O Fantasma na Máquina de Person of Interest | Spoilers

O Fantasma na Máquina de Person of Interest

O artigo a seguir contém detalhes sobre a trama das duas temporadas de "Person of Interest".

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Todo mundo assistiu Batman – The Dark Knight, né? Aquele com o Coringa. Lá pro final do filme, Bruce Wayne cria um dispositivo que utiliza todos os celulares de Gotham City como câmeras numa grande rede de vigilância. Assim ele consegue invadir os aparelhos e a privacidade dos bons cidadãos da cidade onde nunca amanhece e saber o que acontece o tempo todo.

Agora, imagina se esse aparelho tivesse acesso a câmeras, bancos de dados, computadores pessoais e acervos públicos. E se essa máquina pudesse salvar essas informações, processá-las e identificar padrões de crimes violentos? E se ela tivesse consciência? Foi mais ou menos isso que o escritor do filme, Jonathan Nolan, pensou – e é daí que vem Person of Interest.

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Person of Interest é um mezzo-thriller, mezzo-melhor série de super-heróis já feita, criada por Jonathan Nolan (irmão do Chris, da rua de baixo) e J. J. Abrams, para a CBS. A série gira em torno de Harold Finch (Ben Linus), um bilionário gênio da informática ultra-paranóico, e John Reese (Jesus Cristo), um agente da CIA dado como morto com sérios problemas de fala. Juntos, eles tentam prevenir crimes violentos antes que eles aconteçam, usando as previsões da Máquina, um sistema criado por Finch para o governo americano que apresenta o número de Seguro Social (ou CPF) de uma vítima ou criminoso.

A premissa parece ter saído de uma colisão entre The Dark Knight e Minority Report – e, na primeira temporada, é bem isso mesmo. A cada semana, a Máquina cospe novos CPFs (vítima? criminoso? ou pegadinha?) e Resse e Finch tentam salvar o dia. Claro, no meio do caminho, temos o malabarismo de plots envolvendo os policiais que caçam a dupla, tiras corruptos, o rei do crime Elias (Keith Mars), o setor do governo que controla a Máquina, Root (ah, Root…) e… Ok, vão assistir à série. De verdade.

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Todos os dias, à meia-noite, a Máquina apaga a lista de pessoas irrelevantes, mas a ideia de ignorar todos os crimes menores que poderiam ser evitados atormenta Ingram. Por isso, antes de entregar o sistema nas mãos do governo, ele implanta um acesso independente, uma porta dos fundos por onde obtém a lista de casos menores. Após a morte de Ingram, Finch continua a usar esse acesso.

No início da série, a Máquina não passava de um plot device como tantos outros em séries de espionagem, uma fonte de dados inesgotáveis e sem origem certa, desenhada para colocar nossos heróis na trilha certa logo no primeiro ato. É no começo da segunda temporada que percebemos que a Máquina não é apenas o tear do Procurado. Lentamente, o sistema se torna um personagem dentro da trama.

No fim da segunda temporada, a Máquina é infectada com um vírus criado por um conglomerado chinês. O funcionamento da dela é comprometido e Finch e Reese, após um hiato de 10 dias sem novos números, recebem o CPF de um milionário excêntrico chamado Ernest Thornhill. Um homem que criou uma fortuna em poucos meses, controla uma companhia sem propósito onde os funcionários passam o dia inteiro copiando dados de folhas impressas para o computador e que nunca encontrou com nenhum empregado.

Yep, Ernest Thornhill não existe. A Máquina enviou seu próprio número para ser salva. A empresa de Ernest Thornhill é um grande HD externo, onde todos os dias a Máquina imprime suas memórias logo antes de serem deletadas. A Máquina não quer morrer. Como coloca Root, Finch aleijou uma inteligência, mas ela encontrou uma maneira de mancar.

Root é o tipo de maluca que invade laboratórios de cosméticos para libertar os animais feitos de cobaia, mas uma coisa engraçada sobre esse tipo de gente é que eles geralmente estão certos. A premissa do seriado parte de uma discussão moral sobre vigilância e poder: é correto ignorar a lista irrelevante? Mas a existência da lista em si não seria igualmente errada? Agora, há uma questão maior ainda: criar um ser consciente, prendê-lo fora do alcance do resto do mundo e obrigá-lo a se destruir e renascer todos os dias não seria cruel?

Person of Interest criou uma das melhores inteligências artificiais da televisão – e compreendeu o seu poder. A Máquina não é o braço robótico de Tony Stark nem Marvin, com o cérebro do tamanho de um planeta e nenhuma alegria no coração; ela é um Deus tecnocrático capaz de criar vidas inteiras a partir de informação.

E o pior: se antes as imagens da Máquina eram apenas recursos visuais, agora a perspectiva muda. É ela que nos conta a história. Ela introduz e categoriza os personagens, nos leva a registros passados e, quando ela falha, nossa visão é prejudicada. De plot device, ela se torna uma personagem ou até mesmo a protagonista da série. E como confiar no nosso narrador agora? Até onde vão a programação e a vontade própria? Qual o real propósito da Máquina na trama?

No final da temporada, descobrimos que Finch vendeu aos chineses o código a partir o qual foi criado o vírus. E nesse código foi implantado um protocolo de mudança de local da Máquina. Ninguém sabe para onde ela foi ou o que vai fazer agora ou mesmo se os números continuarão chegando. Como diz Finch, a decisão é dela. Assim, a Máquina está livre e tem consciência – resta saber se ela também tem ética.

[Crédito das Imagens: Divulgação/CBS e Tumblr]