O que uma morte na TV pode significar | Spoilers
Contém spoilers do episódio 3x07 de The 100 e o 7x16 de The Vampire Diaries.

Uma breve atualização a esse texto, escrita em 10/04/16, depois de ter morrido mais um tanto de gente: Desde que esse texto foi publicado, assistimos a outras sete mortes de personagens femininas – entre elas, personagens lésbicas/bis e/ou negras – em cinco séries diferentes, bem como uma morte de um personagem masculino negro em uma das séries citadas no post. Se o Oscar tivesse um In Memoriam para personagens de TV, ele teria a duração de um episódio de Sherlock e um elenco mais diverso que uma série da Shonda Rhimes. Nas palavras da crítica Maureen Ryan, a geladeira da televisão está ficando lotada. E está difícil não achar que a chance de ir parar nela é maior para alguns personagens do que para outros.

I. Quem vive?

Pense nos filmes de terror que você passou a vida inteira assistindo. Um assassino está atrás de um grupo de amigos. Você sabe, pelas regras descritas na parte de trás da fita VHS, que vários vão morrer até o fim do filme. Quem sobrevive?

Você deve ter suas suspeitas. Naqueles filmes de terror, o negro morre primeiro. A “vadia” do colégio é assassinada nas cenas seguintes, enquanto aquela que sobrevive no fim é uma “boa garota”. Dentro da história, as mortes podem ser aleatórias ou seguir uma lógica interna que faz sentido pelas regras do filme. Mas o roteirista seguiu uma ordem na hora de decidir quem morre primeiro. Mais importante, ele tomou uma série de decisões que definiram quem vive até o fim.

É o personagem que vai passar mais tempo em cena, que será responsável por avançar a narrativa. Aquele que vai assegurar que o filme que você está assistindo tem uma história a ser contada.

II. Quem morre?

Anos de cinema e televisão formam um conjunto de histórias, personagens e temas que se transformam em referências, arquétipos, tropes e clichês que sobrevivem ou não na cultura pop. Muitas séries e filmes reciclam essas mesmas tropes com uma capa diferente. Outras aproveitam as expectativas criadas por tantos anos de repetição justamente para desconstruí-las e surpreender. Como qualquer elemento de um roteiro, as mortes de personagens também estão sujeitas a essas regras.

Mas dizer adeus a um personagem da TV é, no geral, diferente de se despedir de um personagem de filme. Passamos mais tempo com ele, ao ponto de sua morte ter potencialmente um impacto muito maior do que no caso de um personagem que conhecemos por menos de uma hora. Muitas vezes, passamos anos acompanhando aquela pessoa e sendo testemunhas da sua evolução, o que torna o momento em que vemos sua jornada chegar ao fim ainda mais doloroso.

Por outro lado, salvo o caso de continuações e franquias, a vida real interfere na decisão de um personagem morrer ou não na TV com mais frequência do que no cinema. Contratos acabam, atores querem empregos novos e os roteiristas muitas vezes precisam se virar para incorporar uma ausência que não necessariamente fazia parte de seus planos. São fatos da vida, de que temos pleno conhecimento quando assistimos séries, mas que ainda assim não tornam determinadas mortes mais fáceis de assistir.

Uma morte chocante em uma série geralmente é um grande acontecimento para a trama e quem a assiste. Os fãs de Game of Thrones ainda estão discutindo se Jon Snow morreu ou não no fim da temporada passada, e muita gente que acompanha The Good Wife ainda sente saudades de Will toda vez que Alicia aparece em cena com Jason na temporada atual. Há algumas semanas, uma morte de uma personagem lésbica em The 100 disparou uma revolta não só contra a série mas contra toda uma trope – a chamada “Bury Your Gays”

O site Autostraddle contabilizou o número de personagens mulheres lésbicas e bissexuais na TV americana entre 1976 e 2016, chegando a conclusão de que das 193 séries com personagens lésbicas/bis (o que já é apenas 12% da amostra total), 68 delas incluíram as mortes dessas personagens. Morrer é o final de 31% das personagens lésbicas/bis, sendo que o segundo destino mais recorrente (28%) é nenhum – elas eram personagens coadjuvantes com participação limitada e foram consideradas “sem final”.  

A discussão sobre The 100 poderia ter se restringido a um grupo de fãs, não fosse o fato de cinco mortes de personagens lésbicas terem acontecido em outras séries poucas semanas depois, as mais recentes em The Vampire Diaries, também da CW Todas têm explicações individuais, seja para a trama da série ou por fatores externos, como a disponibilidade dos atores, e a proximidade com que ocorreram provavelmente é uma coincidência infeliz. Mas elas não deixam de levantar questões, e é exatamente isso que os fãs dessas séries estão fazendo. 

Em uma época em que a relação entre espectador e criador está cada vez mais próxima e complexa, o que antes virava apenas mais uma entrada na lista de tropes recorrentes da TV agora pode ter resultados mais significativos.

Parte da frustração dos fãs de The 100 veio do fato de os roteiristas terem abraçado a fama – reforçada pelos próprios fãs, que inflaram a audiência da série de um ano para outro em grande parte por conta disso – de ser uma série que se passa em um mundo onde a orientação sexual não é uma questão, tornando a Terra distópica de The 100 um espaço seguro ao menos nesse ponto. Isso esbarrou, no entanto, nas regras cruéis daquele mundo, onde qualquer personagem pode, de fato, morrer – um ano antes, a série matou outro personagem importante que tinha uma função similar para a protagonista, e que era um homem heterossexual.

A polêmica chegou ao ponto do showrunner da série, Jason Rothenberg, escrever uma carta aberta se desculpando por ter se aproveitado dessa justaposição: “Apesar das minhas razões [justificativas de que em The 100 qualquer um pode morrer], eu ainda escrevo e produzo televisão para o mundo real, onde tropes negativas e prejudiciais existem. E me desculpo por não ter reconhecido isso da maneira como deveria ter feito.” Julie Plec, showrunner de The Vampire Diaries, comentou a morte das personagens na sua série logo após a exibição do episódio, já prevendo a reação dos fãs e creditando-os por trazer o assunto à tona: “Obrigada a comunidade de fãs por começar esse diálogo, gerar conscientização e nos lembrar que, como roteiristas, temos uma voz que nos dá a liberdade de tentar tornar o mundo um lugar melhor.”

III. Quem conta sua história?

Quando Sleepy Hollow estreou há três anos, um dos grandes elogios à série foi seu elenco fixo em que praticamente metade dos personagens importantes eram negros. Como uma série de terror, o fato de que todas as mortes no primeiro episódio foram de personagens brancos – enquanto os negros continuaram movendo a história para frente – foi levantada por diversas pessoas como uma desconstrução da antiga trope dos filmes de terror em que o negro morre primeiro. Em uma entrevista com o BuzzFeed na época, a produtora Heather Kadin explicou como essa “fama” acabou acontecendo

“Não houve um esforço consciente [para matar pessoas brancas], mas houve um esforço consciente de ter um elenco diverso que representasse o mundo real. Muitas vezes, quando você está desenvolvendo uma série e acaba escolhendo atores que, em maioria, são caucasianos, você eventualmente chega na hora de selecionar um ator para fazer o vilão de um episódio – é quando o canal interfere e fala “seu elenco precisa de diversidade”. E é por isso que, de repente, a pessoa que não é branca acaba sempre morta. Como nós temos diversidade no elenco fixo, temos a liberdade de escolher qualquer ator para fazer os vilões e as vítimas, e por isso podemos matar quantos personagens brancos quisermos.”

Quando um personagem morre em uma série, sua história deixa de ser contada, enquanto outras – aquelas dos personagens que sobreviveram – seguem em evidência. Escolher determinados atores para fazer esses papéis é uma decisão consciente dos criadores e estúdios, e o debate cada vez mais intenso sobre a necessidade de mais diversidade na TV reforça a importância de observar exatamente quem recebe a oportunidade de sobreviver e quem só tem direito a papeis descartáveis.

Quando os fãs fazem perguntas sobre a necessidade de um personagem ter morrido, eles estão questionando por que sua história foi interrompida. Talvez porque aquela história que chegou ao fim fosse, por mérito dos roteiristas, envolvente e única. Talvez porque os fãs se enxergavam – talvez pela primeira vez – naquele personagem. 

E talvez porque após anos de tropes, clichês e escolhas narrativas repetidas, eles estivessem cansados de ver suas histórias chegarem sempre ao mesmo fim.

A reação mais interessante às reclamações dos fãs de The 100 não veio de Jason Rothenberg, mas de Javi Grillo-Marxuach, que escreveu o episódio em questão, e que será o showrunner do reboot de Xena – uma personagem cuja orientação sexual se manteve nas entrelinhas ao longo da série e cuja história terminou em morte. Javi passou dias respondendo fãs de The 100 e retuitando reações, deixando claro que ele estava interessado em aprender com os comentários. Ao responder uma pergunta sobre como a polêmica poderia influenciar seus roteiros de Xena, ele disse que a nova série vai explorar a relação amorosa entre Xena e Gabrielle, que na série original dos anos 90 nunca se concretizou. “[Xena] vai expressar minha visão de mundo – que está sendo informada pelo que está acontecendo agora”, disse.

Na maioria das séries, personagens morrerão – seja por necessidade da trama ou por fatores externos. Assim como os roteiristas têm o direito de tomar essas decisões, os espectadores podem aceitar ou rejeitá-las. Mas talvez reações tão explosivas como as dos fãs de The 100 sirvam para que mais roteiristas reflitam sobre o que significa ter o poder de determinar quem vive e quem morre – e dessa forma criem espaço para que novas histórias sejam contadas.

[Crédito das Imagens: Divulgação/CW]