Better Call Saul: O nascimento e morte de Saul Goodman | Spoilers

Better Call Saul: O nascimento e morte de Saul Goodman

bettercallsaul

Quando vimos Saul Goodman pela primeira vez nas primeiras temporadas de Breaking Bad, ainda em 2009 – meu deus, há quase sete anos -, o advogado de moral duvidosa experimentou toda a inexperiência de um Heisenberg ainda em formação. Foi contratado para tirar Badger da cadeia, ameaçado de morte por dois idiotas inexperientes em máscaras de ski – “¿no Lalo?” – e, à sua própria maneira escusa, conseguiu amedrontar Walt o suficiente para se tornar um sócio silencioso do que seria o maior império de metanfetamina do Novo México.

À época, podíamos jurar que a nova parceria era o último passo que Walt precisava dar para entrar de vez na ilegalidade. Saul não era apenas um advogado criminal, como apontou Jesse, mas um advogado criminoso. Ele torce o sistema legal à sua vontade, chantageia e até sugere a morte de Badger. Naquela primeira visita ao seu escritório, no oitavo episódio da segunda temporada de Breaking Bad – não há palavras para descrever tamanha sdds -, seu envolvimento era sinal de perigo à vista. Mal sabíamos que, eventualmente, o ameaçado seria o próprio Saul.

Em “Uno”, o primeiro episódio de Better Call Saul, disponível hoje na Netflix Brasil quase simultaneamente à transmissão nos EUA, reencontramos Saul completamente transformado após o convívio com o homem que se tornaria Heisenberg. Agora ele é Gene, um homem calvo que passa seus dias mundanos em uma barraca de comida em uma praça de alimentação qualquer no Nebraska, apenas torcendo para que ninguém o reconheça. Seu único momento de distração é assistir a seus antigos comerciais de gosto duvidoso, uma janela para o tempo antes de se tornar um dos homens mais procurados do país. Ao contrário do que aprendemos durante os anos com BB, no entanto, o preto e branco da fotografia apresenta o presente, e não o passado.

Quando a cor volta, vemos Jimmy McGill – o homem que viraria Saul, que viraria Gene – em um tribunal de Albuquerque, Novo México, defendendo três adolescentes que, bem, deram todo um novo significado ao termo “headjob”. Apesar da confiança diante do júri, ele ainda não tem todo aquele swag que Goodman desenvolveria, fato evidenciado pelo cheque de apenas US$ 700 pela defesa e pelo esforço que ele gasta apenas para evitar pagar os US$ 3 do estacionamento – cobrados por um certo ex-policial que também é o melhor avô do mundo.

better-call-saul2

Como esta é uma produção de Vince Gilligan, o carro do protagonista, tal qual o Aztec bege dirigido por Walter White, é uma representação de sua própria alma. É assim que percebemos que a única auto-estima de Jimmy só pode ser considerada de forma literal: uma “auto estima” na forma de um Suzuki Esteem amarelo, com uma porta de cor diferente do resto, que, segundo a internet, pode ser comprado por cerca de US$ 2 mil atualmente. “The only way that entire car’s worth $500 is if there’s a $300 hooker sitting in it”, ele deixa claro a uma dupla que tenta lhe dar um golpe.

Ao longo do episódio, vemos diversas outras menções ao universo de BB, que não ficam limitadas a paisagem desértica de  Albuquerque, a cidade que aprendemos a amar ao longo de cinco temporadas (“hey, eu conheço esse salão de beleza de algum lugar!”). Mas Better Call Saul não demora a mostrar que apesar de dividir o cenário com a série anterior, tem sua própria jornada para contar. A participação de Michael McKean (do maravilhoso This is Spinal Tap), excelente como Chuck, o irmão mais velho de Jimmy, serve para transformar em humano quem já estávamos prontos a julgar como a velha doninha de sempre.

Saul Goodman pode ainda não ter sido criado durante a primeira metade do episódio, e nem existir mais na sua abertura. Mas perto do final temos um vislumbre daquele personagem com personalidade suficiente para dar nome à série, que começa de forma arrebatadora e cujo segundo episódio estará disponível amanhã pela manhã na Netflix. Resta agora saber se será Jimmy ou Saul quem escapará da participação/cliffhanger, que, ao fim do episódio, indica que o sangue, drogas e balas de que tanto sentimos falta ainda darão as caras por aqui.

Em tempo: Confesso que deixei escapar um gritinho de alegria quando, ao entrar na sala de reuniões, Jimmy gritou, a plenos pulmões, “You have meddled with the primal forces of nature, and I won’t have it! YOU. WILL. ATONE”, tirado direto de um dos maiores filmes já feito, Rede de Intrigas. Considerando que, lá em 2009, ele se apresentou como um Tom Hagen para o Vito Corleone de Walt, podemos crer que Jimmy manteve ao menos uma característica na sua transformação em Saul – além de um amante dos clássicos, a habilidade de estar incrivelmente enganado em suas analogias.

[Crédito das imagens: Divulgação/Netflix Brasil]