Dragon Ball Super e Saint Seiya: Soul of Gold não me deixam crescer | Spoilers

Dragon Ball Super e Saint Seiya: Soul of Gold não me deixam crescer

Quando eu era criança, muitas situações marcaram minha relação com animes, mas compartilho duas com você para dar o tom:

– A ansiedade de esperar meu pai chegar com uma revistinha Herói, que, à época, estampava em todas as edições os personagens de Saint Seiya, anime este que assistíamos via TV Manchete sob o carinhoso título Cavaleiros do Zodíaco;

– Acordar cedo no fim de semana para acompanhar o combo Guerreiras Mágicas de Rayearth + Fly + Dragon Ball. Era um delírio.

Eu poderia ainda falar do meu vício em Pokémon, Sakura Card Captors e todas as criaturas treináveis e cartas mágicas que estão no meio disso, mas acontecimentos recentes me fizeram retomar, especificamente, o universo de Shenlong e de Atena.

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Tudo começou na academia onde pratico Kung Fu: pensava eu, no alto da minha ignorante vida adulta, que a juventude de agora andava assistindo as continuações de Naruto (que, no alto do meu preconceito, nunca assisti), até que o Davi, prodígio faixa azul de catorze anos, chegou a mim e disse “você não assistia Dragon Ball?”. O impulso foi responder “antes mesmo de você nascer”, mas quem disse que esse sou eu? Passamos a aula inteira papeando sobre as impressões dele sobre o filme A Batalha dos Deuses e sua ansiedade para a série Dragon Ball Super que estreou este mês. Resultado: fui assistir para papear com ele.

A morosidade de Dragon Ball Super…

Se  você não foi um dos humanos da Terra que ajudou Goku na Super Genki Dama que derrotou Majin Boo, existe uma graça a menos a enxergar nesta nova saga, lançada dezoito anos (!) depois do último episódio de Dragon Ball Z que foi ao ar. A série, supervisionada pelo criador Akira Toryiama, mantém o mesmo traço e ambiente de antes: Dragon Ball Super começa logo após ao fim de Z, tratando da vida de seus personagens num período de “paz mundial” com a morosidade comum de seus episódios (na verdade, dois episódios e, com exceção do estranho desaparecimento de uma estrela, pouca coisa efetivamente se desenrolou – mas há alta eficácia no exercício da nostalgia).

Goku mantém sua ingenuidade, trabalhando duro em plantações sob comando (e ordem clara) de sua esposa Chi-chi. Ao mesmo tempo, vai dedicando-se ao seu caçula Gotem – a abertura do episódio estabelece a relação entre os dois, quando Goku coloca o filho para dirigir um trator e o salva da queda de um penhasco. Gotem, ao lado do também pequeno Trunks, está comprometido a comprar um presente para a noiva de seu irmão mais velho, Goham.

Goham está para se casar com Videl, a filha do falso-herói Mr. Satan. Uma das cenas mais delicadas e interessantes do piloto é quando Goham e Videl estão andando pela rua e o roteiro usa da sombra de um prédio para tratar da insegurança de Goham com seu futuro – e, no momento em que ele percebe seu sentimento por Videl, e a encara, eles saem da sombra e o rosto dele se ilumina.

Tendo pouco a dizer do que podemos esperar nessa nova saga – além de episódios demorados e descrições cotidianas comuns aos animes japoneses e que, aqui no ocidente, remetem ao que conhecemos por fanfics – faço minhas as palavras de Davi: “a melhor parte do primeiro episódio é o tema de abertura, quando o Shenlong aparece do chão, atrás do Goku”. Só ouvi verdades.

https://www.youtube.com/watch?v=FkbxNypK6ds

…e a uniformidade de Saint Seiya: Soul of Gold

São tantas as sagas de Saint Seiya que eu preciso de algum tempo para botar sentido na cronologia das coisas – mas aí lembro que o mundo adulto não me dá muitas oportunidades de botar isso no papel (sou desses), então apenas respiro fundo e vou. Em Soul of Gold, spin-off da série de Masami Kuramada, os doze Cavaleiros de Ouro renascem em Asgard, aquela terra de gelo que abriga a saga de mesmo nome, de 1988/1989, e minhas histórias favoritas de todo o universo dos Cavaleiros de Atena. Foi em Asgard que eu conheci o conceito de nostalgia, mesmo sem saber nomeá-lo:

https://www.youtube.com/watch?v=Um6kepSbrLI

Evidente que foi lá com a turma do kung fu fighting que eu soube do retorno de Saint Seiya este ano (desta vez através do twenty-something Renan). Após destruírem o Muro das Lamentações naquele que é considerado o melhor ciclo de episódios de todo anime – Hades – os Cavaleiros de Ouro ressurgem misteriosamente em Asgard. Aiolia, Cavaleiro de Leão eleito herói principal pelo roteiro, logo se encontra com a misteriosa heroína Lyfia, que faz seu apelo: “por favor, salve Asgard”.

Lyfia misteriousar

Lyfia misteriousar

Hilda, a antiga guardiã de Asgard, caiu adoentada ao lado de sua irmã Freya, após um golpe dado por Andreas, homem que resolve reviver a árvore Yggdrasil pra acabar com o período frio de Asgard e etc. Para isso, ele invoca novos Cavaleiros Deuses para proteger sua nova ordem. Pensando que os Cavaleiros de Atenas estão ocupadíssimos no Inferno, faz sentido a invocação dos Dourados para a salvação de Asgard.

Atualmente em seu episódio sete, Soul of Gold aposta na roupagem trazida pelas sagas mais recentes, Ômega e Lost Canvas, mas sem perder a caracterização visual das sagas antigas; e acerta ao manter a uniformidade da tristeza, bem como as lições de retidão de caráter, marcas de Saint Seiya, num roteiro meio canhestro. Mas, convenhamos: o fã de Saint Seiya quer mais dos Cavaleiros do Zodíacovenha o que vier. E ponto.

Dragon Ball Super e Saint Seiya: Soul of Gold, não estão me deixando virar adulto de vez – que bom. A gente tem necessidade de se sentir criança às vezes e eu não me importo de fazer isso diante da tela (melhor assim). Pensando nos papos que venho trocando com Davi, esses animes também vão causar hard feelings nas gerações porvir.

[Crédito das imagens: Reprodução e Divulgação – TOEI Animation]