Como Hannibal surpreende e nos envolve com o grotesco | Spoilers

Como Hannibal surpreende e nos envolve com o grotesco

Contém spoilers até o terceiro episódio da terceira temporada de Hannibal.

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Ao contrário de alguma séries que continuam nos dando mais do mesmo, Hannibal procura sempre trazer novidades, focando no grotesco e em chegar – especialmente enquanto série de televisão aberta – a lugares pouco explorados. Se depois de duas temporadas você ainda não percebeu que Hannibal é sem duvida uma das séries mais ousadas da televisão, vão aí algumas razões para acompanhar com a gente essa terceira temporada.

1) Shock Value x Terror Psicológico

Talvez por ter saído da ~linda~ mente de Bryan Fuller, que em uma entrevista recente criticou a atual epidemia de cenas de estupro na TV, o horror de Hannibal trabalha o lado psicológico do espectador ao colocá-lo em contato com o subconsciente dos personagens, principalmente o de Will Graham. No segundo episódio da terceira temporada, “Primavera”, por exemplo, Bryan Fuller e o diretor Vincenzo Natali trabalham com o horror sem jamais apelar para o shock value gratuito. Ambos nos jogam na pele de Will, nos fazendo acreditar que temos o controle sobre a situação, para aos poucos desconstruírem essa ideia na tentativa de perturbar o público por meio de sensações (música, som, arte, foto, alegorias e poesia) e não apenas pela violência pura.

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2) Hannibal corre riscos narrativos

Hannibal foge das regras que dominam a maioria das séries em exibição atualmente. Em uma mistura muito bem sucedida de procedural e narrativa seriada, cada episódio tem uma estrutura completamente diferente do anterior. Hannibal começou como uma série que tinha um caso a ser resolvido a cada episódio (o famoso monstro da semana), e permeando isso a relação entre o doutor Lecter e Will foi se estreitando, ficando cada vez mais característica, conferindo, aos poucos, um aspecto seriado ao enredo. Mas mesmo dentro dessa nova direção, as coisas continuando evoluindo a cada semana: na terceira temporada, o primeiro episódio foi uma grande mistura entre passado/presente/e algum lugar do imaginário do doutor Lecter, enquanto o segundo nos mostrou um “caso” a ser “resolvido” com elementos a serem trabalhados dentro da própria cabeça do protagonista, confundindo a barreira que delimitaria os tempos passado e futuro, num presente complexo.

Mais do que brincar com os tempos da série, Hannibal dificilmente termina com cliffhangers, aquele ganchos entres episódios. A trama (ainda) não acompanha um caso criminal que precisa ser resolvido, nem a relação amorosa de dois personagens que precisam ficar juntos, mas sim a batalha entre duas mentes brilhantes que discorrem sobre os limites de bem ou mal e que estão eternamente num embate entre trabalharem juntas ou separadas.

3) Hannibal corre riscos artísticos

Poucas séries se arriscam artisticamente como Hannibal. Algumas séries como The Walking Dead já fizeram isso entre um episódio e outro, mas Hannibal é um afirmação pungente de que terror, arte e fome narrativa podem caminhar de mãos dadas. Nenhuma série trabalha tão extensivamente e em detalhe o grotesco. Seja com planos de pessoas sendo escalpeladas e suas carnes dobradas ou uma sequência de processos detalhados da ignição de uma moto, toda imagem é pensada e repensada, todo cenário é planejado e tem uma razão de existir. Cada cena, por mais perturbadora que seja, é um deleite sensorial para o público.

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Enquadramentos originais que parecem pinturas, fusões estranhas entre sets, cenas inteiras só de planos detalhe e movimentos de câmera que trabalham com a relatividade – nessa temporada além da arte e da fotografia, o que tem se destacado ainda mais é o uso do som. E se você acha que eu estou puxando sardinha pro meu ganha-pão, saiba que quem tem participado do processo de mixagem é ninguém menos que o próprio showrunner, Fuller.

Mixagem é o processo que nivela voz, foleys, ambiências, efeitos e música e faz tudo isso trabalhar como um conjunto, e neste ano o processo tem sido ainda mais intenso do que nas temporadas anteriores. Para os que dominam o idioma inglês sugiro o podcast All In Your Head, do 99% Invisible, que destrinchou o som desta temporada trecho por trecho, estudando os instrumentos que foram usados e transformados nos sons assustadores que ouvimos na série.

Semana após semana, Hannibal se revela um show cada vez mais intrigante, com o único objetivo de nos envolver nesse belo pesadelo.

[Crédito das imagens: Reprodução/NBC]