Fleabag comenta com humor as tragédias do cotidiano | Spoilers

Fleabag comenta com humor as tragédias do cotidiano

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Podemos dizer que as séries de drama estão abusando da liberdade (e da nossa paciência) quando entregam episódios cada vez mais longos (chegando aos recordes desnecessários de 1h30 do piloto de The Get Down e 1h45 da finale de The Night Of). Se isso é sinônimo de qualidade é outra história. Mas a verdade é que a maioria das inovações mais interessantes da TV hoje está acontecendo nas séries de meia hora.  

É daí que surge toda a conversa – que já tivemos aqui – sobre como as comédias estão tomando o lugar dos dramas. Na verdade o que elas estão fazendo é sabendo aproveitar suas limitações para contar histórias novas e arrancar uma gama cada vez mais variada de emoções e reações dos espectadores – em menos tempo. Entre a estreia de Donald Glover como roteirista em Atlanta e séries com tom autobiográfico como One Mississippi, de Tig Notaro, e Insecure, de Issa Rae, a nova temporada está recheada de novidades que reforçam essa ideia.

Uma delas, que já pode ser conferida em sua primeira temporada completa, é Fleabag, série da seis episódios da BBC que será distribuída pela Amazon nos EUA. Parte Diário de Bridget Jones, parte Miranda e parte Girls, a série é escrita e estrelada pela comediante Phoebe Waller-Bridge e foi inspirada no seu stand-up de mesmo nome.

A série segue a vida da protagonista (que nunca tem seu nome revelado e é apelidada de Fleabag, o apelido da criadora na infância), uma mulher nos seus 30 anos que tem um café em Londres afundado em dívidas, acabou de terminar com o namorado, está constantemente em busca de afirmação e sexo, tem uma relação íntima mas delicada com a família e acabou de perder a melhor amiga em um acidente não muito acidental.

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Por meio dos relacionamentos complexos de Fleabag com diferentes personagens – alguns mais interessantes e humanos, como a irmã linha dura ou a ótima madrasta artista, e outros caricatos demais – vemos como a protagonista se relaciona com o mundo e consigo mesma. Atravessando o dia a dia com pouco rumo, ela parece sempre próxima de um limite que não entendemos muito bem qual é, mas com o qual ainda assim conseguimos nos identificar.

Assim como as personagens principais de Bridget Jones e Miranda, Fleabag passa boa parte da série conversando com o público – seja para introduzir um flashback que vai explicar melhor um personagem, fazer uma confissão vergonhosa ou apenas trocar olhares expressivos em resposta a uma situação estranha. Essa técnica e o humor que ela emprega com frequência justificam a definição mais fácil de que Fleabag é uma comédia, mas ao longo da temporada fica claro que essas escolhas foram feitas justamente para inserir o espectador na história de um jeito acessível – e então revelar que Fleabag está mais próxima de uma tragédia cotidiana do que de uma sitcom.

Perfeita para uma maratona descompromissada (mas a ser evitada nos dias ruins da TPM), o mais interessante de Fleabag é como a série cresce enquanto você assiste, revelando detalhes e subvertendo suas expectativas na medida em que o tempo passa. A série mostra que, assim como o acidente quase proposital da amiga de Fleabag, podemos até achar que estamos preparados para as surpresas da vida adulta, mas nunca conseguimos prever suas consequências – e é passando por elas sem se perder que aprendemos a crescer.

[Crédito das imagens: Divulgação/BBC]