Big Little Lies, Jane the Virgin e a rivalidade feminina tratada com respeito | Spoilers

Big Little Lies, Jane the Virgin e a rivalidade feminina tratada com respeito

Este post contém alguns detalhes do episódio 3x14 de Jane the Virgin.

Na semana passada, Jane the Virgin dedicou um episódio a reviver – e desenvolver–- a rivalidade entre a protagonista Jane (Gina Rodriguez) e a ex-vilã-hoje-praticamente-família Petra (Yael Grobglas).

Jane, que por reproduzir os exemplos saudáveis da mãe e da avó se tornou uma mãe modelo com facilidade, descobriu que ser mãe solteira de um menino de quatro anos com tendências hiperativas não é uma tarefa tão suave quanto ela previa antes do pulo no tempo que avançou a série em três anos. Já Petra, que demorou para se conectar com as filhas gêmeas, colhe os louros de ter passado os três anos aplicando toda sua personalidade tipo A na criação das filhas e, mais importante, no relacionamento com a escola que hoje reúne as três crianças.

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Em um episódio que comenta retroativamente a eleição americana – já distante em Jane the Virgin – Petra e Jane se enfrentam pelo título de “mãe da sala”, uma mãe que se responsabiliza por incômodos como o tipo de areia do parquinho ou rodízio de armários para as crianças. Até o fim do episódio, ambas reconhecem que adorariam não ter a função em si – mas brigam para ganhá-la por razões que vão além de jogos de poder aparentemente deslocados em um jardim de infância.

Petra está presa à insegurança antiga de que não é tão capaz de se aproximar das filhas quanto outras pessoas – como o pai delas Rafael ou sua irmã Anezka – enquanto Jane tenta devolver ao filho Mateo a normalidade de que sua vida “novelesca” supostamente o privou.

É o pai de Jane, Rogelio (Jaime Camill), que enxerga na briga entre Petra e Jane as verdadeiras razões para as farpas trocadas e, abusando da vantagem de ter um ator de novela meta-comentando os acontecimentos da trama, elucida para Jane o que está realmente acontecendo: “As melhores rivalidades não têm a ver com o rival em si. Elas são sobre as inseguranças que o seu rival traz à tona em você.”

Rogelio entra como uma voz da razão para o conflito da semana de Jane the Virgin, mas poderia estar descrevendo também o que está no cerne da nova minissérie da HBO Big Little Lies. A um episódio de seu misterioso final, a série monta uma teia de personagens que saem de casa todos os dias com a energia e as garras necessárias para concorrer e ganhar qualquer eleição – e não só a de um título vago como “mãe da sala” (apesar de ser muito fácil imaginar todas participando ativamente da competição na escola de Jane the Virgin).

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Desde o início, Big Little Lies posiciona suas personagens principais em uma trama que promete alianças, rivalidades e atritos. Jane (Shailene Woodley) é a novata na cidade de Monterey, na Califórnia, e no primeiro dia de escola de seu filho, Ziggy, conhece Madeline (Reese Witherspoon, também produtora da série), uma mãe com personalidade similar à de Petra e que claramente já coleciona desafetos entre as mães da turma de sua filha, e que se agarra a Jane como nova aliada. A outra amiga de Madeline, e posteriormente de Jane, é Celeste (Nicole Kidman), uma ex-advogada mãe de gêmeos com uma vida aparentemente perfeita que aos poucos se revela uma das representações mais delicadas e reflexivas de violência doméstica que a cultura pop já nos deu.

“No centro de tudo está Madeline”, como proclama um dos outros pais da escola, que interrompem a história da série a todo momento em entrevistas para a polícia, que investiga um crime que até agora desconhecemos e no qual as personagens principais aparentemente estão envolvidas. Independentemente de quem morreu, no entanto, Madeline está no centro da história porque é ela que guia Jane no funcionamento da pequena cidade que também desbravamos ao longo dos sete episódios da temporada.

Isso significa apresentá-la a suas aliadas e suas rivais, entre elas Renata (Laura Dern), que desponta como principal inimiga após sua filha Amabella acusar o filho de Jane de ser violento com ela já no primeiro dia de aula. Madeline imediatamente toma as dores de Jane e oferece todas as suas armas para ambas minarem a influência de Renata, seja por meio do boicote a uma festa de criança ou da defesa legal de uma peça musical.  

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Fica claro logo de início que o que move Madeline são as inseguranças que Renata faz aflorar nela, como o fato de Renata ser uma executiva de sucesso que ainda assim acha tempo para buscar a filha na escola, ou a perspectiva de perder a aliança com Jane. A briga entre Renata e Jane é mais complexa, porque envolve seus filhos – o maior medo de Renata é a impotência causada por ver sua filha se tornar a vítima que ela lutou por tanto tempo para não ser. Jane, por outro lado, mais do que querer zelar pela segurança emocional do seu filho acusado injustamente, teme que seu maior medo se torne realidade e Ziggy revele ter traços do pai, um estranho que a estuprou em uma noite que ela ainda luta para superar.

Essas relações flutuam na superfície de Big Little Lies, que como o nome diz, conta uma história de pequenas mentiras que se acumulam para revelar as fraudes que carregamos diariamente, inseguranças que ficam muito mais fáceis de serem derrotadas quando são estampadas no rosto de outra pessoa. Talvez o maior exemplo disso seja Celeste e a atuação excelente de Nicole Kidman.  É nela que a personagem esconde o abuso que sofre de todos ao seu redor, menos da sua terapeuta, alguém que em toda sessão alterna entre uma aliada de quem Celeste sabe precisar e uma inimiga que se coloca entre Celeste e seu casamento.

São inseguranças que, inclusive, conseguimos transpor para a TV enquanto assistimos a personagens “difíceis” e muitas vezes irritantes como as mulheres de Big Little Lies. Pessoas que podem se tornar nossas verdadeiras rivais – e por consequência, reflexos do que mais tememos ou daquilo que tentamos esconder bem fundo. Enquanto o mistério do crime não é solucionado na série da HBO, o que se revela lentamente são as táticas e práticas que, tão batidas quanto tropes de novelas mexicanas, ainda são capazes de formar TV de altíssima qualidade quando são dissecadas com respeito e atenção. Qualidades nem sempre dedicadas a histórias domésticas e femininas como Big Little Lies e Jane the Virgin.

[Crédito das imagens: Reprodução/Divulgação/CW/HBO]