É uma péssima ideia achar que mulheres são inimigas | Spoilers

É uma péssima ideia achar que mulheres são inimigas

Este post contém spoilers dos primeiros 11 episódios de Masters of Sex.

Se você olhar bem como a mídia retrata relações entre mulheres, vai achar uma quantidade enorme de exemplos que dão a entender que amizade de mulher é superficial, falsa ou acaba depois de qualquer briguinha por causa de homem.

Mas ao ver o penúltimo episódio desta temporada de Masters of Sex percebi que a TV americana este ano mostrou uma quantidade maravilhosa não só de amizades entre mulheres, mas de algo mais forte: vimos personagens femininas se unindo para se apoiar, se ajudar e se proteger dos obstáculos que surgem pela frente, criando verdadeiras irmandades e passando no teste Bechdel como se fosse prova em dupla com pesquisa.

Em MoS, Virginia e a Dra. Lillian viajam 17 horas cheias de perrengues para um evento de médicos, mas perdem o horário para a apresentação que Dra. Lillian faria sobre a importância do exame papanicolau. Quando o cansaço toma conta, Virginia tem uma ideia que começa com a frase: “Não há apenas fraternidades nesse mundo, há também irmandades” (traduzindo: hora de chamar azamiga).

 

 

As duas vão atrás das esposas dos médicos – já que os próprios jamais as receberiam no clube do bolinha que são suas partidas de golf – e conversam com elas sobre a importância do exame, convencendo várias (a maioria das quais eram enfermeiras ou secretárias dos maridos antes do casamento) a apoiar o projeto. Apesar da própria Dra. Lillian achar que o estudo de Virginia e Bill quer provar que mulheres não precisam mais de homens para alcançar a satisfação sexual, o ponto desse episódio é outro bem diferente: quando os homens (ou sistema machista que os beneficia) acabam sendo mais obstáculos do que ajuda, fica mais fácil fazer seu caminho se você tiver uma companheira mulher que entende das suas necessidades. Isso é ainda mais gostoso de assistir vindo de uma relação como a das duas personagens, que começou com a Dra. Lillian ressentindo os “atalhos” que ela deduz que Virginia tomou por ser bonita e dona daquela comunidade “Sou legal, não estou te dando mole”.

Essa noção de que mulher é invejosa e catfights acontecem toda hora é algo que filmes e televisão adoram propagar (lembrem da Branca de Neve e pensem em como isso vai longe). Se MoS conseguiu subverter essa “tradição” em um contexto sério, Brooklyn Nine-Nine conseguiu passar uma mensagem parecida usando toda a sua habilidade para fazer humor ~politicamente correto~ (um código para: sem pisar em cima de ninguém que já está no chão).

No 1×09, Amy Santiago descobre que a outra única detetive mulher do precinto, Rosa Diaz, foi chamada para ser capitã de uma delegacia. E fica com uma invejinha que faz todo o sentido porque Amy é do tipo super dedicada, puxa-saco do chefe e doida pra ser a melhor (imaginem Hermione policial). Isso poderia passar batido como uma subtrama qualquer onde Amy se mata para competir com Rosa, que não poderia se importar menos. Mas o que acontece? Rosa mostra a Amy que ela também não aceitaria o emprego se tivesse recebido a proposta, porque a tal delegacia é o lugar mais chato do mundo. E lembra que Amy não é mais a única garota no precinto e que por mais que elas não estejam nos anos 50 machista, as duas precisam se ajudar.

 

 

Se esses foram momentos em que esse sentimento foi colocado em palavras, a noção de que we girls gotta have each others back apareceu toda hora em outras séries ao longo de 2013. Orphan Black, como já escrevi aqui, é totalmente construída em torno de mulheres que descobrem que não têm autonomia da própria vida e resolvem se unir para lutar juntas contra seus “donos” – a protagonista Sarah é alguém que, ao longo da temporada, escolhe assumir a responsabilidade de liderar essa pequena revolução ao invés de salvar a própria pele.

Orange is the New Black leva a noção de irmandade pra um nível todo novo ao ter o que é provavelmente o maior elenco de mulheres que eu já vi numa série que não seja um reality show sobre modelos. E o que sai dessa mistura toda? Lógico que muita intriga, mas também muito sentimento de companheirismo, já que as personagens estão em um ambiente onde elas só tem umas às outras, e aqueles responsáveis por organizar a prisão e proteger as presas (no geral, homens) muitas vezes usam seu poder para fazer exatamente o contrário.

 

 

Eu poderia citar mais exemplos, como Trophy Wife, onde três ex-esposas do mesmo cara distribuem tapa na cara em quem acha que o comportamento natural delas é brigar, ou Reign, onde as mulheres comandam a narrativa e precisam se virar pra superar as diferenças e salvar um castelo tomado por inimigos. Até Game of Thrones abusou da licença poética ao adaptar GRRM e destacou alguns exemplos desse tipo de comportamento, como os impulsos de Shae em proteger Sansa quando a menina está sozinha numa corte cheia de inimigos(as), ou Margaery servindo como uma espécie de mentora para a mesma Sansa no jogo do você-precisa-usar-suas-armas-femininas, girl. Até Dany arranjou uma amiga e trocou palavras de motivação.

gotmen
Nas palavras sábias da nossa musa Beyoncé: quem manda no mundo? GIRLS. No plural.
[Crédito das Imagens: Reprodução/Netflix/Fox/Showtime/CW]