Como os late night shows estão tentando se reinventar na era da internet | Spoilers

Não é novidade que a TV caminha para deixar de existir apenas no aparelho de TV. Se por muito tempo a medida do sucesso de um programa foi competir com os outros em exibição na mesma hora, hoje mesmo a tradicional empresa de pesquisa de audiência Nielsen já faz outros tipos de medição além do ibope ao vivo, como quantas vezes o episódio foi visto posteriormente à transmissão e menções em redes sociais. Como disse recentemente o diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos, lançar uma série nova hoje é competir com todas as séries já lançadas e de fácil acesso ao espectador.

SE O ATO DE ASSISTIR TV AO VIVO ESTÁ MORRENDO, ERA PARA OS TRADICIONAIS PROGRAMAS DE LATE NIGHT SEREM OS PRIMEIROS A NAUFRAGAR, COM DIREITO A BANDA AO VIVO TOCANDO A MÚSICA DO TITANIC E TUDO.

Para se ter uma ideia, o responsável por popularizar o gênero e dar a cara que ele tem até hoje – monólogo do apresentador, entrevistas com celebridades, sketches de comédia – é o The Tonight Show with Johnny Carson, da NBC, que data do início da década de 60.

Nos últimos dois anos, no entanto, uma longa dança das cadeiras movimentou os cargos de comando desses programas, e o troca-troca foi acompanhado com entusiasmo e curiosidade pela mídia e pelos espectadores. Ao invés de murchar, o gênero ganhou novos ares e cresceu. John Oliver deixou o The Daily Show do Comedy Central para assumir o semanal Last Week Tonight na HBO, enquanto o Comedy Central adicionou o The Nightly Show com Larry Wilmore e decidiu manter o próprio The Daily Show com Trevor Noah, após a saída de Jon Stewart. O movimento fez a correspondente mais antiga do programa deixá-lo para apresentar seu próprio semanal, o Full Frontal with Samantha Bee (TBS), tornando-a a única mulher à frente de um programa do tipo. Isso até a Netflix chamar a comediante Chelsea Handler para lançar Chelsea, com episódios novos disponíveis na plataforma de streaming três vezes por semana. Desde 2014, ainda vimos James Corden assumir o The Late Late Show (CBS), Jimmy Fallon receber o The Tonight Show (NBC), Seth Meyers ganhar seu próprio Late Night (NBC), e o tradicional The Late Show (CBS), de David Letterman, ser passado para Stephen Colbert, que também saiu do The Daily Show, do Comedy Central.

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São muitos programas com propostas aparentemente similares, a maioria com episódios diários, nomes parecidos e homens demais. Em um mundo em que ninguém mais para para assistir a algo, a renovação dos apresentadores não parece ter sido suficiente para segurar a atenção dos espectadores – como ficou claro quando nem a crítica nem a audiência abraçaram a nova cara do The Late Show de Stephen Colbert, facilmente a mudança de comando mais comentada de todas. Por quê?

Um dos elementos que mais garantem a sobrevivência desses programas – em especial, aqueles exibidos na TV aberta americana – são as visitas de celebridades em turnês promocionais de seus filmes e séries. Mas quando o acesso a essas pessoas é cada vez mais facilitado por Twitter, Snapchat e Instagram, por que ligar a TV para ver uma entrevista onde muitas vezes o ator parece querer estar em outro lugar e o entrevistador apenas segue as perguntas combinadas com o RP? Salvo alguém como Jennifer Lawrence, capaz de feitos ainda mais raros como levar pessoas para o cinema, já não vemos mais tanta graça na “naturalidade” desses momentos em um mundo onde estamos acostumados a ver atores sem maquiagem no Snapchat.

Quando nem os apresentadores nem os convidados sozinhos são suficientes para trazer os espectadores, alguns dos shows têm apostado em combinações criativas dos dois. Jimmy Kimmel, James Corden e Jimmy Fallon usam e abusam de videos engraçados feitos sob medida para serem compartilhados na internet. Ao ponto de Lipsync Battle de Fallon ter virado um próprio programa e Carpool Karaoke de Corden estar em vias de fazer o mesmo. A internet acabou com os hábitos de TV que davam a relevância aos late shows, mas é com a internet que estes continuam tentando se manter relevantes.

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Os late nights de canais como o Comedy Central, mais interessados no humor político e menos capazes de agendar celebridades da A list para entrevistas, sempre dependeram mais da capacidade de suas salas de roteiristas e de seus apresentadores de fazerem a audiência – seja a presente durante a gravação ou a que vê de casa – rir de verdade. Talvez por isso a aposta de um canal gigante como a CBS em alguém como Stephen Colbert.

O Comedy Central sempre dividiu os vídeos dos episódios em seu site e, se antes tentava resistir, agora os disponibiliza no YouTube. Samantha Bee deve ser a apresentadora mais capaz de manter um perfil no Twitter que genuinamente parece ser escrito por uma pessoa e não por uma equipe de roteiristas, chegando ao ponto de mandar o próprio canal deletar a conta após a TBS fazer uma piada infame com Hillary Clinton. E o Last Week Tonight da HBO, embora tenha como casa um dos canais que mais compete com as novas plataformas de streaming, deve ser o programa que mais foi capaz de usar a cultura da internet a seu favor. Hashtags são criadas e verdadeiras campanhas – que já resultaram em tirar o site da FCC do ar e encher um ditador com fotos de gatos – são lançadas por ele e adotadas pelos espectadores. São estratégias que não chegam até o público com aquele gosto de campanha de marketing, como as hashtags que surgem durante séries no canto da tela conclamando a audiência a tuitar sobre ela enquanto assiste. Tanto a pessoa que viu o programa ao vivo na HBO quanto a que está assistindo ao vídeo de graça no Youtube no dia seguinte podem entrar no jogo.

Talvez seja curioso, então, que o maior canal de TV na internet seja tão incapaz de fazer algo parecido. Mas justamente pela natureza da proposta vendida pela Netflix – assista ao que quiser quando quiser e no ritmo que quiser – a sintonia entre a plataforma de streaming e o espectador com segunda tela, comentando tudo o que vê, não exista. A tentativa de criar um talk show lançado globalmente, o Chelsea, com uma frequência diferente do normal e sem a obrigação de horário, não parece ir pra frente. Apesar de Chelsea Handler receber convidados famosos e tentar fazer quadros diferentes, a repercussão é mínima. Ela até tem um canal no YouTube – mas aposto que você também não sabia disso. Uma busca pelo nome do programa traz diversos resultados sobre o time de futebol inglês.

Um bom termômetro para medir a influência dos talk shows nos EUA é ter em mente que esse é um ano de eleições turbulentas – o que é uma benção e uma maldição para o formato.

Por um lado, há material de sobra para piadas de diversos estilos. Samantha Bee, por exemplo, se solidificou como uma necessária voz liberal e abertamente democrata que destila toda a raiva que Hillary Clinton precisa manter controlada durante a campanha. John Oliver descobriu que o sobrenome original da família de Trump é Drumpf e criou até uma extensão do Chrome para avisar isso a mais pessoas. E Jimmy Kimmel fez esse ótimo quadro com Nathan Lane e Matthew Brodderick sobre como a candidatura de Trump começou como um golpe a la Os Produtores (que eu só queria muito linkar aqui).

Mas por outro lado, se você não consegue se destacar e chamar atenção em um momento tão fértil como o atual, como você espera fazê-lo em condições normais? Nas mãos de Jon Stewart, o The Daily Show foi responsável por definir o estilo de comédia política feita por esses programas e deu origem a muitos dos apresentadores que hoje têm seus próprios shows, mas a resposta a Trevor Noah tem sido silenciosa na melhor das hipóteses e negativa na pior. Stephen Colbert conseguiu chamar atenção recentemente justamente ao trazer de volta Jon Stewart para comentar a eleição, e por ter ressuscitado o personagem do Colbert Report – só para ser avisado que ele poderia ser processado por quebra de direitos autorais, e depois fazer piada também desse fato. Mas não é um bom sinal que seu maior sucesso na nova carreira foi trazer a antiga de volta.

No Brasil, onde por muito tempo o melhor exemplo do gênero foi o Programa do Jô inspirado no de Letterman, a Globo vai lançar no final de agosto o Adnight, que será transmitido uma vez por semana e terá Marcelo Adnet como apresentador. A decisão de ser semanal e de ter no comando alguém responsável pelo TáNoAr, uma das melhores surpresas que a Globo já deu ao Twitter, passa confiança. Adnet também já disse que, assim como fez no TáNoAr, que teve participação de Carlos Alberto de Nóbrega, ele não quer ficar preso à obrigação de só ter convidados da própria Globo, uma regra que acaba tirando a naturalidade de todos os programas com celebridades da emissora. Só vendo o resultado para saber se vai dar certo, mas o canal parece estar aprendendo com as lições de fora, ainda que com atraso.

Talvez o caminho esteja em fazer o programa sobreviver na internet no dia seguinte, ou mobilizar quem assiste para manter sua presença acesa por uma causa. Como foi levantado durante as negociações das trocas dos apresentadores, mais diversidade de gênero e raça pode trazer novos ares para o formato. Mas a verdade é que, apesar desses programas serem verdadeiras instituições na TV americana, talvez não haja espaço para todos em um mundo em que a TV ao vivo se torna obsoleta quando não inclui eventos muitos especiais – afinal, não dá para criar esses eventos toda noite.

Sobreviver vai exigir criatividade e entendimento de um público que todos os canais ainda estão tentando compreender, mas aqueles que saírem na frente serão capazes de desviar do iceberg – e ainda manter a música tocando.

[Crédito das imagens: Divulgação CBS/HBO/TBS]