Como Marcella implica o espectador na dúvida de quem matou | Spoilers

Como Marcella implica o espectador na dúvida de quem matou

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Séries de crime podem ter diferentes pontos de vista. Nos maiores clássicos do gênero, entramos no mistério com os olhos de um grande detetive ou policial – é quando sabemos que o final da história provavelmente vai apresentar uma solução. Há outras histórias que se interessam profundamente pelos criminosos – ou suspeitos – que são inseridos em uma teia de investigação complexa, falha e em um sistema confuso e muitas vezes corrupto, sem nos oferecer a certeza de que a justiça será feita.

Marcella, série produzida pelo canal britânico ITV recém-distribuída no Brasil pela Netflix, se destaca por tentar fazer os dois e, por consequência, implicar o espectador intimamente na dúvida de quem é um assassino ou não, indo além de deixar quem assiste desconfortável por simpatizar com um potencial criminoso ou fazê-lo investigar junto com o detetive protagonista. Interpretada por Anna Friel (de Pushing Daisies, aqui em um papel bem menos simpático e ensolarado), Marcella Backland é uma detetive que largou a carreira para cuidar dos filhos e decide voltar ao trabalho quando a investigação de uma série de assassinatos leva a polícia a suspeitar de um serial killer que Marcella caçou mas nunca prendeu.

Assim como a minha explicação, a sinopse de Marcella disponibilizada pela Netflix apresenta uma história bastante direta e simples: “Após o fim de seu casamento, uma ex-detetive decide retornar a trabalho e precisa lidar com sentimentos de ciúme e raiva ao investigar um assassino em série”. Em ambos os casos, são descrições que qualquer pessoa que tenha assistido à série vai reconhecer como corretas – mas que dificilmente são a razão de Marcella ser tão envolvente.

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Embora aspectos como o casamento e o ciúme movam – muitas vezes literal e fisicamente – a personagem até viradas na trama, a história de Marcella se revela de verdade quando entramos na mente da protagonista e somos confrontados com a possibilidade assustadora de ela ser movida por muito mais do que essas características. Mais interessante ainda é o fato de esse acesso ao ponto de vista da personagem acabar sendo extremamente limitador, pois logo descobrimos que Marcella não é apenas uma narradora pouco confiável para quem a acompanha, mas também para si mesma.

Com produção caprichada e boas atuações, Marcella lembra outras séries britânicas como The Fall e Luther, e ainda flerta com o fenômeno do “thriller doméstico” impulsionado por livros (e posteriormente filmes) como “Garota Exemplar” e “A Garota no Trem”. A série é uma boa aposta para fazer parte do cardápio de “originais” Netflix porque ela se beneficia muito de ser maratonada – já no piloto ela instiga a curiosidade de decifrar o emaranhado de tramas no qual Marcella se envolve e que a rodeiam.

Algumas dessas subtramas podem servir mais para confundir ou atrapalhar o espectador, sem tanto retorno no fim, já que as não incluem o ponto de vista da personagem principal nem sempre têm o mesmo impacto das que a envolvem diretamente. Mas descobrir Marcella junto com Marcella é uma experiência que vale o investimento de algumas horas. Em especial, para descobrir que, quando se olha profundamente dentro do personagem certo, o mistério não perde a força mesmo depois de o assassino ser revelado.

[Crédito das imagens: Divulgação/ITV/Netflix]