar mais força à cena!

Quando Will Graham começou a perder o controle sobre si mesmo, começou a ficar realmente perturbado, e quando essa confusão teve início, foi dada a largada para a parte divertida pros editores de som.

Reprodução / NBC

Mas o que é que teve de tão interessante na mudança de rumo da edição de som? Foi aí que a produção assumiu o risco de colocar o Will como referência absoluta para o espectador.

Isso fica muito claro no tal episódio onze, no momento em que Will vê tudo derreter enquanto Morpheus Jack Crawford reúne a sua força-tarefa contra o perigoso doutor Gideon. O especialista forense começa a ter alucinações e aos poucos os sons ao seu redor vão ficando abafados. O barulho da água volta a aparecer, assim como o som/ruído (ou música tema) do Wendigo – aquela criatura que ele vê em seus delírios – além de surgirem outras vozes, principalmente do Jack, criando uma grande confusão.  E o efeito pode ser percebido em vários momentos seguintes: nas duas cenas em que estão todos no necrotério; na cena em que o Will e a Alana vão visitar o doutor Chilton; na análise da cena do crime do doutor “que morreu com a língua pra fora”; na cena em que eles analisam a matança dentro da ambulância; e na cena em que Gideon e o Will fazem uma visitinha pro Hannibal…

Tudo o que a gente ouve, quando a trama gira em torno do Will, é o que ele está ouvindo, é a confusão que está acontecendo dentro da sua cabeça e isso é do caralho, porque deixa claro algo muito importante para os espectadores da série que ainda não perceberam: a série se chama Hannibal, mas quem manda nessa porra é o Will!!!!

Reprodução / NBC

[Crédito das Imagens: Divulgação/NBC]