A difícil pressão de ser uma inspiração para milhares de pessoas | Spoilers

A difícil pressão de ser uma inspiração para milhares de pessoas

Fiona-Retrato2Amigos, amigas, pessoas com ambos os sexos e Jared Leto, se vocês estão lendo essa coluna: parabéns, vocês são pessoas melhores por isso. Essa semana passada eu estive sofrendo muito com stress relacionado a trabalho, porém eu fiz questão de descontar nos outros para aliviar um pouco da pressão. Às vezes, como vocês também devem saber, o próprio ato de acordar pode ser um martírio, mesmo nos dias em que realmente me oferecem 10 mil dólares para levantar da cama. Estas últimas semanas foram terríveis, e houve dias em que eu entrava na cozinha, enquanto minha filha Petula tomava café da manhã (usando pijama, como um animal), e eu praticamente engasgava. Mas felizmente eu estou sempre equipada com meu terno preto, lenço em volta da cabeça e óculos escuros, então consigo disfarçar o meu desdém.

Quando estou com esse tipo de humor, eu geralmente alterno entre dois programas: me admirar no espelho por vinte minutos e descer as escadarias da minha mansão lentamente, para que os serviçais possam me admirar do fundo dela. No entanto, dessa vez eu decidi recorrer à série Looking, que trata de jovens gays modernos sendo jovens gays modernos e se congratulando por serem jovens gays modernos. Apesar de eu não ser gay (2005 não conta), eu me identifico com os problemas enfrentados por alguns dos personagens. O principal, Patrick, é o meu preferido: ele é lindo e sempre olha para tudo com um ar tão exageradamente puro e inocente que me lembra aquelas modelos em America’s Next Top Model que moraram a vida toda no interior e dizem coisas como “nunca tinha visto uma pessoa negra na vida até agora”. Ele está tendo um caso com seu delicioso chefe, que é casado. Por algum motivo, o Patrick tem dilemas morais a respeito disto. Patrick: pare. Nós só vivemos uma vez, a não ser que você seja a Cher. Os amigos dele também têm problemas, mas eles são coadjuvantes, então não importa tanto.

Adicionalmente, essa semana eu continuei meu ciclo de filmes do Oscar, e deixa eu perguntar: até quando? Eu assisti Birdman (ou A Inesperada Virtude da Narcolepsia), onde atores gritam dramaticamente uns com os outros em busca do verdadeiro sentido da arte. O filme se passa durante a preparação de uma peça de teatro e bem… por onde eu começo? Eu não sei se existem coisas mais nefastas na face da Terra do que TEATRO, especialmente quando ele é interativo. Assistir Birdman é como ter uma pessoa me ameaçando com uma arma e perguntando ao mesmo tempo se eu gostei da roupa que ela está usando. Eu jamais gostarei desse mundo, mesmo nesse caso em que o filme usa a Naomi Watts. A Naomi pode ser divina, australiana e uma loira natural, mas tem algumas barreiras que eu simplesmente não atravesso e filmes envolvendo teatro são uma delas.

Então, eu decidi assistir A Ascensão de Jupiter, dos Wachowskis, pois se tem algo que me relaxa nessa vida é ver um orçamento milionário espalhado na tela de um cinema com ar condicionado. Eu sempre respeito mais um filme quando sei que os atores foram bem alimentados por um buffet decente nos bastidores e não deram entrevistas sobre como a filmagem foi “brutal” e eles não tiveram assistentes para os ajudar com maquiagem e cabelo, o que resultou num filme com “look natural”. A Ascensão de Jupiter é o contrário: todo mundo tem ar de que teve sete assistentes enquanto filmava. Ele é também meio estranho: eu não entendi muito bem o que estava acontecendo, apenas que a Mila Kunis é uma empregada de origem russa que descobre ser rainha do universo ou algo assim, e isso a faz limpar banheiros com mais alegria. É um filme perfeito para eu mostrar para a minha empregada Emmanuelle quando ela estiver se sentindo atrevida e vir me falar de direitos trabalhistas. Agora eu posso responder que em mundo ficcional paralelo ela talvez seja rainha de algum planeta, então melhor botar um sorriso no rosto e limpar o chão com mais atenção. É nesse momento que eu aponto para todas as manchas que encontro, inclusive as que estão na consciência dela.

Além do mais, a personagem de Mila, Jupiter, passa a duração do filme inteiro caindo de lugares altos e sendo salva pelo Channing Tatum, que mesmo com todo o delineador de olho consegue a proeza de enxergar para onde ele está indo. Se o filme se chamasse Jupiter Falls ele provavelmente seria mais preciso. Mas orçamento milionário é orçamento milionário, então tem isso.

Quando cheguei em casa todas as minhas séries estavam me esperando, como filhos pros quais eu ligo de verdade. Eu sei, que vida! Eu vejo minhas séries acumulando como as cartas de amor de meus fãs, que eu sempre leio e, dependendo do conteúdode algumas delas, eu entrego ao FBI. É difícil ser eu mesma. Às vezes acho que a única pessoa que me entenderia seria o Gandhi, porque, como eu, ele também era uma inspiração para milhares de pessoas e adorava dietas radicais. Como será que ele fazia quando tinha que conjugar filmes, séries, trabalho, terapia e também encontrar um tempo para ignorar a sua filha?

Falando em Gandhi, eu pretendo assistir e comentar sobre 50 Tons de Cinza na minha próxima coluna. Eu estou ansiosa para assistir o filme, mesmo sendo baseado num livro! Eu conheço o Jamie Dornan da série The Fall e ver ele fazendo O Sexo™ em IMAX já soa a um dos prováveis pontos altos de 2015. A única forma desse filme ser ainda melhor era se ele olhasse para mim pela tela do cinema e apenas dissesse “Fiona…” daquela forma suspirada dele. Na minha imaginação, talvez isso realmente aconteça. Talvez esse seja o remédio para me fazer acordar mais revigorada e pronta para um novo dia e, sinceramente, mais preparada para lidar com o difícil mas maravilhoso fardo de ser um ícone cultural.

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[Crédito das imagens: Reprodução HBO/Universal/Fox Searchlight/Warner Bros.]