As séries que estão ajudando o terror a encontrar o seu espaço na TV | Spoilers

As séries que estão ajudando o terror a encontrar o seu espaço na TV

Penny Dreadful (Showtime)

Geralmente, um filme de terror nos apresenta uma situação autocontida que é explorada ao longo de 90 minutos até esta se resolver. Mesmo que um filme do gênero ganhe posteriormente uma sequência, ela ainda é uma continuação que se fecha nela própria ao final da projeção. Em teoria, o gênero de terror deveria funcionar muito bem numa série de tv, mas nem sempre foi o caso. A noção de uma série de terror que pede um investimento emocional do seu espectador ao longo de 13 semanas ou mais, dependendo de quantos episódios a temporada de uma série tenha, não é algo muito comum dentro do gênero, já que o público foi habituado a receber seus choques e se desapegar da obra uma vez que ela termina. De certa forma, é possível dizer que o terror é um gênero extremamente popular e simultaneamente também de nicho.

Por conta disso, o gênero precisou de adaptar à TV. Ao invés de procurar reproduzir a experiência visceral que um filme de terror pode provocar no seu público, as novas séries de terror estão tentando encontrar novas formas de explorar o gênero – às vezes expandindo para outros, como ficção científica (Arquivo X), o drama (Bates Motel) e até ação (Sleepy Hollow) – que façam o espectador voltar para cada novo episódio.

Porque o terror depende de momentos impactantes construídos lentamente, intervalos comerciais nunca foram o melhor amigo do gênero, ainda que agora o streaming prevaleça sobre o formato tradicional de um episódio dividido por blocos. Num artigo escrito para o site AV Club, o crítico Alex McCown sumariza:

“Se é aterrorizante descobrir o que existe no final de um corredor escuro pelo qual um personagem está caminhando com cautela, nada vai matar esses suspense mais rápido que subitamente ter esse corredor substituído por um comercial de cereais”

Ele também adiciona:

“Como resultado, o terror adaptou-se à estrutura da mídia de formas muito específicas. Na teoria, é apenas uma questão de retrabalhar sustos em pedaços menores e mais guiados pelas batidas da própria história, que (com esperança) formam e adicionam a um todo maior. Na prática, o que isto tem significado é uma divisão do gênero numa variedade de subgêneros, cada um desenvolvendo suas próprias táticas, tropes e histórias”.

Dinamismo, independente de existir numa série produzida para um canal aberto ou a cabo, é sempre essencial quando se trata de televisão. O senso de uma atmosfera perturbadora também é parte inerente do que define uma obra de terror, no entanto, esta é relegada a servir as exigências de sustentar uma temporada inteira.

Canibais, Assassinos e Mães e Filhos: o terror psicológico

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Séries de televisão já têm uma vantagem natural sobre o cinema, que é a quantidade de tempo que um personagem tem para ser (espera-se) bem desenvolvido. Isso permite mais espaço para investigar fobias e medos de cada um deles. Uma das séries que mais tirou vantagem disso, e se você acompanha o Spoilers você sabe do amor que boa parte da equipe tem por ela, é Hannibal. Produzida para o canal NBC, que segue o formato tradicional de episódios com intervalos, ela já nasceu um peixe fora d’água e desafiou os limites do que se pode mostrar na TV aberta. Ao se utilizar da estrutura de um procedural de crime, já bem estabelecido ao longo de décadas, ela contou a relação entre o Bem na figura de Will Graham (Hugh Dancy) e o Mal na figura do canibal titular (Mads Mikkelsen) e como dois personagens com filosofias opostas se enfrentam e afetam o mundo à sua volta.

True Detective (HBO), uma série que trabalhava em território similar, flertava com o terror para conferir peso à sua história e adicionar uma camada extra de perturbação, mas nesse caso era mais uma situação de uma série de investigação de utilizar do terror e não o contrário. Ela não era de terror mas se utilizava de tropes e referências (literárias e cinematográficas) para compor seu universo, algo que também pode ser dito de Dexter (Showtime), que no final acabava por ser apenas um thriller mesclado com drama e não de terror.

Paradoxalmente, Bates Motel (A&E), é uma série adaptada de um filme de terror, Psicose (1960, dir. Alfred Hitchcock), mas ganhou fôlego na TV ao se expandir para o drama. O terror subjetivo virou um drama psicológico, construindo um mundo próprio só para o ver implodindo aos poucos devido às ansiedades dos seus personagens. Em termos de atmosfera, a série parece ter buscado inspiração não na sua obra original mas em outra que nasceu na televisão, Twin Peaks (ABC), de David Lynch e Mark Frost. Se você a acompanhou, então você sabe que o seu elemento de estranheza era o que a destacava das demais, e foi uma tática que Bates Motel pegou para si e a fez encontrar – finalmente – seu próprio terreno original.

Embora não seja uma série de terror, Twin Peaks, por sua vez, ainda é essencial por ter trazido elementos inéditos para a televisão, como a atmosfera de sonho e perturbada que investia no incômodo e na confusão, algo que poucos ainda hoje conseguem explorar totalmente.

Adolescentes continuam correndo noite adentro: o terror slasher

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O terror slasher, um dos subgêneros mais populares que ganhou novo fôlego no cinema em 1996, quando Pânico (dir. Wes Craven) foi lançado e iniciou toda uma nova era de psicopatas caçando adolescentes transantes, é um dos gêneros que ainda não encontrou seu equivalente na televisão, mesmo que o referido filme tenha dado origem a Scream (MTV), que tenta transpôr para a TV o terror pós-moderno e autorreferencial do filme original que lhe deu o nome (e só isso, já que nem a máscara do assassino a produção pode utilizar). Slashers são tipicamente histórias com começo, meio e fim – e, numa série, um assassino que persegue adolescentes numa cidade pequena ao longo de mais de uma temporada requer uma suspensão da descrença redobrada por parte do espectador.

Porque é difícil levar essa premissa a sério, é mais fácil assumir o absurdo e escrachar a situação, e daí podemos falar de Scream Queens (Fox), criação de Ryan Murphy, que mescla o terror com a comédia, porém perde o elemento da seriedade no processo.

Os monstros da semana, todas as semanas: o terror sobrenatural

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Num exemplo bem sucedido, tanto que inclusive se tornou o parâmetro de como uma série de terror consegue funcionar bem na televisão, temos Buffy The Vampire Slayer (The WB), série adaptada de um filme fracassado homônimo por Joss Whedon. Essa série podia ter um pé firme na fantasia, mas em sua essência, Buffy ainda era uma série de terror. Se não por conta dela, então com certeza por conta das barreiras que ajudou a desbravar, a TV percebeu o seu sucesso e apelo junto ao público e com tempo também ganhamos Supernatural (The CW), The Vampire Diaries (The CW) e Teen Wolf (MTV).

Em todas, fobias e medos dos personagens eram explorados através dos monstros que eles enfrentavam semanalmente (o famoso “Monstro da Semana”), uma tendência popularizada também por Arquivo X (Fox) e que até hoje é utilizada, mais recentemente em Sleepy Hollow (Fox).

Vampiros, lobisomens e outros monstros são também figuras literárias que habitam o imaginário dos fãs do gênero desde que começaram a existir, que acabaram rendendo séries como True Blood (HBO) e Hemlock Grove (a tentativa da Netflix de ter sua própria True Blood). Finalmente, Penny Dreadful (Showtime) buscou suas referências nas origens da criação dos personagens, pondo na tela personagens famosos literários em confronto. 

Sobrevivendo num mundo pós-apocalíptico: o terror zumbi

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Falando de terror, é inescapável falar de The Walking Dead (AMC), que apesar de partir de uma premissa batida (mundo apocalíptico tomado por zumbis), encontrou formas inovadoras de dramatizar o horror dos personagens e inclusive reescrever regras do próprio gênero. Se ela ainda conseguiu manter o fôlego na sua temporada atual, é algo que discutimos mais a fundo no nosso podcast sobre terror na TV.

Além dela, iZombie (The CW) e BrainDead (CBS) são dois exemplos recentes que também usam o terror como premissa, mas encontram na comédia suas singularidades que as distinguem de formas originais.

O gênero do terror ainda caminha para encontrar seu próprio território. Com os novos métodos de exibição que privilegiam o stream (adeus intervalos comerciais) e o advento de temporadas inteiras lançadas ao mesmo tempo, que permitem a construção gradual de uma história, uma nova fase de ouro do gênero tem tudo para acontecer. Está mais do que hora da televisão se apropriar de um gênero que funciona há décadas no cinema, mas até isso acontecer de forma plena, está sendo simultaneamente fascinante e frustante ver o gênero desbravar seu próprio terreno.

[Créditos das imagens: A&E/AMC/CBS/Fox/HBO/MTV/Netflix/NBC/The CW/The WB]