Lide com as protagonistas que te incomodam | Spoilers

Lide com as protagonistas que te incomodam

Contém spoilers da quinta temporada de Girls.

O que é evoluir e amadurecer para uma mulher? É natural dizer que sua “fase rebelde” é a adolescência e que, conforme vão ficando ~mais maduras~, sua rebeldia e ansiedade diminuem. É quando elas estão prontas para encontrar um bom parceiro, manter um relacionamento estável, trabalhar em um emprego do qual não se reclama e que parece não atrapalhar sua agenda ideal de academia-manicure-pós-gradução-girls-night-out-encontros-com-a-família-jantares-caseiros-gourmet-com-o-namorado. 

Além de tudo, ser mulher madura é sorrir, não falar palavrões, ter um tom apropriado para falar, rir na altura certa, estar alinhada com a moda. Não nunca esquecer de sorrir. Sorrir é o código para o mundo entenda que ela é madura.

Na semana passada, Inside Amy Schumer voltou às telas para sua quarta temporada depois de ganhar todos os holofotes no ano passado com suas sketches que desconstroem a visão tradicional do que é ser mulher madura, interpretando personas que vivem situações que vão do incoerente ao ridículo para se encaixar nesses padrões. Em seu episódio de estreia da nova temporada, “The Most Interesting Woman in The World”, ela já mostra que para a sociedade só há um lugar onde as mulheres mais interessantes do mundo podem viver:

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Enquanto Amy faz sátiras, a questão do amadurecimento da mulher está em outros lugares na TV, na comédia, com Girls, Broad City e The Mindy Project, e drama, com UnREAL, The 100 e até mesmo The Good Wife. Porém nas histórias de amadurecimento de protagonistas mulheres que estão no ar hoje, elas em nada correspondem ao que a sociedade – machista – acredita ser o comportamento e objetivos de uma mulher adulta.

Por exemplo, se ela decide não voltar para seu país depois que seu intercâmbio internacional acaba, mas dias depois muda de ideia e decide voltar, ela não é madura.

http://setonfireinasilverdream.tumblr.com/post/142764936752/shoshannas-airport-meltdown-in-girls-5×08

Quando ela não quer evoluir num relacionamento com seu peguete e dá um fora nele durante o jantar, ela é imatura por estar deixando passar a chance de um relacionamento estável.

“Ela me deixa desconfortável”

Quando vamos assistir a trajetórias de mulheres na TV, carregamos essas expectativas e também temos um framework de evolução do personagem que esperamos ver: se temos uma personagem com dificuldade de relacionamento, ela terminará se casando; se temos outra traumatizada por algum fato passado, teremos superação que a faz se relacionar melhor com o mundo. Se a personagem convive com seus defeitos e os leva para a sociedade assim como é, não sabemos o que fazer com ela! Não sabemos se queremos assisti-la, se queremos ou devemos gostar dela, se temos que detestá-la, torcer por ela ou concordar com as ações. Principalmente se são protagonistas.

Durante todo o tempo em que essas mulheres estão na tela não correspondendo às suas expectativas como mulher e como personagem feminina, elas não querem que você goste delas e muito menos querem sua torcida para que “elas se acertem, se encontrem, se acalmem, etc”. Elas so querem que você as observem.

Sim, observe-as do mesmo jeito que você faz com Dr. House, Frank Underwood, Don Drapper, Hank Moody e Walter White. E se você começar a observá-las, você começará a entendê-las e se permitir acompanhá-las. Mais importante, exercite a empatia o suficiente para entender o quanto é sofrido para elas apenas serem quem elas são em suas próprias historias quando o mundo as condena por não funcionarem dentro do framework – narrativo, patriarcal – que dizem que é o correto.

Por mais que muitos, por exemplo, estejam satisfeitos com a season finale de Girls porque as 4 meninas pareceram encontrar ou estarem mais próximas de encontrar “seus rumos”, será que essa satisfação não é apenas um alívio momentâneo para que nosso lado conservador se acalme porque agora parece que elas estão mais próximas do padrão esperado? E se no começo da próxima temporada elas anularem tudo isso porque o seriado busca ser uma representação da mulher real? Você vai morrer de raiva porque elas novamente saíram do seu controle?

Amadurecer não é o que está descrito no início no post: é encontrar o seu lugar no mundo, e ele muitas vezes vai de encontro às expectativas dos outros. É hora de perceber que nem a vida real nem a ficção vão colaborar para que aquela ideia do que é ser mulher continue sendo difundida. Pelo contrário, tanto a TV quanto a realidade vão te convidar a sentar e observar que há muitos mais resultados diferentes do que se tornar bela, recatada e do lar.

[Crédito das imagens: Reprodução/Comedy Central/HBO]