Easy e High Maintenance querem seduzir o espectador com o desconhecido | Spoilers

Easy e High Maintenance querem seduzir o espectador com o desconhecido

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Antes do “Netflix and chill”, havia o “vamos no cinema?”. Se ver um filme é como marcar um date, que pode ou não resultar em uma continuação, acompanhar uma série é um convite para sua casa, daqueles com chance de se alongar por mais de uma noite. O cortejo pode começar tímido – quando o piloto não atrai logo de cara – ou pode ser uma conexão instantânea. Você pode manter o contato por puro costume – porque o episódio está ali disponível, apesar de não lhe trazer muito prazer – ou você pode abandonar sem olhar para trás, quem sabe um dia dando aquela stalkeada básica em busca de spoilers para ver o que anda fazendo um antigo peguete.  

Assistir a uma série exige comprometimento, mas dois novos seriados querem propor justamente o oposto: um date pontual, uma rapidinha, um caso com início, meio e fim. Com intenções e resultados diferentes, Easy, da Netflix, e High Maintenance, da HBO, querem se destacar no oceano da #PeakTV apelando para a nossa curiosidade por estranhos, nossa sedução por uma história curta e desconhecida, nosso cansaço momentâneo de mergulhar em narrativas contadas em temporadas longas e por personagens que conhecemos em detalhe.

Criada por Joe Swanberg, a antologia Easy, que disponibilizou seus oito episódios na Netflix na semana passada, se passa em Chicago e conta histórias de casais em diferentes estágios da relação. Alguns estão começando o relacionamento, outros passando por uma provação, outros apenas sobrevivendo mais um dia. Estrelados por atores como Orlando Bloom, Aya Cash (de You’re the Worst) e Raúl Castillo (de Looking), os episódios contam histórias fechadas e funcionam como pequenos contos, sempre apostando que o realismo e a banalidade do dia a dia podem revelar muito sobre a natureza humana. Alguns envolvem mais do que outros, e isso com certeza varia de espectador para o espectador.

Famoso por filmes indies como “Drinking Buddies”, também com roteiros ancorados no mundano, Swanberg tenta refazer na TV o que filmes como “Nova York, Eu te Amo” e suas variantes fazem no cinema – com a diferença de que esses filmes combinam diversas visões de diretores e roteiristas, e Swanberg escreve e dirige todos os episódios de Easy. O resultado é uma espécie de uniformidade em todas as histórias, por mais distintas que elas sejam, o que pode ser uma boa ou uma má notícia: se você não gostou das primeiras, dificilmente vai mudar de ideia até o fim da temporada, mas assim como um casal que continua se encontrando na esperança de uma faísca eventualmente aparecer, nada vai impedi-lo de insistir.  

Versão da HBO de uma famosa websérie, High Maintenance é mais ambiciosa, mas menos pretensiosa do que Easy. A série acompanha o traficante conhecido apenas como “The Guy” (interpretado por Ben Sinclair, único nome no elenco fixo, e também criador da série junto com Katja Blichfeld) por Nova York enquanto ele faz entregas de maconha na casa dos seus diversos – no sentido de muitos e de variados – clientes. Cada episódio conta a história de dois ou mais desses personagens superficialmente interligados, alguns apenas durante um momento específico de suas vidas, e outros oferecendo um contexto maior do que os fizeram chegar até ali. Assim como “The Guy”, somos testemunhas passageiras desses personagens que, tal como as pessoas que povoam Easy, possuem vidas que não são exatamente excepcionais. Mas High Maintenance é mais eficiente em empacotar essas narrativas com cuidado para que elas se revelem aos poucos para o espectador e, mesmo sem grandes reviravoltas, consigam nos surpreender.

Parte da graça de um primeiro encontro é conhecer uma pessoa nova. Por menos interessante que ela seja, há um quê de esperança e potencial que a convivência inicial com um desconhecido pode trazer. Se não o conhecemos a fundo, tudo pode ser uma surpresa – mas, por outro lado, dificilmente o impacto dela será o mesmo de ver uma revelação ou novidade acontecer com um velho conhecido. Easy e High Maintenance se propõem a reproduzir essas sensações com histórias fechadas, na esperança de que haja uma conexão tão instantânea que a falta de intimidade não interfira na nossa relação com elas, ou que a empolgação venha justamente do contato com o desconhecido. No fim, alguns desses personagens podem nos marcar, enquanto outros serão completamente esquecidos – mas assim como acontece com os relacionamentos que temos na vida real, com sorte o contato com eles vai nos ensinar algo sobre nós mesmos.

[Crédito das imagens: Divulgação/HBO/Netflix]