A violência que humaniza Westworld e a que desumaniza The Walking Dead | Spoilers
Este texto contém detalhes do episódio 7x01 de The Walking Dead.

Eu lembro exatamente do momento em que eu comecei a assistir The Walking Dead. Era uma segunda-feira, eu estava desempregada, meu pai tinha gravado o primeiro episódio da série no gravador digital da NET e nós assistimos por volta das 17h. Eu lembro de como o sol se punha enquanto eu ficava instantaneamente fissurada nessa série que me rendeu bons momentos, mas com quem, em prol das boas memórias, eu vou encerrar o relacionamento.

The Walking Dead, hoje em dia, sintetiza tudo o que eu odeio em obras de fantasia e sci-fi: a criação de um universo onde a única função do gênero é dar motivo para que qualquer traço humano se perca em meio a muita, muita, mas MUITA violência – em sua grande maioria, completamente gratuita. Faz muito tempo que TWD se perdeu. Ao invés de continuar com a proposta inicial de ser uma série onde a humanidade de seus personagens iria ser explorada e discutida em um contexto de distopia, hoje ela não passa de uma  grande “exploitation” onde a trama só está interessada em nos tornar espectadores da próxima atrocidade.

Existe uma linha tênue entre uma série que explora a violência e uma série que apenas usa a violência como uma artifício para chocar.

Embora seja nova,Westworld tem sido um bom exemplo do segundo caso. Ambientada em um mundo onde um parque foi criado para que seus “hóspedes” possam fazer o que quiserem e, em sua grande maioria, cometer atrocidades, a nova série da HBO consegue discutir a “necessidade” dessa válvula de escape que na maioria das vezes deságua em selvageria.

É possível compreender o sadismo dos personagens que frequentam o parque, pois eles reconhecem que aquilo não é normal e justamente por isso usam esse ambiente controlado para extravasar suas frustrações diárias. Mais do que discutir o “porquê” desses atos brutais, no entanto, Westworld mostra os resultados disso. Ao que tudo indica, até máquinas estão suscetíveis a sofrer efeitos colaterais quando expostas a uma quantidade extrema de violência. Todo esse sistema violento está fadado ao fracasso, por mais que você formate o HD  no final do turno.

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Além de explorar o tema, a obra de Lisa Joy e Jonathan Nolan faz isso sem explorar a violência em si. Até agora foram raras as ocasiões onde nós de fato presenciamos assassinatos sangrentos, massacres ou pessoas sendo espancadas até a morte. Tudo acontece fora de enquadramento, feito de forma bem orquestrada ou num estilo que se assemelha ao pastelão, de forma que o público não crie uma relação com o ato de violência, mas sim com o fato de que esses personagens vivem isso diariamente. Nós nos conectamos sentimentalmente aos personagens pela dor que lhes rodeia e por eles não terem a consciência disso. Os poucos personagens que têm alguma noção do que se passa a eles se tornam rapidamente destrutivos, porque é isso que violência gera: mais violência.

Enquanto isso, The Walking Dead hoje peca ao destruir a conexão que nós temos com os personagens. Hoje, é impossível nos reconhecer em qualquer um deles. Viver no mundo onde os personagens vivem não parece mais crível e a realidade deles é completamente desumana, porém eles continuam vivendo como se nada estivesse acontecendo. Se o que lhes rodeia de fato os afetasse, aqueles personagens teriam se unido para matar Negan e sua trupe, ou morrer tentando. Mas não, eles ficam lá parados, sabendo que um deles será o próximo. Além de me fazer questionar a verossimilhança da relação dos personagens com o mundo ao seu redor, o primeiro episódio da sétima temporada me fez questionar a verossimilhança da relação entre eles: qualquer grupo que tenha a habilidade e as relações afetivas que o grupo de Rick possui teria se rebelado ao invés de ficar esperando Lucille escolher sua próxima vítima.

Assim como TWD, a forma como eu assisti o primeiro episódio de Westworld ficará na memória: No trabalho, por volta da meia-noite, pela HBO Go, enquanto esperava um produtor de finalização de um longa terminar o quality check. Agora só me resta torcer para que o final dessa nova aposta não seja tão trágico quando a anterior.

 [Crédito das imagens: Reprodução/HBO]