BrainDead quer saber o que assusta mais, uma invasão alienígena ou a política? | Spoilers

BrainDead quer saber o que assusta mais, uma invasão alienígena ou a política?

Se for possível dizer que há uma epidemia mundial atualmente, é a de notícias políticas que nos fazem pensar “isso é real, ou é trama de um Famoso Seriado AmericanoTM?”. Simplesmente viver hoje em dia já está fazendo a gente querer se beliscar a todo momento para ter certeza de que não estamos no meio de um episódio de Além da Imaginação. Então o que poderia tornar a política mais assustadora? Um golpe? Donald Trump? Um país ignorando riscos reais e votando para sair da União Europeia?

Que tal uma invasão de formigas alienígenas particularmente interessadas em membros da política americana, que infiltram o cérebro das pessoas e explodem suas cabeças ou, na melhor das hipóteses, as transformam em zumbis movidos a frases prontas, shakes verdes e uma música antiga?

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Com uma premissa que mistura ficção-científica, suspense e comédia, BrainDead, a nova série dos criadores de The Good Wife, Robert e Michelle King, trouxe o terror para a política. Mas na verdade, a pergunta que a série quer fazer é outra: será que ele não esteve sempre ali?

BrainDead tem início quando Laurel (Mary Elizabeth Winstead) entra em seu filme de terror pessoal. Irmã de um senador democrata, ela aceita um emprego na equipe dele após muita insistência do pai. Mesmo deixando claro que nunca quis saber de trabalhar com política – a óbvia vocação da família –, Laurel o faz para juntar dinheiro e conseguir terminar o documentário-arte que ela tenta fazer desde a faculdade.

Laurel já começa o trabalho no meio de uma batalha política entre os partidos democrata e republicano, que resulta na paralisação dos serviços públicos (a famosa “government shutdown” que aconteceu mais recentemente em 2013). Se não bastasse ter que equilibrar o trabalho de atendimento aos eleitores, a assessoria política e pessoal ao irmão mulherengo (Danny Pino), o desejo de terminar seu documentário e as intrigas e manipulações constantes ao seu redor – entre eles, as de um jovem assessor republicano (Aaron Tveit) com quem ela tem uma química fora de série –, acontecimentos estranhos logo começam a ocorrer ao seu redor.

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Com 13 episódios encomendados pela CBS, BrainDead é um bicho próprio que não vai agradar a todos (o que talvez seja sua sentença de morte), mas é um experimento delicioso que traz o absurdo para um ambiente onde o absurdo se passa por rotineiro. O tom da série muda constantemente ao longo de um único episódio, passando pela comédia, o suspense, o terror, a sátira e o romance – e começando sempre por um recap “previously on” todo cantado pelo compositor Jonathan Coulton. Quem gosta de The Good Wife vai identificar a mão dos King, mas o flerte com o novo gênero da ficção científica e terror traz um ar fresco para as tramas sobre poder que o casal sempre fez tão bem, e é perceptível como eles se sentem confortáveis com a liberdade para fazer mais uso da sátira política. Personagens reais como Hillary Clinton e Donald Trump aparecem só de relance, em TVs ligadas durante cenas entre personagens – como um lembrete de que a realidade continua nos acompanhando mesmo quando estamos entretidos com um mistério sobre formigas alienígenas.

Enquanto isso, cada pessoa infectada – aquelas que, ao que tudo indica, as formigas acham úteis e deixam viver – parece renascer extremada naquilo que acredita. O congressista republicano Red (Tony Shaloub) abandona o alcoolismo e se renova nas crenças do seu partido, dane-se a necessidade de se aliar com os democratas para reverter a paralisação que prejudica todo o país. A líder democrata Ella (Jan Maxwell) aparece agressiva e cansada de “ser o partido de adultos”, que sempre sacrifica alguma coisa aos republicanos para evitar o pior. O chamado “bipartisanship”, a capacidade dos dois maiores partidos americanos trabalharem juntos em assuntos que interessam, começa a desaparecer – e ninguém parece estranhar.

O desenrolar de BrainDead possivelmente irá culminar na necessidade de que pessoas de lados diferentes trabalhem juntas para evitar uma invasão que ameaça a humanidade – mas quando isso for percebido, poderá ser tarde demais. Isso, é lógico, se as formigas fizerem bem o seu trabalho. Para quem assiste, resta a dúvida não menos assustadora que se esconde no coração da série: será que antes de elas aparecerem esse tipo de entendimento seria possível?

[Crédito das imagens: Divulgação/CBS]