Lá vamos nós para baixo da redoma | Spoilers

Lá vamos nós para baixo da redoma

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Vendido como o grande evento do verão das séries americanas, eu mesmo não fiquei muito empolgado com Under the dome. Como havia lido o livro, imaginava que seria algo no máximo bom, mas nunca excelente. E foi o que achei do piloto.

As diferenças entre livro e piloto já começam na abertura. Enquanto Stephen King inicia com a subida (ou descida?) da redoma, a série optou por um ponto de partida mais lento, apresentando os personagens, criando conflitos e expectativas: “quem é essa pessoa que o loiro está enterrando?”, “esse loiro é do mal?”, “que história é essa dos caminhões de gás que a repórter começou a investigar?”.

Além disso, fatos que eram narrados em flashback no livro estão acontecendo em paralelo com a situação da redoma, para simplificar o entendimento do expectador.  Tudo está acontecendo mais lentamente na série e já li que a decisão dos produtores é de que a história se estenda por um período de tempo maior que no original.

O livro tem uma grande quantidade de personagens, sendo inviável que todos tivessem participação na TV, e os produtores decidiram combinar alguns e criar outros. O fato é que no livro já sabemos desde o começo quem são os mocinhos e quem são os bandidos, sem margem para dúvidas. Já na série a ambiguidade prevalece e, tirando a repórter Julia, os outros protagonistas aparentam moral duvidosa.

O elenco no geral é competente, mas nada que chame a atenção. Mesmo Dean Norris, que arrebenta em Breaking Bad, está só ok, quase no piloto automático. O personagem dele no texto original é detestável, e resta esperar pra ver se aos poucos ele vai se tornando assim também na série. O único ator que chama a atenção é o bonitinho que interpreta o filho dele, Junior (o iniciante Alexander Koch), mas por ser péssimo. E a piorparte disso é que o personagem é realmente importante.

As inúmeras variações na trama não parecem ter enfraquecido a história, apenas a fizeram diferente, mantendo a curiosidade a respeito da causa da redoma e atraindo mais o interesse de quem já leu o livro, como é o meu caso.

Infelizmente, pelo menos neste começo, deixaram de lado um dos aspectos de que mais gostei quando li: a crítica ao fundamentalismo religioso e à hipocrisia. O livro coloca aquelas pessoas num ambiente fechado que serve como um microcosmo. E diversas pessoas utilizam o cristianismo como cobertura para as práticas mais imorais possíveis – enquanto que uma líder religiosa em crise de fé acaba sendo uma das pessoas “do bem”. Esse aspecto não foi utilizado e quase todos os personagens relacionados à religião foram cortados. Pior, o asqueroso Big Jim do livro usa a religião em diversas falas e isso (ainda) não apareceu na série. Talvez tenham limado essa abordagem para não afrontar a América puritana (justamente um dos grande alvos da crítica contida no livro de King). E afinal, estamos em um dos canais mais conservadores da grade aberta, a CBS.

Outra diferença, não tão fundamental, é a estética: ao final do episódio vemos a redoma em formato simétrico, de abóbada. Mas no livro, e isso não se descobre logo no começo, ela não tem um formato definido: é apenas um escudo invisível cercando os exatos limites da cidade. Com certeza é mais bonitinho ver a redoma redondinha, como no filme dos Simpsons, que posteriormente será mencionado. A série parece ser boa, mas apenas isso por enquanto.

No fim, não esperava diálogos bem trabalhados, e isso me surpreendeu numa produção da CBS que mira no grande público. Com destaque para três deles:

Phil: It sounds alien.

Dodee: Sounds like Bjork.

(Serve tanto pra quem ama, quanto pra haters da cantora, como eu)

Angie: Some of the patients say it’s like we’re stuck in a giant fishbowl. I used to have fish, goldfish, but then one of them got sick and died and the other one ate him. Did you even know they did that? Goldfish?

(Antevendo a lei do mais forte que pode vir a reinar naquele lugar e como pessoas ‘normais’ podem vir a se tornar violentas em situações extremas)

E o melhor de todos:

Joe: What if the government built this thing?

Barbie: I doubt it.

Joe: Why?

Barbie: ‘Cause it works.

(Este último tenho quase certeza de que foi tirado do livro)

P.S.: Já que citei o filme dos Simpsons, vale a pena comentar que muito já se comparou a trama de King com ele. Mas ele já esclareceu que foi apenas uma coincidência, já que começou a escrever Sob a redoma nos anos 70, tendo abandonado o manuscrito e retomado décadas depois.

[Crédito das Imagens: Divulgação/CBS]