House of Cards: os Underwoods não se submetem ao terror, eles fazem o terror (4ª Temporada – Pt. Final) | Spoilers

House of Cards: os Underwoods não se submetem ao terror, eles fazem o terror (4ª Temporada – Pt. Final)

Chegamos à reta final da 4ª temporada de House of Cards! Foi uma jornada longa, mas até agora rendeu uns bons momentos, mesmo que nem todos tenham sido os mais coerentes e, em certos casos, tenham levado a história para lugares inesperados.

Já leu a parte 1, parte 2 e parte 3? Ok, vamos então aos quatro últimos episódios.

DIÁRIO DA MARATONA – HOUSE OF CARDS (4ª TEMPORADA)

Episódio 10 – “Capítulo 49”

Mais um capítulo dirigido por Robin Wright (quatro no total!) e um ótimo exemplo de como uma série pode se beneficiar de ter um ator no comando em certos momentos. Esse episódio é o melhor dos que ela dirigiu até agora, e rende boas cenas de atuação para todos os envolvidos, especialmente para o núcleo de Claire, que volta para a casa da sua mãe (Ellen Burstyn), agora no seu leito de morte.

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“Você acredita que eu tô tendo que lidar com isso?”

O estado de saúde de sua mãe deteriorou bastante desde a última vez que a vimos, mas mais importante que a catarse emocional da situação é como esta se resolve. Porque tudo em House of Cards envolve algum tipo de manobra e manipulação, muito se discute de como lidar com a eventual e inevitável morte de Elizabeth, a mãe.

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“Vamos falar de negócios”

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“Toda ouvidos”

A própria discute isso com Claire no seu leito, e a solução é que a morte dela poderia ganhar a Claire o voto de simpatia do público e dar aquele empurrão final que ela precisa para virar a candidata a vice-presidente do partido.

Essa mesma mentalidade é anunciada a Cathy por Frank, numa conversa que ambos têm no Salão Oval tarde da noite e Frank, desesperado para fazer com que Cathy desista de concorrer e envie o eleitorado dela na direção de Claire, mostra a que veio com ameaças-não-ameaças.

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“Você está me ameaçando?”

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“Claro que não Cathy, por que eu faria isso?”

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“Talvez o tom de voz, a postura ameaçadora, o papo sobre já ter matado duas pessoas antes, o abridor de cartas na mão apontado na minha direção…”

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“Que bobagem! e que abridor de cartas?”

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“Ah, esse? Estranho, não faço ideia de como veio parar aqui”

É um tributo ao talento de Kevin Spacey e Jayne Atkison que a cena entre os dois funcione tão bem para propósitos dramáticos, porque em termos realistas ela beira o absurdo. Eu não consigo conceber uma cena como a dos dois e nenhum tipo de consequência acontecendo, mesmo que Cathy tenha puxado o tapete de Frank no episódio anterior.

É um bom episódio, no geral, mas antes uma pausa para Tom usando turbante:

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“Você quer que eu leia seu destino?”

Isso obviamente me lembrou aquele comercial de perfume da Britney em que uma vidente lhe pergunta se ela quer que leia o seu futuro, só para ouvir isso em seguida:

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#icônico

Observações:

Falando em momentos absurdos, isso acontece:

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Doug usa o >> PRÓPRIO NOME <<

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Para fazer uma DOAÇÃO de $5000 para a família do paciente morto.

Isso obviamente vai dar merda mais pra frente.

Claire ganha o espaço dela como candidata a vice-presidente (com mãe morta no caminho e tudo). De novo, parece plausível no universo da série, mas desde que você não pense muito no mundo real.

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Vlw glr, esperem meu single sair no iTunes e comprem tb XOXO

Episódio 11 – “Capítulo 50”

Não que não tenha acontecido muita coisa nesse capítulo, mas convenhamos… não aconteceu muita coisa mesmo.

No episódio anterior, Claire e Tom, que virou BFF da mãe dela nos seus últimos momentos de vida, não viram outra solução senão ir para a cama juntos.

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“A morte é o maior afrodisíaco”

Tanta era a catarse entre os dois que eles nem se incomodaram em ligar para a ambulância logo após ela morrer, algo que acontece somente no dia seguinte. Agora, neste capítulo, ambos parecem dispostos a ter um affair (que é mais chique do que falar “um caso”). Não sei como Claire encontra o tempo, mas enfim, se as únicas tensões sexuais entre Frank e Claire ocorrem apenas quando ambos fazem planos de destruir uma terceira pessoa (e Meechum, que fez um ménage com eles na segunda temporada, está morto), então Tom está ali para suprir a parte física e também porque alguém nessa série precisa dar umazinha.

No final, Tom senta-se à mesa com Frank e Claire em aparente tranquilidade enquanto o tema principal da série composto por Jeff Beal toca em off, numa versão mais lenta (já falamos da trilha sonora aqui no Spoilers e se você quiser, pode saber mais sobre a construção do tema principal neste podcast rápido e bacana com o compositor citado).

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Se Frank não será mais o marido funcional de Claire e eles não vão poder seguir caminhos separados (considerando que são melhores trabalhando juntos), então Tom está essencialmente lá como um acessório necessário.

Temos o retorno de Freddy (Reg E. Cathey), que estava ausente até então.

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“Cheguei pra dizer adeus”

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“Ok, legal. Me faz umas costelinhas?”

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“EXCUSE ME? Nem pra dizer adeus? depois de tudo o que fiz e não sei o quê não sei o quê lá”

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“Beleza, mas e as costelinhas?”

Ele não é exatamente bem servido pelo que os roteiristas entregam. Ele basicamente tem um ataque de fúria na casa de Frank e só não sai batendo a porta atrás dele porque o cenário é grande e as portas estão longe, além de ele ser extremamente coadjuvante (tradução = quem liga?). A cena não avança o personagem de Freddy, nem o de Frank e nem a história no geral. Ela não serve para nada além de estabelecer que realmente ninguém gosta de Frank, algo que já está abundantemente claro a essa altura do campeonato. No que diz respeito ao personagem de Freddy, a temporada anterior tratou melhor a trama dele.

De qualquer forma, este aparece novamente para encher Tom Hammerschmidt (Boris McGiver) de porrada e dizer que ele não é um dedo-duro, algo que, novamente, já estava estabelecido também.

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“Agora eu vou reiterar pro gravador o que já estava claro antes”

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D:

Em outras palavras, todas as cenas de Cathey poderiam facilmente ter sido deletadas do episódio e não teria feito diferença nenhuma.

Em outra trama, Tom Hammerschmidt continua fazendo #jornalismo:

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fazendo #jornalismo

Por sua vez, Doug combina de se encontrar com a viúva do falecido que não recebeu o órgão que deveria. Não só a cena fede a “Rachel 2.0” como ainda soa muito fora de lugar até para o Doug, que na temporada passada passou o tempo inteiro separado do resto do elenco só para acobertar possíveis rastos.

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“Nas palavras da minha poeta favorita Taylor Swift, ‘You look like my next mistake’ *O* “

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“Essa foi a coisa mais doce que alguém me disse depois do meu marido morto”

Não contentes com o erro todo desse subplot, os roteiristas ainda botam a viúva mexendo casualmente no anel de noivado dela enquanto fala com ele.

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“Casualmente contemplando um caso”

QUAL A NECESSIDADE DISSO AMIGOS, QUAL?

Episódios 12 e 13 – “Capítulo 51 e Capítulo 52”

No seu texto para o site AV Club, o crítico Scott Von Doviak escreve:

“Qual é o apelo de Frank Underwood? Não estou falando do seu apelo como personagem de televisão. Eu quero dizer, o que as pessoas no mundo ficcional de House of Cards veem nele? Porque nós já sabemos que não existe muita afeição pela sua figura. (…) Frank inspira uma espécie de lealdade deturpada. As pessoas ficam perto, mesmo sabendo que ele é perigoso, porque acham que ele vai conseguir fazer algo por elas. É por isso que poder é tão importante para Frank e ele está disposto a qualquer coisa para segurá-lo: ele literalmente não tem nada sem isso.”

A citação acima justifica o personagem, mas também muitas das motivações dos outros personagens, pelo sentido inverso. Todos têm fome de poder, mas poucos estão dispostos a se comprometer no mesmo nível que Frank e Claire, que ao longo desta temporada foi elevada a uma verdadeira rival, mesmo que os criadores tenham escolhido deixar ambos lado a lado e não em posições opostas. Eles estão no mesmo barco, ainda casados, ainda tramando juntos, um cigarro compartilhado por noite, mesmo que cada um tenha sua própria agenda.

Nos dois últimos episódios finais, que funcionam como um filme em duas partes, nós temos uma crise de última hora. Uma família foi sequestrada, os Millers…

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“Hieee”

Eles são reféns de dois americanos simpatizantes do ICO (a versão de House of Cards do ISIS), que até então esteve em segundo plano e agora se torna a trama principal. Eles querem a liberação de um terrorista notório caso contrário a família é executada.

Em outra trama, Remy (Mahershala Ali) e Jackie (Molly Parker) se encontram para dizer que não fizeram praticamente nada essa temporada:

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“Você recebeu algum roteiro essa temporada que tivesse mais de meia página de diálogo? É, nem eu”

Frank é retirado de um debate que estava tendo com Conway ao lado de Claire, e no calor do momento, Conway se presta a fazer um vídeo público que rapidamente vira uma péssima decisão por dois motivos: ele expõe sua principal falha a Frank, que entende que, acima do bem-estar alheio, o que Conway realmente gosta é de atenção e de estar debaixo dos holofotes…

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“Uma música que me define? Difícil, mas vou com a trilha sonora de Chicago

Conway também já não pode dar para trás mesmo quando descobre o quão ruim foi a ideia para a sua persona pública.

Logo, ele é convidado a ficar com os Underwoods na casa deles, o que gera essa linda intro do garoto que não tem educação e já manda esse shade:

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“Papai, você disse que ele era um vampiro!”

Muito engraçado garoto, hoje você dorme no porão inclusive.

Logo em seguida vem essa interação deliciosa entre as duas esposas.

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O silêncio em seguida é ensurdecedor.

Entretanto, Frank se reúne com sua equipe e, junto a Conway, fala com os terroristas. Conway tem um discurso emocional que funciona a favor da equipe e a favor do ator Joel Kinnaman caso um dia seja indicado ao Emmy por sua performance, porque esse momento é clássico momento de clipe de indicado a Melhor Ator Coadjuvante.

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ACTING

Exigências são feitas, e para resumir, a mãe e filhas são liberadas. O pai continua em custódia e os reféns querem o seu líder, Ahmadi, solto. Isso não acontece, e mesmo que Claire tenha uma conversa com ele para tentar negociar a situação, Ahmadi vira no último momento, encorajando os raptores. Todo mundo é oportunista nesse mundo, impressionante.

A situação é suspensa, mas mal dá tempo para pensar nela pois Hammerschmidt, cansado de apanhar em becos e desenterrar pistas do abstrato, finalmente publica o incendiário artigo a três semanas da eleição.

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“Rá! Você não contava com minha astúcia”

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:O

Tudo o que ele publicou foram conjecturas a respeito da trajetória política de Frank e, por mais inflamatórias que sejam, ainda contam como #jornalismo e, logo, má publicidade, no momento que os Underwoods menos precisavam dela.

Sentados vendo o sol nascer, é Claire que tem a ideia definitiva- e um dos meus momentos favoritos da série inteira.

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Calma, sem mexer um músculo e off-screen no começo da cena (um jeito elegante de mostrar o quão sangue frio ela é), ela decide que cansou de tentar ganhar o coração das pessoas, mas é mais fácil atacar ele com terror. Terror é fácil de controlar. E Frank tem a epifania do caos. “Mais que caos”, diz Claire.

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Guerra.
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É neste momento que House of Cards dá uma guinada e entra em território de Black Mirror, a série inglesa. Embora não seja ficção científica, e a noção de um país entrar de cabeça numa guerra para fugir de problemas internos não seja nova ou inédita (tanto na ficção como na vida real), a ideia continua parecendo inesperada. É um gancho que, da mesma forma que aconteceu quando Frank foi baleado, domina todas as outras linhas narrativas e joga a história numa direção inesperada.

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“Anúncio surpresinha: tamo em GUERRA!!!”

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“hmmmm guerra..”

No final, os terroristas realmente executam Miller. Frank podia ter bloqueado o sinal, algo que ele impede de acontecer. Todos deveriam assistir, o que tem o benefício de funcionar como a forma mais fácil de dar um choque na população e deixar ela aterrorizada. Enquanto estão todos sentados em volta de uma mesa, a câmera nunca mostra de fato a degolação, mas nós acompanhamos as expressões enojadas e aterrorizadas de todos exceto Frank e Claire, que olham fixamente para a tela sem mexer um músculo. Nós sabemos que eles têm sangue frio, e essa cena apenas reitera o quão dispostos a manter o poder eles estão.

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“Ahh quer dizer que nem ao trabalho de me salvar vocês se deram?”

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“Melhor filme em eras”

A verdadeira questão em jogo na situação é a manutenção do status quo. Como Frank diz,

“Nós não nos submetemos ao terror. Nós fazemos o terror”.

É um pensamento do qual Claire compartilha. E, na maior surpresa da temporada, pela primeira vez ela parece escutar Frank falar e quando ele se vira para nós, o público, ela vira também. É difícil não sentir um calafrio no momento, mas a temporada acabar antes mesmo de nós termos processado a surpresa.

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Duas pessoas visualizaram seu perfil

Tudo é tática de jogo em House of Cards. Se Claire vai ser efetivamente uma narradora ativa na próxima temporada ainda precisamos descobrir, mas que ela mais que cimentou seu lugar no panteão dos grandes vilões modernos das séries, disso não há dúvida. Quando a temporada termina, é ela que você mal pode esperar para  ver o que vai fazer em seguida.

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Agora já podemos comentar sobre tudo o que aconteceu. O que vocês acharam da temporada no geral? Vamos lá, todo mundo com drinque na mão e reunido nos comentários.

Partes anteriores da maratona da quarta temporada de House of Cardsparte 1, parte 2parte 3.

Se quiser, pode ler também o diário da maratona da terceira temporada, além de um guia da fotografia, estilo visual e trilha sonora da série e uma carta de amor para Doug, esse personagem complicado (ambos os textos também baseados na terceira  temporada)


[Crédito das imagens: Reprodução e Divulgação Netflix]