A finale de Crazy Ex-Girlfriend foi um espelho honesto e solitário para o espectador | Spoilers

A finale de Crazy Ex-Girlfriend foi um espelho honesto e solitário para o espectador

Contém spoilers do season finale da primeira temporada de Crazy Ex-Girlfriend.

crazyex

Desde o início, Crazy Ex-Girlfriend teve entre suas melhores qualidades a capacidade de expor as incongruências e complexidades de ideias que muitas vezes entendemos como regras. O que significa ser louca? Em que forma vem o amor? O que é buscar uma nova versão de felicidade aos olhos dos outros e ao seu próprio? Já no meu primeiro texto, sobre o piloto, ficou claro para mim que a maior intenção da série não é apresentar respostas fáceis, mas te fazer pensar sobre o assunto.

Ao focar o season finale da primeira ótima temporada nos três relacionamentos mais importantes da série, com diferentes níveis de ilusão e resolução, Crazy Ex-Girlfriend conseguiu criar uma montanha russa de emoções que fez exatamente isso. Com a mesma confiança de quem se intitula Crazy Ex-Girlfriende afastou espectadores por isso – a série terminou com a mesma piscadinha inicial, e pediu novamente sua confiança para embarcar na segunda e já confirmada temporada.

A diferença é que agora temos uma excelente temporada de estreia na mão, comprovando a capacidade de Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna contarem uma história cheia de nuances, na qual conseguimos nos enxergar ao mesmo tempo em que rimos de um humor que vai do doce ao ácido com imensa facilidade. O season finale de Crazy Ex-Girlfriend foi, senão a história que você queria assistir, a que você precisava assistir.

Quem vai ficar com Rebecca?

Primeiro temos, finalmente, a revelação para Rebecca de como sua amizade com Paula era prejudicial para ambas. Paula se agarrou a Rebecca como um hobby e uma obsessão que substituía sua falta de controle em casa. Já Rebecca se agarrou a Paula, em parte, porque ela reproduzia a relação tóxica que sempre nutriu com a mãe. Crazy Ex-Girlfriend é muito eficiente em criar confrontos e situações iniciais que mostram apenas a superfície de um problema, para depois revelar a verdadeira questão por trás. É o que acontece com Paula e Rebecca no episódio 1×17, quando elas brigam e fazem as pazes após Paula admitir o medo de não ter mais assunto com Rebecca além de Josh.

Mas a resolução exigia colocar todas as cartas na mesa para que Paula percebesse que existe diferença entre ser amiga e exercer controle sobre os outros, e Rebecca perceber que estava buscando em Paula os mesmos padrões de sempre. Com as personalidades de ambas, a tendência vai ser haver outros escorregões no futuro, como a cena final delas demonstra, mas fica mais fácil superá-los quando todos os envolvidos são honestos tanto para o outro quanto para si mesmo.

Em contraste, ser honesto com o outro é o que falta na relação de Rebecca e Greg – duas pessoas que já entenderam, ou pelo menos têm uma ideia, do que sentem, mas que ainda assim hesitam na hora de se entregar por completo. Rebecca já passou pelo momento que Greg vive neste episódio quando sabotou o primeiro date de ambos, no pânico de ter finalmente encontrado uma pessoa com quem poderia ter uma relação real – e não uma ilusão como era sua imagem de Josh. Por ser real, a relação entre os dois é complexa, bagunçada e exige muito mais esforço do que apenas sonhar com um final feliz. Rebecca parece estar quase pronta para dar esse passo, mas fica claro neste episódio que Greg ainda não, e o resultado é ele ser um babaca para afastá-la. De nada adianta ser honesto com si mesmo – como no fim, quando ele finalmente percebe que a ama – se você não está pronto para ser sincero com o outro.

Já Rebecca e Josh são o resultado de quando a mentira é contada não só para o outro, mas para si mesmo. Josh finalmente toma uma atitude que ele claramente vem adiando há anos, que é terminar com Valencia – na verdade, nem isso ele é capaz de fazer, pois é ela que acaba o namoro após ele deixar claro que não há futuro para ambos (You go, Valencia!). Todos nós conhecemos Joshes – pessoas que, ao contrário de Greg, que não é capaz de manter um relacionamento fixo, são incapazes de ficar sozinhas – então não é surpresa ver que ele aproveita a “saída” do relacionamento com Valencia para correr atrás de Rebecca. Como se a única coisa que estivesse no caminho de ambos fosse Greg e Valencia e ele não tivesse diversas questões a resolver com si mesmo antes. Josh, que passou a temporada inteira convivendo com uma versão de Rebecca que era uma construção feita para atraí-lo, vai atrás dessa Rebecca justamente quando parece que ela está pronta para dizer adeus a essa versão de si mesma.

E Rebecca, que você achou que já tinha aprendido que a vida é mais do que apenas correr atrás de Josh, a mesma Rebecca que parecia ter superado o título da série, acompanha Josh nessa fuga não tanto porque ela quer ir atrás de Josh, mas porque ela queria ir atrás de alguém. Ela chega ao casamento na expectativa de “criar um momento” de conto de fadas com Greg, e quando a realidade e os problemas reais de Greg impedem esse final, ela se agarra à possibilidade de ter um momento mágico com Josh. É exatamente isso que ela consegue, ao som de uma música digna de um final de filme da Disney cantada pela maravilhosa Lea Salonga (a voz musical da Mulan e da Jasmine na Disney real), só para no fim a ilusão ser quebrada com a lembrança de que não estamos assistindo a um filme da Disney. O nome da série é Crazy Ex-Girlfriend.

“Falar com um espelho só aumenta a solidão”

É um artifício comum em comédias fazer o espectador achar que os personagens aprenderam com a jornada pela qual passaram ao longo da história, só para no fim eles darem aquele escorregão e voltarem para o ponto inicial. A ideia não é mostrar que o personagem mudou, e sim fazer com que o espectador assistindo reconheça que aquele momento final é um retrocesso. A jornada do personagem não foi tanto para o benefício dele, mas para o seu.

Você pode ser uma Rebecca, um Greg, um Josh, uma Valencia ou uma Paula, ou uma combinação de todos. Ao longo da sua vida, você vai encontrar outras Rebeccas, Gregs e Joshes, e talvez a visita a Crazy Ex-Girlfriend o ajude a reconhecer os padrões a que recaímos e as mentiras que contamos para os outros ou para nós mesmos. Ou talvez se deixe levar pelo medo ou pela ilusão de um momento especial. Assim como Rebecca, na cena em que fala seus desejos em voz alta para um espelho, o resultado pode ser perceber o peso da solidão na sua vida. Em Crazy Ex-Girlfriend, pelo menos, você terá um reflexo honesto e divertido – mas não menos brutal.

[Crédito das Imagens: Divulgação/The CW]