A idade que nunca chega em Girls | Spoilers

A idade que nunca chega em Girls

O texto abaixo contém spoilers da quinta temporada de Girls até o episódio “The Panic in Central Park”.

Todos os anos, minha mãe me liga próximo do aniversário dela e repete a mesma frase: “Sabe, eu vou fazer essa idade. Mas eu não me sinto com essa idade”. Como se a conversa fosse um roteiro, eu geralmente pergunto: “Mas com que idade você se sente, mãe?”. A resposta é sempre a mesma: “Uns 23, 24?”.

Mais próximo dos 40 do que dos 20 (mas ainda distante dos 40, okay?), eu comecei a entender melhor o que a minha mãe queria dizer com não se sentir sempre com a idade que você tem. Não é como se você se enganasse a ponto de achar que aguentaria várias noites seguidas sem dormir (ou mesmo uma só) bebendo como se tivesse o fígado de um adolescente e emendando noitadas com trabalho ou aula no dia seguinte. Sabemos a idade que temos porque nosso corpo nos dá vários avisos dos nossos limites, mas em nossas mentes, especialmente quando algo ruim acontece, a vida adulta parece uma construção que nos foi imposta, mas nunca chega de fato a se cristalizar.

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Em sua quinta temporada, Girls parece querer colocar essa hipótese debaixo do microscópio. Verdade seja dita, a série criada pela Lena Dunham sempre se ocupou com algo que ia além da amizade entre suas quatro protagonistas, aprofundando-se na ideia de que todas elas enfrentavam uma batalha diária de “achar seu lugar no mundo”.

Pós-faculdade, indo de emprego não ideal para outro emprego não ideal, Hannah, Shoshanna, Marnie e Jessa ainda acreditam que vocação é um conceito em que vale apostar e que, eventualmente, seus talentos são reconhecidos por chefes, pares românticos, amigos especiais ou membros da família.

O que acontece entre essas trocas de emprego, casa ou namorado é o que está dando combustível para uma das temporadas mais reflexivas da série. Hannah e Jessa vivem uma calmaria após um período turbulento de quebras de expectativas. Hannah não mais almeja a vida de uma escritora e Jessa já percebeu que seu estilo de vida imprudente apresentava mais riscos do que recompensas. Já Shoshanna e Marnie lidam agora com as consequências de descobrir que se você consegue viver dos seus sonhos, eles logo se transformam em pesadelos dos quais acordar é ainda mais difícil.

Em “Japan”, terceiro episódio da temporada, Shoshanna está satisfeita com o que conquistou: um emprego no qual ela é boa, num país em que tudo parece estimulante e um possível interesse amoroso impedido pelo relacionamento a distância que ela ainda mantém nos EUA. Quando o pior acontece e seu emprego e vida num país estrangeiro ameaçam desaparecer, Shosh toma uma decisão ousada, em parte balizada pela emoção que estava sentindo nas últimas semanas, em parte porque voltar para casa parecia um passo atrás em seu crescimento pessoal.

Ficar no Japão, porém, não manteve acesa sua fogueira de altas expectativas. Em “Queen for Two Days”, aprendemos que Shoshanna está presa em um sub-emprego que – na teoria – parecia muito condizente com a vida japonesa que ela havia estereotipado para si mesma. Seu relacionamento com o rapaz que conheceu no trabalho é baseado em uma mentira, suas amigas estão cada vez mais distantes, e as novas amizades são frágeis demais para fornecerem suporte. A crise de Shosh toma forma quando ela finalmente admite que as saudades de casa superaram a empolgação com o novo país ao mesmo tempo em que acha que agir sobre essas saudades não parece uma saída razoável.

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Enquanto isso, em “The Panic in Central Park”, Marnie ganha um episódio inteiro para si mesma quando tenta processar porque o casamento com o marido artista e bonito com o qual ela sempre sonhou parece estar caindo por terra. As constantes brigas motivadas pelas flutuações de humor do esposo forçam Marnie a viver uma espécie de aventura. Ao encontrar o ex-namorado Charlie, transformado em uma pessoa nova, meio perigosa e meio interessante, Marnie se deixa levar pelo misto de frustração com a vida atual e nostalgia pelo ex que a abandonou sem nunca explicar por quê.

Vestida para uma festa de gala que nunca chega, Marnie revive a sensação de estar apaixonada por alguém antigo, com direito a passeios noturnos pelo Central Park e um assustador assalto que aproxima ainda mais os ex-amantes. Cogitando o que fazer agora que essa pessoa voltou para sua vida, Marnie se depara com a mesma quebra de ilusão vivida por Shoshanna ao encontrar, no chão do apartamento, uma seringa usada por Charlie para injetar heroína.

A mentira dele (“eu tenho diabetes”), somada com o estado lastimável em que sua vida aparentava se encontrar, despertam Marnie para enfrentar a própria realidade: voltar para casa e encerrar o casamento que não tinha mais para onde ir.

Em um dado momento do episódio, Charlie tenta se desculpar por ter abandonado Marnie justificando seus 22 anos como prova de imaturidade. Ela, com 25 anos e meio, se sentindo superior ao seu eu do passado, entende o argumento imediatamente. Ao mesmo tempo em que, quando volta para a cama da melhor amiga e se recolhe em si mesma, percebe que sua idade atual pouco importa, já que ela não lhe garante qualquer estabilidade ou segurança quanto ao seu futuro.

Por trás de uma temporada que vê sonhos se transformarem em crises e crises darem origem a novos sonhos, as protagonistas de Girls estão pouco a pouco percebendo que esse ciclo implacável de desejos e arrependimentos não está confinado a nenhuma faixa etária.

Embora com o crescimento passemos a reconhecer certos cenários e a não mais depositar toda a nossa confiança na busca por sonhos impossíveis, a verdade é que a idade em que nos sentimos “prontos” nunca chega. Cabe a nós mesmos encontrar, a cada uma das crises, o caminho de volta para a idade que realmente temos para que, na inevitável chegada do próximo tropeço, nós tenhamos aprendido que não é tão fácil assim nos derrubar.

[Crédito das imagens: Divulgação/HBO]