Lane Kim é a verdadeira heroína de Gilmore Girls | Spoilers

Lane Kim é a verdadeira heroína de Gilmore Girls

Quando Rory Gilmore dormiu sua primeira noite em Yale, me lembro de, na mesma semana, passar a minha primeira noite no apartamento dividido com amigos, naquela que também seria minha primeira semana na faculdade.

Crescer com personagens que tem mais ou menos a sua idade providencia momentos como esse, de total sincronia e reconhecimento no outro, mas também pode ser fonte de frustração. Tal como acontece com amigos muito próximos, você e o personagem que te espelha passam por experiências bastante distintas, já que, diferente dos que estão dentro da telinha, nossas vidas não são cuidadosamente roteirizadas.

A identificação que sentia com Rory, por exemplo, foi aos poucos se dissolvendo conforme mais namorados se acumulavam na vida dela do que na minha. Nossos rumos profissionais, embora parecidos, se bifurcaram quando ela, no final original de Gilmore Girls, sai da faculdade para abraçar a estrada seguindo a bem sucedida campanha de Barack Obama, enquanto eu, trabalhando de volta na casa dos meus pais, escrevia para quem pagasse mais (ou pagasse qualquer coisa) e sonhava em alcançar a filha de Lorelai na estrada.

No hiato entre a sétima temporada e a ressurreição da série para quatro episódios lançados pela Netflix, Gilmore Girls – em especial, a Rory – e eu não mais pudemos comparar notas para saber em que pontos nossas vidas ainda se cruzavam.  

Fato é que pouco mudou na vida da filha mais famosa de Stars Hollow. O emprego fixo – uma miragem no jornalismo atual – não rolou. A vida amorosa avança um passo para voltar dois atrás com um caso mequetrefe com o namorado da faculdade, Logan Huntzberger. De volta à casa da mãe, Rory jura que não voltou enquanto eu, em comparação, não poderia estar mais longe do quarto em que eu cresci (que ainda está lá!).

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Foi assistindo às agruras de uma vida cheia de incertezas da quase sem-teto Rory Gilmore que passei a desviar minha atenção para uma outra personagem, uma favorita pessoal e de grande parte dos fãs, que até poucos anos atrás eu considerava injustiçada pela trama da série. Lane Kim viveu sua vida, por assim dizer, no armário. Todos os seus gostos pessoais, em especial discos, habitavam partes ocultas do assoalho da sua casa e o fundo de armários cuidadosamente organizados para não entregar seus segredos.

Filha de pais conservadores e uma mãe que vale por um exército, Lane sempre foi a amiga periférica de Rory. Quando a conhecemos, as duas compartilhavam um passado recente, a época de escola em que estudavam juntas. Ao se matricular da prestigiosa Chilton, Rory se separou de Lane, que prosseguiu numa vida que não poderia ser mais distante da rotina da melhor amiga.

Não havia avós ricos, escola elegante ou namorados exageradamente atraentes para Lane. Em troca, a descendente de coreanos era sempre representada como alguém em constante estado de alerta, escondendo impulsos naturais, guardando para si mesma paixões que não seriam aprovadas pelos pais e se contentando com uma formação modesta e os sonhos de rodar o mundo com sua própria banda.

Por mais que ver Lane durante as sete temporadas de Gilmore Girls provocasse espasmos de identificação, ela nunca foi um grande ponto focal da série. Entre o cômico e o trágico, o destino da Lane tomou rumos inesperados quando, após a partida abrupta do quase namorado Dave Rygalski para a Califórnia, um relacionamento cheio de atritos começa a surgir entre ela e o vocalista da banda Hep Alien, Zack Van Gerbig.

O que a princípio parece errado, resulta numa relação genuína e amorosa que leva a um surpreendente casamento e a uma – na minha visão jovem adulta da época – azarada gravidez. Em plena lua de mel, durante sua primeira e incômoda relação sexual, Lane fica grávida de gêmeos. “Presa” numa vida que aparentemente ela não havia escolhido, a baterista e melhor amiga de Rory é deixada de lado pelo roteiro no que parecia uma espécie de castigo que ela não merecia.

Em “Um Ano Para Recordar”, quase dez anos depois, a vida de Lane não poderia ser mais diferente daquilo que eu, no que considero minha própria imaturidade do começo dos 20 anos, poderia imaginar.  

Sim, ela ainda mora em Stars Hollow, uma cidade que nunca foi prisão, mas sim, uma espécie de oásis para pessoas tão exóticas quanto benignas. Seu casamento está firme como nunca antes e Zack, que sempre pareceu instável, se acostuma à ideia de um emprego tradicional que paga bem e que o força a assumir organicamente as responsabilidades de um pai de gêmeos. Os gêmeos, diferente da mãe, convivem num ambiente positivamente caótico, com instrumentos musicais não mais escondidos em armários, mas no centro da sala de casa, onde a banda Hep Alien ainda ensaia sem cerimônias.

Longe de parecer consumida pela vida doméstica, Lane parece tirar de letra a rotina de casa e da criação dos filhos. Sua casa, mesmo aparecendo poucos minutos, é um reflexo da vida que ela sempre quis para si: um espaço livre de rigidez, cercado de movimento e música. Pela cidade, Lane trabalha em eventos que povoam o calendário anual, ao mesmo tempo em que toca com o marido no bar secreto que precisa permanecer assim apenas para o obcecado prefeito Taylor.

A relação com seus pais não parece muito alterada, mas a Sra. Kim não mais interfere na vida da filha e achou outros jovens para incutir seu sufocante mas bem intencionado reino de terror. Diferentemente de Paris, a outra melhor amiga da Rory, Lane não é uma pilha de nervos ou de ansiedade a flor da pele.

Sua vida está como ela sempre quis – ainda que ela não soubesse aos 16 anos que o que ela queria não era necessariamente viajar o mundo e ser uma estrela da música, mas sim ser rodeada de pessoas de quem ela gosta e que a valorizam por quem ela é.

Independente da evolução de suas personagens título, o retorno das garotas Gilmore veio para me mostrar que, mesmo que muitos sonhos de adolescência não se concretizem como imaginamos – eu ainda não desejo ser pai de gêmeos e voltar para a cidade em que cresci – o tempo que passamos distantes nos ajuda a entender que a realidade daqueles que tomam o controle da própria vida e vivem pelas próprias regras pode ser muito mais corajosa e agradável do que qualquer sonho.

[Crédito das imagens: Talles Rodrigues]