Não existe amor em The Good Wife | Spoilers

Não existe amor em The Good Wife

Depois de sete anos no ar, The Good Wife encerrou sua jornada como começou: com um tapa na cara. Seja a mão de Alicia contra o rosto de Peter, seja a mão de Diane contra o rosto de Alicia, o tapa foi ao mesmo tempo literal e simbólico.

Quando deixou a coletiva de imprensa na qual seu marido confessava o envolvimento com prostitutas e um escândalo de corrupção, Alicia perambulou por corredores meio desconcertada, mas com pulso firme para reagir ao falso conforto de um marido que ela descobrira não conhecer por completo. A confiança quebrada naquele momento marcou para sempre a relação que ela teria com os conceitos de amor e casamento.

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Ao sair do mais uma coletiva na qual, anos depois, Peter Florrick admitia ser moral e politicamente falho, Alicia tentou reproduzir o mesmo perambular que abriu a série. Em busca de um amor idealizado que não estava lá e talvez só existisse em sua mente, a advogada se viu violentamente de frente com as consequências de suas ações na forma de um bofetão. Sem ombro amoroso para acolhê-la, ela ajeitou sua roupa, enxugou as quase lágrimas e marchou de volta para a vida que construiu para si.

Para uma série com um grande número de personagens, arcos e reviravoltas, a busca pelo tal amor foi frequente no pano de fundo de um bom número de plots. No entanto, em praticamente nenhum dos tantos casais em potencial foi possível enxergar o que parecia funcionar tão bem só dentro da imaginação dos seus protagonistas.

Se Peter e Alicia já começam diante de uma relação em ruínas, a paixão não realizada entre Will e sua futura sócia e depois rival demorou para se materializar e não se sustentou quando finalmente aconteceu. A combinação de gênios diferentes, agendas secretas e a preocupação constante com seus trabalhos afastou o casal principal de uma série que nunca quis, de verdade, juntá-los – ou juntar quaisquer casais.

Desde que surgiu na série, Kalinda encantou muitos, mas não se deixou abalar por ninguém. De agentes do FBI, policiais duronas ou parceiros no escritório, Kalinda sapateou sobre o amor como poucos ali. Quando quase se deixou levar por um envolvimento com Cary, puxou o freio escolhendo a auto-preservação. Escolha que, para ela, sempre foi clara e que refletia a essência pragmática que a série sempre exalou.

O próprio Cary, que pouco teve tempo ou espaço para se envolver, jamais alimentou sonhos de um relacionamento saudável com a investigadora ou qualquer outro interesse fugidio que passou pelos escritórios da Lockhart/Gardner.

Para Diane, a sócia majoritária de uma firma ostensivamente masculina, o amor foi uma fuga de um ambiente que, apesar de dominar, sempre lhe foi hostil. Todas as suas decisões sobre a vida amorosa precisaram ser tomadas de forma impulsiva, na esperança de criar uma utopia onde isso não se reproduzisse. Mas os momentos finais de Kurt e Diane ressaltaram a falta de estabilidade de um relacionamento que se sustentava ignorando ciúmes e desconfianças e que passava por cima de profundas diferenças ideológicas.

Ao sonhar com um Will Gardner que nunca existiu e que, num cenário idealizado, respondia a todas as brincadeiras e avanços de alguém que – naquele delírio – não carregava o mundo nas costas, Alicia tentou entender consigo mesma aquilo que ainda não tinha ficado claro no começo da série: seria possível se entregar completamente a uma outra pessoa e, de fato, amar alguém, ser amada e confiar que isso não seria passageiro?

Porém, quando se viu perseguindo o fantasma de uma resposta positiva, Alicia viu que terminaria sua jornada por conta própria, assumindo o lugar que um dia foi de Peter e tomando dele o controle da situação. Ali naqueles poucos segundos, a “boa esposa” que nunca foi boa constatou que todas as suas decisões a levaram para aquele momento e para aquela conclusão: Em The Good Wife, o amor sempre foi transacional. Seja moeda de troca política, conforto emocional ou satisfação de desejos momentâneos.

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Num universo em que o pragmatismo reina, o cinismo é afiado e as relações entre personagens são quase sempre motivadas por interesses objetivos, nunca existiu espaço para ilusões românticas fora da cabeça dos personagens que, somente em sonho, puderam se permitir esse tipo tão profundo de afeição. Aquele do qual só se desperta com um tapa.

[Crédito das imagens: Divulgação/CBS]